Volfrâmio (ouro negro)

Volfrâmio

Houve um tempo, em Portugal, em que homens que toda a vida tinham passado fome poderiam se dar ao luxo de acender cigarros com "notas de banco".  Não por desprezo pelo dinheiro, mas por excesso dele, e pela incredulidade de quem nunca tivera nada e de repente tinha demasiado.  

Foi nos anos em que decorria a 2ª Guerra Mundial, nas aldeias da Beira, de Trás-os-Montes, das serras de Arouca, onde a terra escondia um metal cinzento e pesado que o resto do mundo, em chamas, comprava a peso de ouro.  

Chamavam-lhe o ouro negro.  O nome verdadeiro era volfrâmio.  

Enquanto na costa Oeste passavam, ao largo, as rotas de abastecimento aliadas e os submarinos alemães, era no interior do país, longe do mar, que Portugal vivia a sua participação mais lucrativa e mais silenciosa na guerra.  Não com soldados.  Mas com pedras!...  

O volfrâmio, a que os químicos chamam tungsténio e atribuem a letra W, é um dos metais mais extraordinários da natureza.  Tem o ponto de fusão mais alto de todos os metais, perto de 3500 ºC, e uma dureza que poucos materiais igualam.  

Antes da guerra já tinha usos industriais importantes, em filamentos de lâmpadas, ferramentas de corte e aços especiais.  A guerra transformou-o numa matéria-prima estratégica.  

Em ligas de aço e carbonetos, o volfrâmio aumentava a resistência ao calor e ao desgaste.  Servia para fabricar ferramentas de corte, máquinas de guerra e, sobretudo, para núcleos de projécteis perfurantes, aquelas munições capazes de trespassar a couraça de um tanque de guerra.  

Sem o volfrâmio, a artilharia anti-tanque alemã perdia o dente.  E a Alemanha, com o acesso às fontes asiáticas de tungsténio severamente limitado pela guerra, ficou dependente de uma única região do mundo para o obter: a Península Ibérica.  

Portugal e a vizinha Espanha tornaram-se, da noite para o dia, fornecedores de uma das chaves da guerra industrial.  

O preço seguiu a procura, e a procura era desesperada.  Em 1942, o volfrâmio português era exportado a um preço médio cerca de trinta vezes superior ao de 1938.  Em termos relativos, tratou-se de uma valorização excepcional, mais próxima de uma bolha de guerra do que de um simples ciclo mineiro, e como todas as bolhas, atraiu a si quanta gente havia.  

Foi então que rebentou aquilo a que ficou a chamar-se a febre do volfrâmio.  De todo o país acorreram milhares de pessoas às zonas mineiras, gente que largou a enxada e a jorna para ir cavar a montanha.  Onde havia minério organizado, abriram-se minas e contrataram-se homens.  

Onde havia apenas filões à superfície, instalou-se uma economia paralela, a dos chamados pilhas, os apanhadores clandestinos que andavam pelos montes a catar pedras de volfrâmio para vender a intermediários.  

O minério, uma vez apanhado, ou seguia legalmente para o litoral e era carregado em navios, ou tomava os velhos trilhos do contrabando rumo a Espanha, pelas serras da raia, às costas das mulas conduzidas pelos almocreves.  

As fronteiras entre o legal e o ilegal, sempre ténues naquelas terras, tornaram-se quase invisíveis.  E com o dinheiro veio o desvario.  Numa região habituada à miséria, a riqueza súbita não trouxe prudência, trouxe espanto.  

Conta-se, e os relatos repetem-se de aldeia em aldeia com uma persistência que lhes dá crédito, que houve quem fizesse cigarros com notas, quem acendesse charutos com notas de contos de réis, quem comprasse o que nunca vira e não sabia usar.  Era a ilusão de uma fortuna que muitos julgavam eterna e que duraria, afinal, o tempo exacto de uma guerra.  

As marcas ficaram na memória das gentes e na própria paisagem, retalhada de poços, escombreiras e galerias que ainda hoje se vêem.  

A televisão portuguesa chegou a fazer, em 2001, uma série inteira sobre este mundo, passada em Arouca, com o título justo de "A Febre do Ouro Negro".  E é em Arouca, precisamente, que mora o mais insólito de toda esta história.  

No concelho de Arouca, em Regoufe e Rio de Frades, a poucos quilómetros uma da outra, ingleses e alemães exploravam minas vizinhas, em simultâneo, sem nunca terem chegado a um confronto directo.  

Enquanto no resto da Europa as duas nações se matavam na mais mortífera das guerras, ali, numa montanha portuguesa, coexistiam sob vigilância mútua, cruzando-se nas estradas sem se tocarem.  Por baixo dessa coabitação improvável, os espiões de cada lado e a polícia política portuguesa recolhiam, claro está, toda a informação que pudessem.  

Mas a imagem fica: a guerra mundial suspensa, por conveniência mineira, à porta de uma aldeia da Beira.  Havia, aliás, mais teias do que as que se viam.  

Os serviços secretos americanos identificaram redes empresariais associadas a interesses alemães no Porto, fachadas comerciais que escondiam capital e interesses do III Reich, entre as quais a Companhia Mineira do Norte de Portugal, conhecida nas terras simplesmente como a Companhia Alemã.  

Num dos detalhes mais amargos de toda a história, essa empresa pertencera, segundo várias investigações, a um judeu, Paul Gruenfeld, a quem o regime nazi a tirara, arianizada, como então se dizia ao roubo legalizado dos bens dos judeus, em 1938.  

O metal que dela saía iria endurecer os canhões do regime que perseguia o homem a quem fora roubada.
No meio de tudo isto estava Salazar, e foi ali que ele jogou a mais hábil das suas cartas.  Porque o volfrâmio o pôs, a ele e ao país, no centro de um braço de ferro entre as grandes potências.  

A Inglaterra, que possuía em Portugal a maior empresa de extracção do minério, a Beralt Tin da Panasqueira, exigia paradoxalmente o embargo total das exportações, e quando o não conseguia, comprava volfrâmio de que não precisava só para o tirar do mercado e encarecer a compra alemã.  Eram as chamadas compras preventivas.  

A Alemanha, do lado oposto, lutava com todas as forças pela liberdade de comprar, porque dela dependia.  

A explicação da assimetria é simples: a Inglaterra tinha alternativas, importava da Birmânia até esta cair, da Cornualha e da América Latina, mas a Alemanha não tinha nenhuma.  

