Cultura actual



A cultura actual corrói os padrões estéticos.  Ao declarar todos os gostos igualmente válidos e toda a hierarquia opressiva, destrói a capacidade de discriminar entre o que eleva o espírito e aquilo que o empobrece silenciosamente.  

É a tolerância que agora importa. E, aos poucos, os sentidos habituam-se ao disforme, ao bizarro, ao ruidoso, ao vazio — e aquilo que antes feria a sensibilidade passa agora a ser paisagem comum.  

A fealdade (feiura) instala-se como mobília da vida moderna, e o espírito, cansado, perdendo a memória antiga de um tempo superior, aprende a não esperar mais e a não reconhecer outra realidade.  E com isso, não é só o mundo exterior que se degrada: é o interior dos homens que encolhe, resignados a um horizonte sem beleza.  

E quando a beleza deixa de ser horizonte, deixa também de ser destino.  



 ■ ■ ■ 



Fonte:
https://www.facebook.com/rodrigo.penedo.9/posts/pfbid0j7KTmKygcsVf2sawz227eVvjHeUhDYkwDm8GHy5RZ6DVDWtxrHfftmziBcMD2BAyl



 ■ ■ ■  



A Torre da Babel

Torre de Babel, pintura de Pieter Bruegel


Após o diluvio a descendência de Noé multiplicou-se.  Durante muito tempo a humanidade vivia unida como um só povo, da mesma raça (ou espécie) e falando a mesma língua e compartilhando as mesmas palavras.  Viajando juntos, esses homens deslocaram-se para o oriente e encontraram uma vasta planície na região de Sinear, uma terra fértil situada onde era a antiga Babilónia.  Uma vez ali chegados decidiram se estabelecer e construir o seu futuro.  

Naquele agradável lugar, perceberam que podiam usar a sua inteligência e criatividade, para desenvolver novas técnicas de construção, preparando tijolos cozidos ao fogo em vez de simples pedras e usando o betume como argamassa para unir cada parte da obra.  Cheios de confiança nas suas próprias capacidades, disseram uns aos outros que deveriam erguer não apenas uma cidade, mas também uma torre tão alta que parecesse tocar os céus, símbolo máximo do poder humano e da grandeza do seu nome.  O objectivo, mais do que prático, era espiritual e simbólico: queriam se tornar famosos, garantir a sua própria segurança e evitar que fossem espalhados pela face da terra, preferindo a união em torno do próprio orgulho à obediência à vontade de Deus.  

Dia após dia, a construção crescia no meio da planície, e a cidade fortalecia-se como um centro de poder e de ambição dos descendentes de Noé.  Todos se entendiam com facilidade, pois ainda havia apenas uma linguagem no mundo, e essa unidade de fala facilitava a organização do trabalho, os planos e a continuidade daquele grande projecto.  Do lado de fora, quem se aproximasse podia ver uma obra monumental elevando-se no horizonte, acompanhada pela convicção dos homens de que nada seria impossível para eles se continuassem unidos daquele modo.  

Entretanto, o Senhor Deus observava o que estava acontecendo na Terra e viu que aquele projecto, nascido da soberba e orgulho do coração humano, representava uma tentativa de exaltar o próprio homem no lugar de Deus.  Então o Senhor “desceu” para ver a cidade e a torre — linguagem bíblica que mostra a atenção cuidadosa de Deus diante da pretensão humana de alcançar o céu por conta própria.  Ele reconheceu que, enquanto todos fossem um só povo e falassem uma só língua, continuariam a usar essa unidade para projectos que afastavam os seus corações da obediência e da confiança n'Ele.  

Foi então que Deus decidiu intervir de um modo inesperado.  Em vez de derrubar a torre com um grande desastre visível.  Ele tocou directamente na comunicação entre as pessoas.  De um momento para o outro, os trabalhadores começaram a falar línguas diferentes, e aquilo que antes fluía naturalmente — ordens, planos, combinações — transformou-se numa grande confusão.  Um pedia tijolos, outro entendia pedras, um queria betume, o outro trazia água, e assim por diante, incapazes de se entenderem, os homens experimentaram a ruptura da sua antiga unidade.  

Com a comunicação quebrada, a obra da torre foi gradualmente abandonada, pois já não havia como coordenar esforços nem manter o projecto comum que antes os motivava.  Aquela cidade recebeu o nome de Babel, palavra associada à ideia de confusão, porque ali o Senhor confundiu a língua de toda a Terra e, a partir dali, ordenou que os povos se espalhassem por diferentes regiões.  O que era para ser um monumento à glória dos homens acabou se tornando um marco de dispersão, lembrando às gerações futuras que toda tentativa de alcançar o céu confiando apenas na própria força termina em frustração.  