E Salazar, sentado sobre as montanhas que ambos cobiçavam, percebeu que aquele metal cinzento lhe dava um poder negocial muito superior à dimensão militar do nosso país.  

Vendia ao Churchill e vendia ao Hitler!...  

Criou uma Comissão Reguladora do Comércio de Metais, a fim de que tudo passasse pela mão do Estado.  E exigiu, aos alemães, que pagassem em ouro.  Foi por essa porta que entrou em Portugal a sombra que, décadas mais tarde, haveria de escurecer todo o balanço.  

O ouro alemão fluiu para Lisboa em quantidades enormes.  As reservas de ouro portuguesas cresceram fortemente durante a guerra, alimentadas em parte pelos pagamentos alemães, muitos deles feitos através da Suíça.  

Parte desse ouro circulou através de rotas ferroviárias ibéricas, incluindo a ligação de Canfranc, que se tornou símbolo desse trânsito opaco entre a Europa ocupada, Espanha e Portugal.  

O problema é que parte desse ouro não vinha das minas da Alemanha.  Vinha dos cofres saqueados da Europa ocupada, e em alguns casos, da pior origem imaginável.  

Está documentado que cerca de vinte toneladas de ouro ligado às reservas belgas saqueadas acabaram por passar para a órbita portuguesa através de operações financeiras e transportes organizados durante a guerra.  E há a suspeita, nunca inteiramente afastada, de que entre esse ouro fundido e misturado nas reservas nacionais houvesse ouro arrancado às vítimas dos campos de extermínio.  

Os Aliados avisaram formalmente, em Fevereiro de 1944, sobre o tráfico do ouro pilhado.  Salazar alegaria sempre que, até essa data, agira de boa fé.  

A guerra virou, e com ela virou o jogo.  

Depois da derrota alemã em Estalinegrado, depois de Portugal ceder aos Aliados as bases dos Açores em 1943, a pressão sobre Lisboa tornou-se irresistível.  

A 5 de Junho de 1944, na véspera do desembarque da Normandia, Salazar cedeu e decretou o embargo total das exportações de volfrâmio, tanto para o Eixo como para os Aliados.  Foi uma das maiores cedências do regime em toda a guerra, e marcou o fim abrupto da grande corrida ao volfrâmio.  

O contrabando ainda continuou uns meses pelos trilhos da raia, até que a libertação do sul de França fechou a fronteira dos Pirenéus e cortou o último caminho.  

Nas aldeias, a febre passou tão depressa como viera.  As minas foram fechando, os homens voltaram à enxada, e o ouro negro tornou-se outra vez apenas pedra cinzenta na montanha.  Restou a memória, e restaram as fortunas de alguns, gastas quase sempre tão depressa como tinham sido feitas.  

Quanto ao ouro que ficara nos cofres do Estado, esse lá permaneceu.  

No longo acerto de contas do pós-guerra, depois de anos de negociação, Portugal entregou uma pequena fracção, cerca de quatro toneladas, das mais de duzentas que recebera, no âmbito de um acordo internacional, mas ainda consegui, no mesmo acerto, que a Alemanha do pós-guerra lhe pagasse dívidas pendentes.  

Na sequência de um pedido judaico de compensações, meio século depois, já em democracia, uma comissão oficial criada no final dos anos 90 e presidida por Mário Soares, voltaria a debruçar-se sobre o assunto e concluiria que o Estado Novo não sabia, na altura, da origem do ouro, e que nada mais havia a compensar.  As conclusões foram contestadas por vários historiadores, e o capítulo, em rigor, nunca ficou inteiramente fechado.  

Cavaco Silva, que era na altura o primeiro-ministro de Portugal, por "coincidência" decidiu discretamente enviar como investimento português, 12 toneladas de ouro, para uma empresa americana chamada Drexel, que "coincidentemente" passados 30 dias declarou falência.  Até hoje não sei como Portugal foi ressarcido desse investimento, isto é, se reaveu as 12 toneladas de ouro!...  

Este é, talvez, um dos retratos mais incómodos da neutralidade portuguesa: um país pobre, cercado por pressões contraditórias, que soube lucrar com a guerra vendendo aos dois lados o metal que ambos disputavam.  

Enquanto isso, o povo, na sua maioria, vivia das senhas de racionamento.  Os cofres encheram-se.  As mesas, não.  E há, no fim, um eco que arrepia.  

Oitenta anos depois, o volfrâmio voltou a ser estratégico, e outra vez por causa de guerras e do medo delas.  A China, que domina hoje o mercado mundial, reforçou o controlo sobre a oferta, os preços dispararam, a União Europeia voltou a classificar o metal como matéria-prima crítica para a defesa, e Bruxelas olha de novo para Portugal como referência.  

A mina da Panasqueira, a mesma que armou os dois lados em 1942, continua aberta, e tem, segundo quem a explora, toda a produção vendida antes mesmo de sair da terra.  

O ouro negro voltou a valer ouro.  As montanhas são as mesmas.  

E a guerra, essa, continua lá ao longe… 


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Os livros proibidos que estão em todo o lado



Leio que uma dessas celebridades de meia-caca, muito representativa dos tempos que correm, a cantora Dua Lipa, abriu uma secção de livros “proibidos e censurados”, que “desafiam o poder e a narrativa dominante” num projeto colaborativo com a Livraria Lello.  

Com curiosidade, fui ver que “livros proibidos que desafiam a narrativa dominante” seriam esses...  

E, conforme esperado, é toda uma parafernália de obras promovidas e disponíveis em qualquer livraria do Ocidente e que abordam um conjunto de narrativas politicamente predominantes: desde as ficções feministas de Margaret Atwood (tão “desafiadora do poder” que até tem séries de televisão baseadas nas suas fantasias), passando pelos títulos de Alice Walker (com os seus feminismos racializados), de Ocean Vuong (com as suas narrativas LGBT), de Trevor Noah (com a sua crítica ao apartheid) e todo um restante acervo dedicado primordialmente a temas de ideologia de género, sexualidades alternativas, racismos sistémicos e novas vagas feministas.  

O libelo de “livros censurados” que “desafiam o poder” é risível e constitui obviamente uma operação de marketing comercial dirigida aos imbecis.  

Por “censurados”, entendem-se ali livros que foram removidos de alguns currículos ou bibliotecas escolares dos EUA, por serem considerados inapropriados para a idade a que se destinavam ou excessivamente politizados para ambientes escolares, bem como obras banidas em regimes iliberais não-ocidentais que não toleram a propagação das taras sociais e sexuais que são o âmago da maior parte daquelas produções.  