A história da Torre de Babel passou, assim, a ser contada como uma explicação para a multiplicidade de línguas e culturas presentes na humanidade.  Mais do que isso, tornou-se um alerta sobre o perigo do orgulho colectivo, quando povos e sociedades procuram construir a sua segurança e identidade afastados de Deus, utilizando os seus dons e capacidades para se exaltar em vez de servir.  Dessa forma, o relato bíblico lembra que a verdadeira unidade não nasce apenas de uma língua em comum ou de um grande projeto humano, mas da humildade de reconhecer a soberania de Deus sobre toda a Terra e sobre toda a humanidade. 

Este mesmo disparate de desobediência e afronta a Deus está actualmente em marcha nos países ocidentais, sendo levado a acabo por políticos adeptos do satanismo e do ateísmo.  Esses mesmos políticos fazem questão de que isso fique bem claro e o edifício do Parlamento Europeu é a prova disso mesmo.  

Edifício do Parlamento Europeus, em Bruxelas, Bélgica.
A semelhança do edifício com o da pintura de Pieter Bruegel é notável.


 ■ ■ ■  



O "Paraíso dos Ratos"

Um dos vários locais onde os ratos habitavam


O "Paraíso do Ratos", na verdade foi uma experiência científica e cujo nome era "Universo 25".  Este artigo é um resumo dessa experiência.  Note o leitor que: qualquer semelhança com as sociedades ocidentais actuais, não é coincidência!...

O "Paraíso dos Ratos" é uma das experiências mais enigmáticas da História das ciências sociais, que, através do comportamento de uma colónia de ratos, foi uma tentativa dos cientistas explicarem as sociedades humanas.  A ideia do "Universo 25" ou "Paraíso dos Ratos", veio do cientista norte americano John B. Calhoun,[1] que criou um "mundo ideal" no qual centenas de ratos viveriam e se reproduziriam.  

Mais especificamente, Calhoun construiu o chamado "Paraíso dos Ratos", um espaço especialmente projectado, com capacidade estimada para 5.000 animais, onde os roedores tinham abundância de comida e água, bem como um confortável e grande espaço habitável, todavia limitado  era a única limitação.  
  



Calhoun começou inicialmente a experiência com quatro casais de ratos, que em muito pouco tempo começaram a procriar, o que fez a sua população crescer rapidamente.  Tudo correu normalmente, até que, decorridos 315 dias, a reprodução começou a diminuir significativamente.  

Quando o número de roedores atingiu pouco mais de 600 indivíduos, formou-se uma hierarquia entre eles, em consequência disso, apareceram depois os denominados "miseráveis".[2]  Entretanto, os maiores roedores começaram a atacar o grupo,[3] resultando disso o facto de muitos machos começarem a "colapsar" psicologicamente.[4]  

Entretanto, derivado a esses factos, as fêmeas protegeram-se e, por sua vez, tornaram-se agressivas com as suas próprias crias.  Com o passar do tempo, as fêmeas mostraram comportamentos cada vez mais agressivos, adicionados a formas de isolamento e falta de ânimo reprodutivo.[5]  Calhoun denominou-as de "fêmeas isoladas".  Entretanto, houve uma redução da taxa de natalidade e, ao mesmo tempo, um aumento da mortalidade em ratinhos mais jovens.  

Subitamente, emerge uma nova classe de roedores (machos), denominados de "machos lindos".[6]  Eles "recusaram-se" (ou perderam a vontade?!?) de acasalar com as fêmeas e a "lutar" pelo seu espaço.  Eles só se importavam com comer e dormir.[7]  Então, num dado momento, os "machos lindos" e as "fêmeas isoladas", passaram a constituir a maioria da população.  

Com o passar do tempo, a mortalidade infantil e juvenil entre os roedores atingiu os 100% e a reprodução dos ratos caiu literalmente para zero.  Entre os ratos  já em vias de extinção  observou-se a prática de homossexualidade ("ratossexualidade") e ao mesmo tempo, aumentou o canibalismo, mesmo havendo abundância de comida.[8]  

Dois anos após o início da experiência, nasceu a última cria da colónia.  Em 1973, observando que a população dos roedores já não tinha mais viabilidade para prosseguir, John Calhoun matou o último rato do "Universo 25".  

Após concluída a experiência, Calhoun repetiu a mesma experiência cientifica por mais 25 vezes, e em todas as vezes o resultado foi o mesmo.  

O trabalho científico levado a cabo por John Calhoun entre as décadas de 50 e 70 do século passado, tem sido usado como modelo para interpretar o colapso social, e a sua pesquisa serve como ponto focal para o estudo da sociologia urbana.  

Como conclusão deste artigo, acrescento ao estudo de Calhoun o seguinte:  Se transpusermos as observações e conclusões obtidas nas 25 experiências de Calhoun, para as nossas (fracassadas) sociedades ocidentais, verificamos sobrepopulação, abundância de alimentos, ócio, violência, homossexualidade, etc, isto é, todas as condições sociais que os roedores tinham no declinio dos seus "paraísos".  Então, obviamente, podemos fazer futurologia e, tomar como certo para nós o resultado obtido com os ratinhos.  


 ■ ■ ■  



NOTAS  DE  RODAPÉ:
[1] - John B. Calhoun (1917–1995) foi um influente psicólogo e etólogo americano, famoso pelas suas
         experiências com ratos nas décadas de 1950 a 1970 a fim de estudar os efeitos da superpopulação.
         Ele criou o "Universo 25", também conhecido por "Cidade dos Ratos" ou "Paraíso dos Ratos".  

[2] - Em termos humanos equivaliam a excluídos da sociedade ("vagabundos").  

[3] - Em termos humanos equivaliam aos partidos de esquerda ou subversivos.

[4] - Facto observável actualmente de forma subtil nos homens ocidentais — nativos.  
           Creio ser derivado da perturbação social, bem como da imigração masculina massiva, criando
           grande desiquilíbrio demográfico e a consequente pressão sobre os homens nativos — da espécie
           humana branca.  

[5] - O equivalente humano a este comportamento nas mulheres ocidentais, é o facto delas se terem
          tornado licenciosas e desrespeitosas para com os seus maridos e namorados.  

[6] - Denominação "poética" de Calhoun para evitar a palavra "homossexuais" — "ratossexuais" se
          é que esta palavra existe.  

[7] - Comportamento cada vez mais verificável nas sociedade ocidentais.  

[8] - Podemos tomar tal comportamento dos roedores como o equivalente humano a uma sociedade
         completamente desorientada de valores, que se tornou aberta a novas "experiências" loucas.  



Sistema capitalista (uma lição)


SISTEMA  CAPITALISTA
( uma lição )


O mundo não está confuso, nem caótico, nem fora de controle, ele está operando exactamente como foi desenhado para operar. 

A sensação de caos nasce quando as pessoas comuns acreditam que o sistema existe para gerar equilíbrio, justiça e bem-estar colectivo.  Todavia, o capitalismo, na prática, não busca essa fantasia.  Ele sustenta-se na desigualdade, na escassez artificial e na concentração de poder. 

Quanto mais inseguros, endividados e cansados estão os pobres, mais fáceis são de controlar.  Quanto mais riqueza acumulam poucos, mais influência política, cultural e económica eles exercem. 

O sistema precisa de massas ocupadas em sobreviver, competindo entre si e culpando-se umas às outras, e não a questionar a estructura. 

Por isso, as crises não são falhas — são mecanismos.  

A desigualdade não é um erro — é a força motriz.  

O mundo parece desequilibrado apenas para quem ainda acredita que ele deveria ser justo e igualitário.  Porém, para quem entende a lógica do poder, ele está a funcionar com precisão. 

 ■ ■ ■ 



A República de Platão

Kallipolis
( Ilustração meramente decorativa )



A  REPÚBLICA
Platão
-  R E S U M O  -


Este ensaio é um pequeno resumo sobre o que consta na obra “A República”,[1] do conhecido filósofo Platão, que viveu na antiga Grécia.

A obra “A República” é um diálogo filosófico — cujos estudiosos acreditam ser imaginado — em que o autor Platão, por meio do personagem Sócrates, investiga o que é a justiça e como seria uma cidade perfeitamente justa, articulando ética, política, psicologia da alma e teoria do conhecimento.  A obra é composta por dez livros e é considerada um dos textos centrais da filosofia ocidental, pois define um modelo de cidade ideal (a Kallipolis[2]), governada por filósofos-reis.

A obra ”A República” é narrada pelo personagem Sócrates em primeira pessoa e escrita em forma de diálogo com diversos interlocutores, tais como Glauco, Adimanto, Polemarco e Trasímaco.  O objectivo declarado é responder se a vida justa é melhor do que a vida injusta, o que leva Platão a definir a justiça tanto na alma individual, quanto na organização da cidade.  A discussão desenrola-se em dez livros, nos quais o tema da justiça conecta-se com questões de educação, formas de governo, conhecimento, imortalidade da alma e papel da filosofia. 

Comecemos então o resumo do conteúdo desses dez livros: 



LIVRO  I  
PROBLEMA  DA  JUSTIÇA 

O Livro I da obra “A República” apresenta um diálogo em que o personagem Sócrates procura definir o que é a justiça, discutindo e refutando sucessivas definições dadas pelos seus interlocutores.  No final, a investigação permanece em aberto, funcionando como preparação para as análises mais profundas dos livros seguintes.  

Quando o personagem Sócrates visita a casa do velho Céfalo, onde começa perguntando-lhe se a justiça consiste em dizer a verdade, pagar as dívidas, etc, cuja ideia está ligada à vida honesta de um homem justo e piedoso.  

Entretanto, Polemarco, que é o filho de Céfalo, aperfeiçoa essa definição, sustentando que justiça é “ajudar os amigos e prejudicar os inimigos”, entendendo o justo como alguém que beneficia os bons e causa dano aos maus.  

Trasímaco, sofista, irrompe no diálogo afirmando que justiça é apenas “o interesse do mais forte”, isto é, aquilo que o governante estabelece em benefício próprio.  

Sócrates mostra que a definição de Céfalo leva a absurdos (como devolver armas a um amigo enlouquecido), indicando que a justiça não pode ser apenas cumprir obrigações formais.  