O facto é que aquele género de livros está disponível aos magotes nos escaparates de qualquer livraria ocidental, e geralmente em lugar de destaque.  São precisamente as obras que certos meios culturais dominantes mais difundem.  

Aliás, no Ocidente, falar de “livros censurados” exige uma contextualização prévia, pois são raras as proibições jurídicas de venda ao público e, na era digital, mesmo os títulos desaparecidos dos escaparates de livrarias físicas podem, regra geral, ser encontrados online com maior ou menos esforço.  Um livro proibido que desafia a narrativa dominante não é aquele que é retirado de um currículo escolar dirigido a alunos de 13 anos e que pode depois ser comprado na livraria que fica ao lado da escola…  

São obras que não são reeditadas, não são traduzidas, não são publicáveis, não se encontram expostas nas prateleiras das livrarias convencionais ou cuja narrativa é proibida (nalguns casos até criminalizada) pelo regime.  

A lista desses títulos daria em si mesmo um livro, mas quase todos se situam nos antípodas ideológicos daquilo que a Dua Lipa e a Lello, com o favor da casta mediática, promovem e cujas adaptações e variações até se multiplicam em séries e filmes nas plataformas de streaming.  

Livros banidos seriam, para dar apenas meia-dúzia de exemplos de centenas de outros possíveis: Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts (O Mito do Século XX, Alfred Rosenberg) ou o Gott und Volk (Deus e Povo, Hans Blöthner), ambos de cariz ideológico; de revisionismo histórico teríamos casos como The Hoax of the Twentieth Century (Arthur Butz) ou Nuremberg ou la Terre Promise (Maurice Bardèche); e nos romances teríamos épicos como Die Geächteten (Os Proscritos, Ernst von Salomon) ou Mourir à Berlin (Morrer em Berlim, Jean Mabire).  

Vivemos num circo global repleto de palhaços convencidos da sua própria seriedade, onde os conceitos são subvertidos e a linguagem é manipulada para criar realidades alternativas que contrariam a verdade objetiva.  Este é só mais um caso.


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Fonte:

Relatório do Fórum Cívico Europeu



A recente publicação do relatório do Fórum Cívico Europeu, não é um mero documento de análise.  

Para quem olha com atenção, é um mapa de operações.  

Trata-se de uma peça de engenharia política desenhada para influenciar a perceção pública e, mais importante, para condicionar a atuação das instituições nacionais a partir de Bruxelas.  

O que está em causa aqui, numa linguagem clara, é a tentativa de redefinir o que é a democracia em Portugal. 

O relatório utiliza uma técnica conhecida como empreendedorismo de normas.  

Em termos simples: um grupo de organizações internacionais, financiadas por entidades transnacionais, decide o que é "bom" e "mau" comportamento cívico.  

Quando o governo português ou as forças de segurança agem fora desta caixa pré-definida, são imediatamente alvo de relatórios que utilizam uma linguagem técnica — "erosão do espaço cívico", "ameaças híbridas", "criminalização da solidariedade" — para dar um verniz de objetividade a uma agenda que é profundamente política.  

O mecanismo é preciso e eficiente.  

Primeiro, criam uma rede de parceiros locais.  Estes parceiros alimentam um sistema de monitorização que, em última análise, serve para deslegitimar as autoridades nacionais.  

Observem o detalhe: o documento critica a remoção do capítulo sobre extremismo do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI).  

Isto soa como um alerta de segurança.  

Para os estrategas que escreveram o relatório, é uma oportunidade perfeita para abrir uma brecha na soberania nacional, alegando que o Estado não é capaz de se autopoliciar e que, por isso, precisa de supervisão externa — a supervisão deles.  

O financiamento deste ecossistema é o segredo que ninguém quer discutir abertamente.  

Estamos a falar de fluxos financeiros que passam pelo programa CERV da Comissão Europeia e por fundações privadas internacionais, como a Open Society, de George Soros.  

Quando o dinheiro flui nestes circuitos, a independência das organizações que produzem estes relatórios torna-se, no mínimo, discutível.  

Eles não são observadores neutros.  São, na prática, uma força de intervenção intelectual.  

O seu trabalho consiste em transformar incidentes isolados — uma operação policial, um protesto, uma decisão parlamentar — em tendências sistémicas de "retrocesso democrático".  

A estratégia de oscilação entre a teoria complexa e a denúncia direta, é deliberada.  

Quando falam de "barreiras estruturais" e "disfunção administrativa", estão a dirigir-se aos gabinetes em Bruxelas, onde este jargão é a moeda de troca.   

Quando falam de "intimidação policial" e "ameaças a grupos vulneráveis", estão a falar diretamente ao leitor nas redes sociais, tentando gerar uma resposta emocional de indignação.  É a criação de um "escudo institucional" para as suas causas, onde qualquer crítica a esta agenda é rapidamente rotulada como "discurso de ódio" ou "populismo".  

O que este relatório revela é a institucionalização da pressão sobre o Estado.  

A mensagem implícita é clara: se Portugal não se alinhar com a visão progressista e cosmopolita definida por estes fóruns, será classificado como um país em processo de "degradação democrática".  É uma forma de chantagem reputacional.  

Ao colocar Portugal lado a lado com países onde as liberdades estão, de facto, a ser reprimidas, eles forçam os decisores políticos nacionais a tomarem medidas defensivas para evitarem sanções políticas ou pressões mediáticas.  

A questão que se impõe, e que este documento tenta esconder sob camadas de tecnicismo e preocupação humanitária, é simples: quem deu a estas organizações o mandato para vigiar o comportamento de um Estado soberano?  

Eles operam no vazio de uma rede global, mas exercem um poder que molda a agenda mediática, a legislação e a própria noção de legitimidade política.  

Este relatório não é um alerta para a repressão.  É um exercício de poder.   

Ao denunciar a "repressão policial", o Fórum Cívico Europeu está, na verdade, a exercer a sua própria forma de repressão: a repressão de qualquer narrativa que não se encaixe nos padrões da sociedade aberta que eles defendem.  

É um mecanismo de vigilância que, sob o pretexto de proteger a democracia, trabalha para submeter o debate nacional a uma tutela supranacional.  

A pergunta que cada cidadão deve fazer ao ler estas linhas não é se os factos relatados são verdadeiros, mas sim, quem lucra com a transformação desta realidade em propaganda de Estado.  

O sistema de propaganda política que sustentou a União Soviética, conhecido como Agitprop, raramente é compreendido na sua verdadeira dimensão técnica.   