Em seguida, Polemarco refuta, argumentando que o justo não pode consistir em prejudicar ninguém, porque tornar alguém pior moralmente não pode ser uma ação verdadeiramente justa.  

Sócratres insurge-se contra Trasímaco, e, observa que governantes podem errar sobre o próprio interesse, e que, se a justiça for apenas vantagem do mais forte, então o justo às vezes exigiria contrariar o próprio benefício dos governantes.  

A posição de Trasímaco, que exalta a injustiça como mais vantajosa e lucrativa, é enfraquecida por Sócrates, mas não totalmente “derrotada” de modo definitivo.  

Sócrates conclui declarando que ainda não sabe o que é justiça, mas que a discussão mostrou a insuficiência das opiniões correntes e a necessidade de uma investigação mais rigorosa.  

Assim, o Livro I funciona como uma introdução crítica: recolhe, examina e desmonta concepções usuais de justiça, abrindo caminho para a construção positiva da teoria da justiça e da cidade ideal (a Kallipolis) nos livros seguintes da obra.  



LIVRO II
CIDADE  IDEAL  E  ALMA  TRIPARTIDA  

No Livro II, Glauco e Adimanto, desafiam Sócrates a demonstrar que a justiça é um bem em si mesma, melhor para o ser humano do que a injustiça, mesmo sem recompensas externas.  Glauco reforça o desafio com o mito do anel de Giges,[3] mostrando que, se alguém pudesse agir injustamente sem ser visto ou punido, tenderia a abusar desse poder, o que sugere que a maioria só é justa por medo da punição ou por conveniência social.  

Para responder a esse desafio, Sócrates propõe investigar a justiça primeiro “na cidade” e depois “na alma” individual, construindo em discurso uma cidade simples (Kallipolis) baseada na cooperação e na divisão de trabalho, onde cada um faz aquilo em que é mais apto.  A partir da passagem dessa cidade simples a uma cidade luxuosa, surge a necessidade de defesa e, com isso, do grupo dos guardiões, cuja índole deve combinar coragem, mansidão com os amigos e agressividade controlada contra inimigos.  

O livro encerra-se com a introdução do tema da educação desses guardiões, fundada em música e ginástica, e com o início da crítica à poesia e aos mitos que apresentam deuses enganadores ou imorais, pois tais narrativas corromperiam a alma dos futuros defensores da cidade.  Assim, o livro prepara o terreno tanto para a teoria da cidade justa quanto para a análise da alma justa, respondendo gradualmente ao desafio de provar a superioridade intrínseca da justiça.



LIVRO  III
EDUCAÇÃO  E  O  PAPEL  DOS  GUARDIÕES

Neste livro, o autor (Platão) continua o tema da educação (paideia) que é o eixo da formação dos guardiões dos guardiões, detalhando que tipo de poesia, música e ginástica, deve ser permitida na cidade justa a fim de moldar o carácter e fortalecer o corpo.  O personagem Sócrates defende uma rigorosa censura aos poetas: não se devem narrar histórias que tornem os deuses injustos, covardes ou enganadores, nem que incentivem o medo da morte, o excesso de riso, o luxo, a embriaguez ou a desmedida das paixões, pois tudo isso corromperia a alma dos futuros guardiões.  

Quanto à música, Sócrates distingue letras, harmonia e ritmo, aceitando apenas os modos musicais que reforcem a coragem, o autocontrole e a simplicidade, e rejeitando os que promovem moleza, lamentação ou licenciosidade.  Em seguida, passa à ginástica, defendendo uma educação física voltada para a saúde, a sobriedade e a disciplina, evitando tanto o excesso de dureza quanto o de suavidade, para formar almas equilibradas.  

Na parte final, o diálogo aborda a escolha dos governantes dentre os guardiões, que devem ser os mais sábios, firmes e leais ao bem da cidade.  Sócrates introduz então o chamado “Mito dos Metais[4] ou “Conto Fenício”, segundo o qual os cidadãos nascem com ouro, prata, ferro ou bronze na alma, o mito educativo usado para justificar as três classes (governantes, guardiões auxiliares e trabalhadores) e reforçar a ideia de que cada um deve ocupar o lugar para o qual é naturalmente mais talhado.  A cidade justa (ou cidade ideal), dirige a educação desde cedo, seleccionando progressivamente aqueles com mais aptidão para o conhecimento até formar os futuros governantes-filósofos, após um longo percurso que chega até 50 anos.  



LIVRO  IV
EDUCAÇÃO  E  O  PAPEL  DOS  GUARDIÕES  

No Livro IV, Sócrates retoma a organização da cidade justa para responder à objecção de que os guardiões viveriam de modo pobre e, portanto, infeliz, ao não possuírem propriedades privadas.  Ele argumenta que o objectivo não é a felicidade isolada de um grupo, mas a harmonia do conjunto da cidade, o que exige que os guardiões estejam livres da corrupção, da riqueza e da degradação da miséria.  

A partir daí, são analisadas as condições que preservam essa cidade: evitar extremos de riqueza e pobreza, manter a unidade política e cuidar rigidamente da educação e dos costumes, para impedir divisões internas como se a cidade se partisse em “duas cidades”, a dos ricos e a dos pobres.  Nessa estructura, Platão identifica quatro virtudes na pólis: sabedoria (nos governantes), coragem (nos guardiões auxiliares), moderação (como acordo entre todas as classes) e justiça, definida como cada classe a ocupar-se da função que lhe é própria, sem usurpar o lugar das demais.  

Na segunda parte do livro, Sócrates transfere essa análise para o interior da alma humana, propondo que ela também possui três partes: a racional, a irascível (ou colérica) e a apetitiva.  Assim como na cidade, a justiça na alma consiste numa ordem em que a parte racional governa, auxiliada pela parte irascível, mantendo sob controle os apetites, o que gera um estado interno de equilíbrio e saúde moral, superior à vida do injusto.   



LIVRO  V
COMUNHÃO,  IGUALDADE  E  FILÓSOFOS-REIS  

O personagem Sócrates introduz três propostas audaciosas ligadas à cidade justa: a possibilidade de que mulheres e homens recebam a mesma educação e possam exercer as mesmas funções políticas e militares; a comunidade de mulheres e filhos entre os guardiões; e a exigência de que os filósofos sejam os governantes da cidade (filósofos-reis).  

A primeira tese afirma que a diferença entre homens e mulheres não impede que ambos possam ser guardiões e governantes, desde que tenham a mesma natureza para as mesmas tarefas, o que justifica uma formação idêntica em música, ginástica e filosofia.  

A segunda tese aprofunda o “comunismo” dos guardiões: entre eles não haveria família privada, nem propriedade, mas comunidade de bens, mulheres e filhos, para evitar conflitos de interesses.  Todos são regulados em benefício do bem comum, e os filhos são criados colectivamente para fortalecer a unidade da pólis.  Platão também defende que as mulheres aptas devem receber a mesma educação que os homens e podem igualmente tornar-se guardiãs, contrariando os costumes da sua época.  

Surge então a terceira tese que sustenta que a cidade só será plenamente justa se os filósofos governarem ou se os governantes se tornarem verdadeiros filósofos.  Apenas quem conhece o “Bem” em si — o filósofo — está qualificado para governar e ordenar a cidade conforme esse conhecimento.  Assim, a cidade justa precisa ser governada por filósofos-governantes (ou filósofos-reis).  

Ao longo do livro, discute-se ainda como essa constituição ideal favorece a máxima união entre os cidadãos, que devem alegrar-se e sofrer em conjunto, como um só corpo, reforçando a ideia de que a justiça é uma harmonia tanto da cidade quanto da alma.  



LIVRO  VI
CONHECIMENTO  

Neste livro, Sócrates retoma a tese de que os filósofos devem governar e procura definir com mais precisão quem é o verdadeiro filósofo, distinguindo-o dos falsos filósofos e dos sofistas.  O autêntico filósofo ama o saber, busca contemplar o que é imutável e eterno, é moderado, justo, avesso à ambição vulgar e, por isso, seria o mais apto a guardar as leis e ordenar corretamente a cidade.  

Em seguida, o livro investiga por que, nas cidades reais, as naturezas filosóficas costumam corromper-se ou tornarem-se inúteis, usando imagens como a do “Navio de Estado”,[5] em que o verdadeiro piloto é desprezado por marinheiros ignorantes que disputam o comando. Sócrates argumenta que apenas numa constituição bem ordenada essas naturezas poderão desenvolver-se plenamente e assumir o governo, unindo saber e poder.  

Na parte final, surge o tema central do “Bem”.  Platão distingue a opinião (doxa), ligada ao mundo sensível, do conhecimento (episteme), ligado às “Formas” ou “Ideias”, a chamada “Analogia do Sol[6] e apresenta o esboço da “Linha Dividida[7] para graduar níveis de realidade e de saber, que preparam o terreno para a hierarquia dos modos de conhecimento e para a “Alegoria da Caverna[8] do livro VII, indicando que a educação filosófica é uma ascensão gradual até a contemplação do “Bem” em si.  Mais que as outras ideias, ele é a causa da verdade e da inteligibilidade, sendo comparado ao Sol que torna visíveis as coisas e permite à visão enxergá-las.  



LIVRO  VII
O  BEM  E  ALEGORIA  DA  CAVERNA  

Sócrates apresenta a célebre alegoria da caverna para ilustrar o processo educativo da alma, que passa das sombras da opinião ao conhecimento das “Formas” e, por fim, à contemplação do “Bem”.  Os prisioneiros acorrentados, que tomam sombras por realidade, simbolizam os seres humanos presos ao mundo sensível.  A difícil subida para fora da caverna representa a longa formação filosófica, culminando na visão do Sol como imagem do “Bem”.  