Não se tratava de uma mera estratégia de marketing, mas de um sistema pedagógico e de controlo social desenhado para que a fronteira entre a pedagogia e a doutrinação fosse, deliberadamente, inexistente.  

Nas escolas superiores do Partido Comunista da União Soviética, como a Vysshaya Partiynaya Shkola, os quadros não aprendiam apenas retórica; aprendiam a moldar a perceção da realidade através da lente rígida do materialismo dialético. 

Para uma compreensão detalhada destas origens, pode consultar os arquivos históricos da Michigan State University (link) e os documentos primários da Hoover Institution (link).  

Em Portugal, esta escola de pensamento não foi um fenómeno externo.  

Foi importada, replicada e adaptada através da formação de quadros de diversas organizações políticas durante o século XX.  

O que muitos portugueses identificam hoje como uma deriva ideológica nas instituições públicas é, na verdade, a sedimentação destas técnicas.  

O conceito de ocupar o terreno - ou seja, infiltrar sindicatos, associações e estruturas de poder local - foi o método utilizado para que a linguagem do Partido se tornasse a linguagem padrão da fábrica e da autarquia. 

A documentação desta transposição, incluindo manuais de formação e panfletos, pode ser consultada no arquivo Ephemera (link).  

O grande salto desta estratégia de influência ocorreu com a sua migração para as instituições de ensino superior.  

O que antes era uma formação restrita a aparelhos partidários tornou-se a norma nas universidades.  

A faculdade deixou de ser um espaço de confronto dialético para se transformar num centro de produção de uma narrativa única.  

Isto não acontece por censura direta, mas pela criação de um léxico hermético que delimita o que pode ser pensado. Quem controla o vocabulário, controla o debate. 

Este sistema é sustentado por três pilares de ferro que tornam a sua reversão extremamente difícil a curto prazo:  

Primeiro, o ciclo de financiamento público.  
As universidades dependem de verbas estatais e fundos estruturais europeus.  A atribuição destes recursos está intrinsecamente ligada ao cumprimento de agendas definidas pelos mesmos gabinetes ministeriais que contratam os consultores formados nessas mesmas instituições.  As irregularidades e a má gestão financeira em projetos de investigação puramente políticos são, por vezes, alvo de auditorias pelo Tribunal de Contas.  

Segundo, a barreira de entrada académica.  
O sistema de progressão na carreira, que prioriza a publicação em revistas indexadas que seguem consensos ideológicos, cria um mecanismo de seleção artificial.  A dissidência é eliminada por ostracismo ou pelo bloqueio de acesso a posições de decisão.  Para verificar como a acreditação de cursos e a gestão institucional consolidam este poder, é útil analisar os dados da Direção-Geral do Ensino Superior (link).   

Terceiro, a porta giratória entre a academia e a burocracia. 
Os decisores políticos são frequentemente académicos requisitados que regressam aos seus lugares de cátedra após o mandato, garantindo que a política pública nunca desafie os interesses da academia.  Esta simbiose cria um circuito fechado onde a necessidade de legitimação mútua sobrepõe-se ao interesse público.  A monitorização destas dinâmicas pode ser feita através dos dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (link).  

O resultado desta consolidação é um fosso crescente entre a realidade vivida pelo cidadão comum e o discurso académico ou estatal.  

Enquanto as instituições de ensino replicam fórmulas ideológicas, a formação técnica e a análise de dados objetivos são frequentemente secundarizadas.   

Os relatórios do Conselho Nacional de Educação, disponíveis aqui, oferecem um retrato das diretrizes que moldam este currículo.  

Estamos perante um sistema que não precisa de convencer a população da sua legitimidade; basta-lhe controlar o acesso aos cargos, aos orçamentos e à definição do que constitui o conhecimento válido.  

A questão que se coloca, é se a estrutura de poder é inabalável ou se a falha de credibilidade junto das novas gerações, que percebem o desfasamento entre o discurso académico e a realidade do mercado de trabalho, constituirá, eventualmente, o ponto de rutura desta hegemonia.  

A história demonstra que sistemas que ignoram a realidade factual acabam, cedo ou tarde, por colapsar sob o peso das suas próprias contradições.  

Ao analisarmos o documento do Fórum Cívico Europeu à luz da estrutura hegemónica que descrevemos, a ligação torna-se evidente. 

O relatório sobre a suposta repressão policial em Portugal não é um evento isolado; é, na verdade, um produto acabado desta engrenagem.  É o momento em que a teoria académica e a influência burocrática se materializam no terreno, transformando diretrizes abstratas em pressão política concreta sobre o Estado.  

Esta interdependência cria um ciclo fechado que impede a fiscalização democrática genuína.  

O mecanismo funciona da seguinte forma: as fundações e instituições de topo produzem o enquadramento ideológico (ou seja, o que é considerado democracia ou extremismo); as universidades e os consultores especializados fornecem a validação técnica e o léxico para esses conceitos; e as organizações não-governamentais, como o Fórum Cívico Europeu, operam como a correia de transmissão, recolhendo dados seletivos que servem para confirmar a narrativa pré-estabelecida.  

Quando um cidadão lê o relatório, está a consumir o resultado final deste processo.  

A linguagem utilizada não é acidental.  

Termos como liberdade de associação ou espaço cívico, são reinterpretados para incluir ou excluir comportamentos, dependendo da conveniência política.  Ao citar a remoção de capítulos do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), o relatório não está apenas a criticar a transparência; está a tentar recuperar o controlo sobre a definição do que é uma ameaça ao Estado, sublinhando a intenção de transferir essa autoridade das forças de segurança nacionais para entidades supranacionais ou atores que comungam da sua visão de mundo.  

Esta dinâmica torna-se ainda mais clara quando observamos quem circula entre estes cargos.  

A porta giratória entre a academia, os gabinetes ministeriais e as organizações que produzem estes relatórios garante que a política pública nunca sofra oposição real.  

A auditoria e o escrutínio tornam-se impossíveis quando os avaliadores, os legisladores e os responsáveis pela execução das políticas partilham os mesmos círculos de influência e dependem dos mesmos fluxos de financiamento, que podem ser consultados no Portal da Transparência da União Europeia (link).  

O perigo real para a democracia não é a existência destas organizações, mas a forma como utilizam o prestígio institucional para mascarar uma agenda política como se fosse um facto científico.  Ao elevar um relatório de uma ONG ao estatuto de evidência irrefutável, o sistema neutraliza o debate público.  