O livro enfatiza que o filósofo, após contemplar o “Bem”, não deve permanecer na “região luminosa”, mas tem o dever de retornar à caverna, isto é, à cidade, para governar e educar os demais, mesmo enfrentando incompreensão e hostilidade.  

Sócrates detalha então o currículo dos futuros filósofos-governantes (ou filósofos-reis): após a formação inicial em música e ginástica, eles estudam aritmética, geometria, astronomia e harmonia, culminando no exercício rigoroso da dialética, distribuído em etapas que vão da juventude até cerca dos cinquenta anos, quando estão aptos a assumir o governo da cidade ideal.  



LIVROS  VIII
FORMAS  DE  GOVERNO  E  PSICOLOGIA  

Neste livro, Sócrates passa da descrição da cidade justa para o estudo da sua decadência, apresentando uma sequência de regimes políticos degenerados em relação à aristocracia dos filósofos-governantes. Cada forma de governo corresponde a um tipo de alma, de modo que a corrupção política é também uma corrupção moral individual.  

Primeiro, a aristocracia[9] degenera em timocracia, regime dominado pelo espírito guerreiro e pela busca de honra, no qual ainda há algum respeito pela lei, mas cresce a ambição e o gosto pela vitória.  

Em seguida, a timocracia transforma-se em oligarquia (governo dos ricos), marcado pela valorização extrema da riqueza, pela exclusão dos pobres do poder e pelo aumento das desigualdades sociais.  

Da oligarquia nasce a democracia, quando os pobres, revoltados, derrubam os ricos e instauram um regime de ampla liberdade, onde quase todas as formas de vida são toleradas e a igualdade é levada ao extremo.  

Por fim, da liberdade excessiva da democracia surge a tirania.[10]  O povo entrega o poder a um “protector” que, pouco a pouco, elimina opositores, concentra autoridade em si e converte-se no tirano, expressão máxima da desordem da alma dominada por apetites desenfreados.  



LIVRO  IX
CRÍTICA  AO  TIRANO  

Neste livro, Sócrates aprofunda a análise do tirano e mostra como ele nasce a partir do homem democrático, dominado por desejos desordenados que se transformam em paixões tirânicas.  Esses desejos selvagens e sem lei, que em muitos aparecem apenas nos sonhos, assumem o controle da alma tirânica, tornando-a escrava de apetites incessantes e incapaz de verdadeira amizade ou liberdade interior.  

A partir daí, o texto compara os prazeres do filósofo, do ambicioso e do amante do lucro, argumentando que o prazer ligado ao conhecimento e à parte racional da alma é o mais verdadeiro, ao passo que os prazeres do tirano são pobres, instáveis e inferiores.  Conclui-se que o tirano, embora seja poderoso externamente, é na verdade o mais infeliz dos homens, enquanto o justo, mesmo sofrendo injustiças, e especialmente o filósofo, possui a vida mais ordenada e prazerosa, confirmando a tese central de que a justiça é melhor e mais feliz do que a injustiça.  



LIVRO  X
CRÍTICA  À  POESIA  E  MITO  DE  ER  

O personagem Sócrates retoma e radicaliza a crítica à poesia e às artes miméticas, sustentando que o poeta imitador está “três graus” afastado da verdade, pois imita não a realidade em si, mas as aparências sensíveis, produzindo imagens que excitam a parte irracional da alma e enfraquecem o juízo racional.  Por isso, a poesia trágica e épica, especialmente a de Homero,[11] é vista como perigosa para a cidade justa, devendo ser excluída ou rigorosamente controlada, a menos que se possa demonstrar alguma utilidade moral e educativa.  

Em seguida, o livro aborda a imortalidade da alma, argumentando que o mal não consegue destruí-la e que, portanto, ela subsiste após a morte, devendo prestar contas da sua vida justa ou injusta.  Para ilustrar o destino das almas, Sócrates narra o “Mito de Er”,[12] o guerreiro Panfílio que morre em batalha, contempla os juízos e escolhas de novas vidas no além e retorna para contar o que viu, mostrando que cada alma escolhe o seu futuro modo de vida e é responsável pela sua própria sorte.  

Com esse mito, Platão conclui a obra e retoma a crítica à poesia mimética,[13] acusando poetas trágicos e épicos, de imitarem aparências e despertarem emoções inferiores, o que afasta a alma da verdade e da racionalidade.  Platão reforça a tese central de que é sempre melhor ser justo do que injusto: a justiça traz ordem e felicidade à alma neste mundo e prepara a alma para um destino melhor no outro.  

Termina assim “A República”, unindo a política, a ética e a escatologia, ao mostrar que a escolha da vida justa não é apenas racionalmente superior, mas decisiva para o percurso eterno da alma.  



CONCLUSÃO  E  IMPORTÂNCIA  DA  OBRA 

Entre os temas centrais estão: a justiça como harmonia interna e social, a cidade ideal (Kallipolis) dividida em classes funcionais, a educação estatal rigorosa, a teoria das “Formas”, a primazia do “Bem”, acrítica à democracia ateniense e a defesa de um governo dos sábios.  A obra articula estreitamente ética e política, ao mostrar que uma cidade justa depende de cidadãos cujas almas sejam governadas pela razão, analogia que marcou toda a tradição posterior.  