Qualquer crítica ao relatório é rapidamente qualificada como um ataque à democracia ou como propaganda populista, fechando qualquer possibilidade de contraditório.  É a estratégia clássica de tornar o sistema imune à crítica, elevando os seus próprios manuais de procedimento a dogmas de Estado.  

Enquanto o discurso académico se preocupa com a semântica da inclusão e a teoria dos espaços públicos, a realidade vivida pelo cidadão nas periferias, nas empresas e no contacto direto com as forças de segurança, continua a ser desconsiderada se não couber na narrativa de vitimização ou de opressão estrutural.  

O ponto de rutura que mencionámos anteriormente reside precisamente neste ponto.  Sistemas que se fecham em circuitos de autovalidação perdem a capacidade de resolver problemas reais.  

Quando a máquina de propaganda se torna mais importante do que a eficiência da administração pública, a desilusão social é inevitável.  

A verdadeira questão, para quem observa este fenómeno, é saber quanto tempo esta hegemonia consegue manter a sua fachada de neutralidade antes que a evidência da realidade — seja na segurança, na economia ou na coesão social — force a estrutura a confrontar-se com as suas próprias contradições, que já hoje estão à vista.  

A observação contínua da alocação de verbas públicas e da influência destas fundações na legislação nacional,  é o primeiro passo para que o cidadão recupere a capacidade de ver o que se passa para além da narrativa oficial.  



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Fonte: 


EUGENIA - Encerrando o tabu

Alexis  Carrel


Desde os tempos mais remotos, o ser humano observa o fascinante espelho da semelhança — o traço do pai refletido no filho, o olhar da avó repetido na neta, o talento ou a doença que atravessam gerações como se obedecessem a uma ordem invisível.  Essa curiosidade ancestral deu origem a uma das mais belas e complexas áreas da ciência: o estudo da hereditariedade. 

Nas linhas que se seguem, o leitor encontrará uma breve história da ciência e de um homem que quis aprimorar as características físicas da humanidade.  Capítulos foram concebidos para mostrar como as leis da hereditariedade moldam não apenas os nossos corpos, mas também as possibilidades futuras da medicina, da agricultura e do próprio entendimento da vida.

Este não é um ensaio frio ou meramente técnico, é uma humilde homenagem a Alexis Carrel e uma breve visão da história primordial sobre o estudo da hereditariedade, da eugenia e da genética.

Corria o ano de 1996, passado mais de meio século após a morte de Alexis Carrel (1873‑1944), o seu nome foi retirado do quadro de honra da Faculdade de Medicina da Universidade Claude Bernard, em Lyon, França.  Carrel, um ex‑aluno da universidade, foi um cirurgião mundialmente famoso nos primeiros anos do século XX e ganhou o Prémio Nobel de Medicina em 1912, por descobertas de técnicas cirúrgicas.  O seu trabalho nas décadas de 1920 e 1930 — muito auxiliado por uma bomba de perfusão projectada pelo seu ajudante mais famoso, Charles Lindbergh — a bomba de perfusão, permitiu manter os órgãos vivos fora do corpo, abrindo caminho para transplantes e cirurgias de coração aberto.

Mas porquê a universidade fez essa repreensão póstuma a um dos seus mais brilhantes alunos?...  Porque, tal como o seu assistente Lindbergh e muitos dos seus contemporâneos mais proeminentes, Alexis Carrel foi um defensor da eugenia.  

Nos últimos cinquenta anos, opositores cheios de ódio ao Ocidente e aos seus povos nativos, conseguiram desacreditar a eugenia ao insultar os seus apoiantes com rótulos de “racistas”, “antissemitas”, “sexistas”, “classistas” e “nazis”.  Até mesmo os inimigos cristãos da eugenia recentemente apropriaram‑se de alguns desses rótulos para fazer a sua objecção tradicional — de que a eugenia é uma manipulação blasfema da obra do Criador — soar mais “relevante”.  A campanha anti‑eugenia teve tanto sucesso que, tal como aconteceu com Alexis Carrel, qualquer associação com a eugenia pode manchar até a reputação mais brilhante.

Na verdade, a visão actual promove a eugenia como uma ideologia malévola ou uma “pseudociência” de loucos.  No seu auge, a eugenia foi pioneira e promovida por biólogos de renome, incluindo os fundadores da genética moderna.  A sua autoridade científica foi frequentemente transformada em política pública por alguns dos mais proeminentes estadistas e intelectuais da época.  

Política e socialmente, o apoio à eugenia abrangeu um espectro tão amplo que atribuir isso a qualquer regime ou filosofia, é pura propaganda.  Da mesma forma, a diversidade de apoio que a eugenia teve no seu início de propagação, a evidência de que o movimento não era uma justificativa disfarçada para colocar a classe dominante mais firme, ou para fortalecer o domínio do patriarcado sobre as mulheres, ou para perseguir judeus.  Vale lembrar, não apenas da autoridade e eminência de tantos eugenistas iniciais, mas também da sua diversidade e idealismo. 

O Homem é instintivamente eugénico: os Homens mais capazes buscaram e foram incentivados a acasalar com as mulheres mais saudáveis.  Proibições legais contra a endogamia, evidentemente devido à compreensão do aumento da chance de descendentes doentes, existem desde o Código de Hamurabi (1750 a.C.) e também no Antigo Testamento.  Os filósofos Platão e Aristóteles defendiam medidas eugénicas no interesse da sociedade.  

O berço da eugenia, bem compreendido, foi a Inglaterra do século XIX, onde Charles Darwin (1809‑1882) forneceu fortes evidências da descendência do Homem de outras formas de vida.  Uma consequência disso foi rapidamente compreendida por outro inglês da época vitoriana, o primo de Darwin, Sir Francis Galton (1822‑1911).    

Ao nível de Darwin e Galton, esteve um monge austríaco chamado Gregor Johann Mendel (1822‑1884), que fez um excelente trabalho científico com ervilhas e flores e postulou as Leis da Hereditariedade, que são válidas até aos dias de hoje.   

No seu livro Hereditary Genius (1869), Galton argumentou que as habilidades intelectuais, tal como as características físicas, são hereditárias.  A partir dessa percepção, foi um passo curto até à percepção de que medidas para fomentar a transmissão de características desejáveis poderiam levar a uma melhoria duradoura da raça.    

As quatro décadas de trabalho laboratorial e organizacional que Galton investiu em eugenia o estabelecem como o fundador da disciplina e do movimento.    Ele cunhou  o  nome  “eugenia”,  que deriva do grego para “bem nascido”, e definiu‑o da seguinte forma:

Eugenia é o estudo de agências sob controle social que podem melhorar
ou prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações, quer seja física
ou mentalmente.


Galton também estabeleceu a eugenia como uma presença institucional na Inglaterra eduardina, e deu um impulso poderoso ao movimento no exterior.  Sem filhos, Galton dedicou grande parte de sua fortuna pessoal à criação de um laboratório para a eugenia nacional e à criação da primeira cátedra de eugenia, no University College, em Londres.  

Embora o próprio Francis Galton fosse da classe média alta proprietária, o escolhido para seu sucessor, Karl Pearson, era um radical económico e político, na verdade um socialista.  A impressão cuidadosamente cultivada hoje é que a eugenia foi liderada por direitistas da classe dominante.  Alguns de seus apoiantes, como Herbert Spencer, viam isso como um corolário natural da sociedade de classes, mas os defensores mais vocais da eugenia vinham da esquerda.  Os seus nomes soam como uma lista de radicalismo da época eduardina.  

George Bernard Shaw, o dramaturgo pacifista, socialista e vegetariano, escrevia abundantemente e de forma excêntrica a favor da eugenia, e era assinante da revista de eugenia de Pearson, intitulada Biometrika.  O também socialista H. G. Wells, era um forte defensor da esterilização das pessoas com deficiência mental.  Havelock Ellis, um estudante pioneiro da sexualidade humana e ensaísta, foi autor do The Problem of Race Regeneration (1911).  Outros apoiantes proeminentes incluíam Beatrice e Sidney Webb, fundadores do socialismo fabiano e posteriormente entusiastas da Rússia Soviética, assim como o radical anglo‑judeu Harold Laski, que mais tarde lideraria o Partido Trabalhista Britânico (Labour Party), que trabalhou por seis meses no laboratório de Pearson e chegou a tomar chá com o próprio Francis Galton.

No julgamento de Michael Freeden, um dos principais historiadores da esquerda do liberalismo britânico, “... No primeiro grande entusiasmo pela eugenia, os liberais estavam em destaque ...”.  A eugenia, com a sua promessa de melhoria humana inata e a longo prazo, tinha grande apelo para os reformistas. 

Os principais nomes da nova ciência da genética forneceram entusiasticamente as bases intelectuais para o novo movimento.  Entre os mais proeminentes apoiantes da eugenia estavam William Bateson, o primeiro professor inglês de genética (em Oxford); Ronald A. Fisher, criador da síntese evolutiva moderna e sucessor de Pearson na Cátedra de Eugenia Galton; J. B. S. Haldane, inovador em genética populacional e uma voz radical; e o grande biólogo Julian Huxley.  A hereditariedade era um facto que podia ser colocado a serviço da humanidade.  

Nos primeiros anos da eugenia britânica, surgiu rapidamente um consenso entre cientistas e intelectuais que abrangeu todo o espectro político em apoio a medidas eugénicas positivas.  Essas incluíam reembolsos fiscais para cobrir os custos de maternidade e criação dos filhos, especialmente para famílias meritórias; auxílios educativos para meninos e meninas promissores da classe trabalhadora; subsídios para licença de maternidade para os merecedores, etc, etc. 

O movimento eugenista incluiu um número desproporcional de mulheres.  Embora a sua discussão franca sobre questões sexuais e contracepção tenha conquistado o apoio de feministas radicais como Margaret Sanger, Victoria Woodhull e Emma Goldman, o seu foco na família e no novo valor que atribuía à capacidade intelectual das mulheres — como mais um pretendente poderia medir as capacidades mentais hereditárias da sua companheira? — recomendou a eugenia para mulheres mais tradicionais.  Na avaliação do historiador da ciência Mark Adams, “parece que, pelos padrões contemporâneos, a eugenia era um dos campos menos sexistas da época em vários países”.  

Alguns dos principais clérigos da Inglaterra apoiavam a eugenia em linguagem intransigente.  W. R. Inge, o famoso “decano sombrio” de St. Paul's, escreveu na primeira edição da Eugenics Review:  

A legislação humanitária, ou prática, precisa ser complementada,
e os seus efeitos inevitáveis e malignos [ênfase adicionada]
contrabalançados, pela prática eugénica e, em última instância,
pela legislação eugénica


Quando, em 1912, a Câmara dos Comuns hesitou na aprovação da Mental Deficiency Bill (lei que previa a segregação obrigatória dos deficientes mentais nas instituições, mas não a esterilização), o Arcebispo de York, o segundo prelado de maior patente na Igreja da Inglaterra, instou a que eles “se apressassem” e aprovassem o projecto.  

Embora uma versão diluída do Projeto de Lei de Deficiência Mental, tenha se tornado lei no ano seguinte, os britânicos mostraram‑se (tanto conservadores quanto liberais) demasiado reticentes para adoptar medidas eugénicas fortes, mesmo no auge da eugenia: demasiado conservadores para aceitar o que parecia interferir em questões de escolha familiar que tradicionalmente eram privadas; e demasiado liberais (no sentido de laissez‑faire) para aceitar restringir a liberdade individual ou subsidiar a procriação, mesmo para os melhores cidadãos.  De qualquer forma, muitos dos principais eugenistas ingleses aprovariam apenas a esterilização voluntária.



UM  MOVIMENTO  EM  CRESCIMENTO

A primeira Conferência Internacional de Eugenia, ocorreu em Londres, em 1912, apenas alguns anos após o estabelecimento da eugenia como ciência.  Os cerca de 750 participantes representaram uma galáxia de conquistas internacionais.  Sir Arthur Balfour, ex‑Primeiro‑Ministro e futuro Ministro das Relações Exteriores, fez o discurso de abertura, enquanto que Leonard Darwin, filho de Charles Darwin, que foi presidente da Eugenics Society, de 1911 a 1928, presidiu à conferência.  Winston Churchill, foi vice‑presidente patrocinador, assim como o Lord Chief Justice e o Lord Bishop of Ripon.  

Um grande contingente dos Estados Unidos fez a travessia do oceano, incluindo Charles W. Eliot, famoso presidente emérito de Harvard, Alexander Graham Bell, e Gifford Pinchot, o famoso conservacionista, cada um dos quais actuou como vice‑Presidente patrocinador do lado americano.  

De certa forma, essa conferência marcou a passagem de testemunho da Inglaterra para os Estados Unidos da América.  Embora a eugenia americana não tivesse a defesa de um brilhante conjunto de escritores e radicais, o apoio de políticos, cientistas e do público em geral fez dos Estados Unidos, possivelmente, a principal potência eugénica mundial nas três primeiras décadas do século XX.  