A obra “A República” influenciou profundamente a filosofia política, a teoria da educação e a metafísica ocidental, sendo lida tanto como utopia normativa quanto como projecto problemático que suscita debates sobre o autoritarismo, tecnocracia e o papel do conhecimento no exercício do poder.  

 ■ ■ ■ 



NOTAS  DE  RODAPÉ:
[1] - Em grego, o título original é, Πολιτεία (Politeia), que significa “Constituição”, “Cidade” ou
          “Regime Político”.  
[2] - Entenda-se: Cidade-Estado, pois era assim que as cidades existiam naquela época.  
[3] - O Anel de Giges é um mito apresentado por Platão na obra “A República” para discutir se alguém
          continuaria a agir com justiça mesmo tendo o poder de cometer injustiças sem ser visto ou
          punido.  A história resume-se a um pastor chamado Giges que vivia numa cidade chamada Lídia,
          um dia ele encontrou um anel mágico que quando girado o tornava invisível. Com esse poder ele
          seduziu a rainha, matou o rei e toma o trono da cidade Lídia.  
[4] - O “mito dos metais” é uma história criada por Platão para justificar, de forma simbólica, a divisão
          das classes sociais e promover a harmonia dentro da cidade ideal.  O mito é apresentado como
          uma “nobre mentira”, ou seja, uma narrativa útil para manter a coesão social.  
[5] - O “Navio de Estado” é uma metáfora usada por Platão, para explicar porque a maioria das cidades
          é mal governada e porque apenas os filósofos deveriam governar.  É uma das imagens mais fortes
          da obra e funciona quase como uma crítica política disfarçada.  
[6] - A “analogia do Sol”, é uma das três grandes metáforas que explicam a sua teoria do conhecimento,
          juntamente com a “Linha Dividida” e a “Alegoria da Caverna”.  Ela funciona como uma ponte
          entre o mundo sensível e o mundo inteligível. Platão pede que imaginemos o Sol como uma
          imagem do “Bem”, a realidade suprema no mundo das Ideias.  
[7] - A “Linha Dividida” é uma das explicações mais elegantes e profundas que Platão apresenta na obra
          “A República” para mostrar como funciona o conhecimento humano e como a mente progride da
          ilusão até a compreensão filosófica.  Ela é a ponte conceptual entre a “Analogia do Sol” e a 
          “Alegoria da Caverna”.  
[8] - Na “Alegoria da Caverna”, Platão descreve um grupo de pessoas que vive acorrentada dentro de
          uma caverna desde o nascimento, olhando apenas para uma parede.  Atrás delas há uma fogueira,
          e entre a fogueira e os prisioneiros passam pessoas carregando objetos.  Os prisioneiros veem
          apenas sombras projectadas na parede e acreditam que essas sombras são a realidade.  
[9] - Aristocracia, no sentido clássico, é uma forma de governo em que o poder está nas mãos dos
          “melhores”.  Pelo menos de acordo com a definição original da palavra grega: áristos =
          “melhores” e kratos = “poder” ou “governo”.  
[10] - Na Grécia antiga, a tirania não tinha inicialmente o sentido negativo que tem hoje.  Ela era 
            vista como um governo em que um indivíduo tomava o poder de forma não hereditária e
            fora das leis da pólis, mas muitas vezes com o apoio popular e como alternativa às oligarquias
            aristocráticas.  
[11] - Homero, é o autor dos dois maiores poemas épicos da Grécia Antiga — Ilíada e Odisseia — obras
            que moldaram toda a literatura ocidental.  Esses poemas, transmitidos oralmente por séculos, são
            a base da poesia épica grega e continuam a influenciar arte, filosofia e narrativa até aos tempos
            actuais.  
[12] - O mito de Er, descreve a jornada de um guerreiro que morre, visita o além e retorna à vida para
            contar como as almas são julgadas, recompensadas, punidas e escolhem as suas próximas vidas.
            Ele funciona como uma grande reflexão sobre justiça, destino e responsabilidade moral.  
[13] - Poesia mimética é a poesia entendida como mímesis, ou seja, como imitação ou representação da
            realidade, das acções humanas ou das aparências — um conceito central na teoria estética grega,
            especialmente em Platão e Aristóteles.  

 ■ ■ ■  

Para fazer o download deste artigo (.pdf) click aqui.



O Proto-Comunismo de Platão

O  PROTO-COMUNISMO  DE  PLATÃO



Começo este post fazendo referência a duas pequenas menções do Dr. António de Oliveira Salazar, proferidas em 1932 e 1937, na imprensa escrita daquele tempo e num discurso à nação portuguesa respectivamente.  Transcrevo abaixo: 



Podemos também observar mais esta: 



De facto, o filosofo Platão, na antiga Atenas (“Grécia”), descreveu na sua obra “República”, o que podemos chamar de um proto‑comunismo, ou seja, algo muito parecido com as fantasiosas teorias políticas que Karl Marx viria a escrever no século XIX.  Podemos perfeitamente especular que Karl Marx tomou a ideia de Platão, fez algumas adaptações a fim de a adequar melhor à realidade social da Alemanha do século XIX e aos objectivos políticos de quem o contratou e, reescreveu‑a no seu famoso livro o “Manifesto Comunista”.  