O movimento nos Estados Unidos deve a sua ascensão a Charles Davenport, biólogo e antropólogo que foi um dos primeiros americanos a compreender e escrever sobre as descobertas de Gregor Mendel.  Davenport, que obteve o seu doutoramento em Harvard e havia sido professor assistente na Universidade de Chicago, era, assim como Francis Galton, um organizador talentoso e um captador de fundos competente.  

Em 1910, ele fundou o primeiro centro dos Estados Unidos para o estudo da eugenia, o Eugenics Record Office, em Cold Spring Harbor, em Long Island.  Para este e outros projectos de eugenia, conseguiu um financiamento significativo das fortunas das famílias Rockefeller e Harriman, e acima de tudo o apoio da Carnegie Institution (os três há muito tempo que se tornaram motores de um ambientalismo anti‑eugénico).  Em Cold Spring Harbor, Davenport, dirigiu estudos ambiciosos de eugenia e supervisionou a colecta de dados antropométricos e genealógicos de toda a América.  

Davenport e o seu segundo em comando, Harry Laughlin, receberam críticas, principalmente de outros geneticistas, pela sua tendência a exagerar e simplificar demais a hereditariedade de características que desde então foram demonstradas depender de mais de um gene, ou envolver factores ambientais significativos.  Os seus erros — compreensíveis dado o início do campo de estudo — e os alertas dos geneticistas foram explorados por anti‑eugenicistas para obscurecer a realidade de que, como relata o historiador Kenneth Ludmerer, durante os anos em que o movimento eugenista floresceu nos EUA, aproximadamente metade de todos os geneticistas americanos estiveram envolvidos nele.   

Como mostra a liderança de Eliot, Pinchot e Bell, na conferência de Londres, o entusiasmo pela eugenia na América do início do século XX, não se limitava aos geneticistas.  Os dois principais antropólogos físicos americanos da época, Aleš Hrdlička, curador do Museu Nacional em Washington, e Earnest Hooton, de Harvard, foram ambos entusiastas defensores.  Havia um amplo apoio entre psicólogos, sobretudo os pioneiros americanos em testes de inteligência: G. Stanley Hall, Henry Goddard, Robert Yerkes, Lewis Terman e William McDougall (que dedicou as Palestras Lowell, de 1921, em Harvard à tese “de que a grande condição do declínio de qualquer civilização é a inadequação das qualidades das pessoas que a possuem”).  

Luther Burbank, o famoso melhorador de plantas, foi activo na formação da American Eugenics Society, assim como David Starr Jordan, presidente da Universidade de Stanford e biólogo de formação, que invocou princípios eugénicos para sublinhar a sua oposição à guerra.1  Ao todo, cinco presidentes da Academia Americana para o Avanço da Ciência, serviram no conselho consultivo da American Eugenics Society.



AMERICANOS  COMUNS

Desde o inicio, a eugenia prendeu a imaginação dos americanos comuns.  A sua relação com a genealogia familiar e sua conexão com os princípios do melhoramento de plantas e animais despertou entusiasmo, especialmente nas comunidades agrícolas, e exposições e concursos de eugenia tornaram‑se comuns nas feiras do condado.  

Como na Inglaterra, os principais clérigos apoiavam a eugenia — assim como muitos judeus, que, provavelmente, deviam as suas capacidades hereditárias a um sistema de acasalamento eugénico adoptado durante osseus séculos de segregação no exílio.  Num sermão do Dia das Mães num templo em Kansas City, em 1926, o rabino Harry Mayer declarou: “Que não possamos fazer nada para permitir que nosso sangue seja adulterado pela infusão de sangue de grau inferior”.  Os judeus estavam bem representados em sociedades de eugenia, e também em pesquisas em eugenia.

Foram os progressistas reformistas americanos — não conservadores de direita ou segregacionistas do Sul — que lideraram a defesa e aprovação de legislações sobre eugenia na época eugénica americana.  Como escreve o historiador Mark Haller, “A eugenia, nos seus primeiros anos, exerceu ampla influência sobre o pensamento americano como uma espécie de reforma científica entre as muitas outras reformas da Era Progressista”.

Em sua vida posterior, talvez o mais eminente progressista, Theodore Roosevelt, promoveu a causa de melhorar a raça por meio de uma melhor criação com o seu vigor habitual.  Ecoando o Professor McDougall, o Rough Rider escreveu: 

O grande problema da civilização é garantir um aumento relativo
dos valiosos em comparação com os elementos menos valiosos
ou nocivos na população.  Esse problema não pode ser resolvido
a menos que consideremos plenamente a imensa influência da
hereditariedade.


Os progressistas foram fundamentais na aprovação de leis que preveiam a esterilização (muitas vezes involuntária) de doentes mentais ou com deficiência mental.  A de Indiana (1907) foi a primeira; O governador Woodrow Wilson, assinou a lei de esterilização de Nova Jersey, em 1911; Hiram Johnson, assinou a da California dois anos depois.  Significativamente, dezesseis estados americanos aprovaram legislações para esterilização antes que uma única lei desse tipo fosse aprovada no Sul.  Na década de 1930, cerca de trinta estados haviam aprovado leis de eugenia, principalmente em legislaturas reformistas.  Foi nos estados mais “conservadores”, onde religião e tradição eram mais fortemente contra a reforma, que a eugenia avançou menos.  De 1907 até a década de 1960, cerca de 60.000 esterilizações foram realizadas nos Estados Unidos, com a Califórnia bem na liderança com 20.000; abaixo da linha Mason‑Dixon, a Carolina do Norte acabou realizando a maior parte das esterilizações.  

A esterilização involuntária foi alvo de críticas legais por violar um direito básico.  De forma apropriada, foi um grande jurista progressista quem escreveu a decisão mais autoritária sobre o assunto, concluindo que a esterilização involuntária, em certas circunstâncias imperiosas, não era incompatível com a Constituição dos Estados Unidos.  

A decisão, Buck V. Bell, foi escrita pelo juiz Oliver Wendell Holmes, que dominou a jurisprudência americana por meio século.  Sobre o direito do Estado da Virgínia de esterilizar uma criança com debilidade mental, Holmes, que havia sido gravemente ferido em Antietam 54 anos antes, escreveu: 

Já vimos mais de uma vez que o bem‑estar público pode exigir os
melhores cidadãos para salvar as suas vidas.  Seria estranho se
não pudesse convocar aqueles que já drenam a força do Estado
para aqueles sacrifícios menores, muitas vezes não considerados
tais para os envolvidos, para evitar que sejamos inundados por
sua incompetência...  Três gerações de imbecis já são suficientes."
[Os Bucks, um dos familiares de quem era autor do caso, eram
brancos pobres.]


Seguindo o exemplo americano, outros governos adoptaram medidas eugénicas.  Na Suíça, o cantão de Vaud, aprovou uma lei de esterilização em 1928; no ano seguinte, a Dinamarca foi a primeira nação europeia a promulgar tal lei, seguida logo depois pelo restante da Escandinávia.  

O Canadá também teve o seu movimento eugénico, no qual as mulheres desempenhavam um papel de liderança.  Embora a influência da Igreja Católica tenha impedido a legislação de eugenia nas províncias mais populosas do Canadá, leis de esterilização foram promulgadas em Alberta e na Colúmbia Britânica, em 1933.  Fatalmente para o movimento eugénico, naquele mesmo ano a Alemanha adoptou uma lei para a esterilização eugénica.  



EUGENIA  E  NAZISMO

Nada manchou tanto a reputação da eugenia quanto a sua ligação com o regime de Adolf Hitler.  Na avaliação de Paul Popenoe, uma das principais figuras do movimento eugenético americano, “O principal factor no declínio da eugenia foi, sem dúvida, o hitlerismo”.  Mas, na verdade, como o geneticista e antropólogo americano Stephen Saetz demonstrou num estudo bem pesquisado sobre a eugenia no Terceiro Reich, a prática eugénica alemã não era radicalmente diferente de sua contraparte americana, e muitas políticas posteriores atribuídas à eugenia, sobretudo as medidas contra os judeus, nada tinham a ver com eugenia.  O programa de “eutanásia”, no qual até 80.000 pessoas com deficiência grave e incurabilidade foram mortas, foi motivado pelo desejo de libertar instalações médicas e pessoal no início da guerra, e não era um programa de eugenia.  Na visão da historiadora Sheila Faith Weiss: “Eugenistas alemães...”, no máximo só à responsabilidade indirecta pelo programa de “eutanásia”.  

Ainda assim, a associação da eugenia com Adolf Hitler e com o nazismo ajudou a transformar o que já era uma forte oposição à eugenia — que ia da Igreja Católica de um lado, à esquerda anti‑hereditária (da academia americana ao Kremlin) do outro — numa ortodoxia inquebravel.  A maioria dos judeus, inicialmente ofendida pelas conexões tangenciais entre o movimento eugenista e as reformas migratórias dos EUA nos anos 1920, e depois repelida pelo hitlerismo, passou firmemente para o campo anti‑eugenia.  

Após a guerra, a eugenia foi em grande parte levada para a clandestinidade, ou suavizada e reembalada como “aconselhamento genético” e outras aplicações limitadas.  As leis de esterilização involuntária e outros programas considerados “eugenistas” foram abolidos ou deixados em desuso.  Sociedades e periódicos de eugenia foram renomeados, redirecionados ou abolidos.  Geneticistas em actividade, quaisquer que fossem as suas opiniões privadas, negavam a conexão original e de longa data entre a sua ciência e a eugenia.  

No entanto, mesmo em seu eclipse, a eugenia continua sendo publicamente apoiada na América por uma minoria ousada, criativa e diversa.  Na década de 1960, o geneticista de esquerda, judeu e antirracista, Hermann Muller (Prémio Nobel de Medicina, 1946), que três décadas antes havia elogiado o trabalho de Alexis Carrel e Charles Lindbergh, colaborou com o inventor e empreendedor Robert K. Graham para estabelecer um “banco de esperma genial”.  Em 1980, William Shockley, defensor declarado do reconhecimento das diferenças raciais, foi o primeiro laureado com o Nobel a se tornar doador do Repositório de Escolha Germinal do Dr. Graham.  

O progresso constante do nosso conhecimento sobre como a hereditariedade desempenha um papel em todos os aspectos da nossa natureza — incluindo o Projeto Genoma Humano, que mapeou e identificou todos os genes humanos até 2005 — e demonstrou que a visão ambientalista de melhorar o homem é uma ficção.  O proeminente geneticista James D. Watson disse ao Congresso: “Costumávamos pensar que nosso destino estava nas estrelas.  Agora sabemos que, em grande parte, o nosso destino está nos nossos genes”.  Avanços impressionantes na engenharia genética trouxeram muitos dos sonhos dos eugenistas ao nosso alcance. 

No entanto, apesar disso, e apesar dos óbvios fracassos do liberalismo ocidental e do colapso do comunismo.  Apesar de todas as implicações promissoras para o renascimento da eugenia, o tabu permanece.  Hoje, o maior obstáculo ao pensamento eugénico é o estúpido dogma da igualdade racial. Embora a desigualdade seja evidente em todos os lugares, e embora as leis genéticas se apliquem claramente a todos os órgãos de todas as espécies, o liberalismo moderno quase pode ser considerado baseado na noção de que o cérebro humano não é afectado por genes.  

Numa sociedade multirracial, são as implicações raciais da hereditariedade dos traços mentais que forçaram verdades óbvias a ficarem ocultas.  Todos os padrões de selecção eugénica caírão de forma diferente em diferentes grupos raciais, então, mesmo as medidas mais óbvias e benignas certamente provocarão estupidamente berros de “genocídio” e “nazismo”.  

E assim desta forma continuaremos a pagar um preço fantástico por medo de não podermos abandonar a ilusão da igualdade racial.  Da mesma forma que negamos a desigualdade racial, também mal podemos tolerar a desigualdade de indivíduos, mesmo entre membros da mesma raça ou espécie humana.  As sociedades homogéneas são muito menos propensas a disparates igualitários porque não precisam fazer comparações raciais como nós no Ocidente.  Na China e também em Singapura, já instituíram medidas eugénicas leves e as futuras gerações colherão grandes benefícios disso.  

Os princípios da eugenia são, claro, racialmente neutros e todos os grupos podem beneficiar deles.  Até que os americanos e europeus estejam preparados para aceitar a realidade das diferenças raciais, é improvável que aceitem mesmo as propostas eugénicas mais óbvias e benéficas — e todos os americanos e europeus de todas as raças continuarão sofrendo.  

Seria uma grande tragédia se a humanidade, e em particular a espécie humana branca, que criou tanto a genética quanto a eugenia, fossem privadas desta grande oportunidade que temos diante de nós.  Recuperar a verdade sobre os primeiros eugenistas pode ser um primeiro passo para conquistar o futuro.  


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