A obra “República” é um diálogo filosófico — que se crê ser imaginado — em que o seu autor, ou seja, Platão, por meio do personagem Sócrates (que é o narrador), investiga o que é a justiça e como seria uma cidade perfeitamente justa, articulando ética, política, psicologia da alma e teoria do conhecimento.  A obra é composta por dez livros e é considerada um dos textos centrais da filosofia ocidental, pois define um modelo de cidade ideal (a Kallipolis), governada por filósofos‑reis.  

Então, Kallipolis é a cidade ideal concebida por Platão na obra “República”, pensada como o espaço em que a justiça se realiza de forma plena na vida colectiva da cidade.  Nela, a ordem política, a educação e a organização social, são estruturadas para permitir que cada cidadão viva de acordo com a sua natureza e contribua para o bem comum.  

A investigação sobre a justiça leva Platão a projectar uma pólis (cidade) em que o justo não é apenas uma virtude individual, mas a harmonia do todo social.  A cidade é “bela” (“kalli‑polis”), porque a sua forma política espelha a ordem racional da alma, integrando razão, coragem e desejo em perfeito equilíbrio.  

Para conseguir esse perfeito equilíbrio, Platão propôs estructurar a Kallipolis em três grandes classes, cada um delas tendo um função especifica, conforme demonstrado abaixo:  

Produtores: 
Composta por agricultores, artesãos, comerciantes e demais trabalhadores (escravos) responsáveis pela subsistência material da cidade.  
Guardiões (auxiliares): 
Composta por responsáveis pela defesa interna e externa, devendo cultivar coragem e disciplina.  Entre os guardiões não haveria família privada, nem propriedade, mas comunidade de bens, mulheres e filhos, para evitar conflitos de interesses.
Governantes‑Filósofos: 
Composta por uma minoria (filósofos) é responsável por governar a cidade e, escolhida pelo amor ao saber e pela capacidade de conhecer o “Bem” em si.  


Logo portanto, a justiça, nesse modelo, consiste em que cada classe cumpra com a sua própria função sem usurpar o papel das outras, garantindo por essa forma a coesão da cidade.  

O regime político de Kallipolis é descrito como uma espécie de aristocracia do saber, em que governam os melhores em conhecimento e virtude.  Esses filósofos‑reis passam por um longo processo educativo, que inclui matemática, dialética e formação moral, antes de assumir qualquer função de comando.  

Platão argumenta que somente quem conhece a ideia de “Bem” está apto a legislar para todos, pois enxerga o que é realmente vantajoso para a cidade como um todo, e não apenas para alguns grupos ou indivíduos em particular.  

A educação em Kallipolis é central e rigorosamente controlada desde a infância, pois é por meio dela que se formam cidadãos ajustados à sua função natural.  Mitos, poesias e narrativas são selecionados ou censurados conforme contribuam ou não para o desenvolvimento de virtudes como temperança, coragem e justiça.  

Os guardiões, por exemplo, são educados para unir a mansidão com a firmeza, de modo a proteger a cidade sem se tornarem tirânicos.  A propriedade privada e a vida familiar dos governantes e guardiões são severamente restringidas para impedir conflitos de interesse e favorecer o cuidado com o bem comum.  Isto é, os governantes e os guardiões estariam proibidos de possuir bens ou propriedades.  

A Kallipolis nasce como resposta crítica à experiência histórica de Atenas, marcada, aos olhos de Platão, por uma democracia degenerada e por regimes tirânicos.  Ao imaginar uma cidade inteiramente ordenada pela razão, Platão delineia a primeira grande utopia política do pensamento ocidental, na qual a política é extensão da filosofia e da educação moral.  

Mais do que um projecto urbanístico ou institucional detalhado, a cidade ideal funciona como modelo: uma imagem no limite que permite “julgar” a distância entre as cidades reais e uma ordem verdadeiramente justa.  

Claro que as ideias mencionadas na “República”, sobretudo no que toca ás classes dos filósofos‑reis e dos guardiões, assemelham‑se — aos olhos de muitos — ás ideias de Estado Comunista propagadas por Karl Marx (e seus correligionários) no seu livro “Manifesto Comunista”, e mencionadas por Salazar e muitos outros.  

Todavia, é importante que o leitor não se iluda.  A cidade Kallipolis descrita na obra “República” não passa de um exercício da imaginação fértil de Platão.  

No Mundo real, a cidade Kallipolis e o Estado Comunista, são somente duas utopias muitíssimo improváveis de se realizarem!...  

 ■ ■ ■  



Para ver um resumo da obra "A República" de Platão click aqui

Para fazer o download deste post (.pdf) click aqui.