A BATALHA DE CHRYSSUS
( GUADALETE, 711 )
" As dissensões do império visigótico trouxeram à Hespanha os muçulmanos... "
Alexandre Herculano
História de Portugal, Volume I, página 101
De feito, estas dissensões eram o fruto da dissolução de costumes e de moral, produzida, logo a seguir à conquista da Península pelos Godos aos Romanos. Os conquistadores, deslumbrados pelo adiantado da civilização dos vencidos, quiseram copiar, imitar, todas as suas qualidades, mas também copiaram alguns dos seus defeitos; todo o requinte da civilização, que já denotava sinais inequívocos de decadência e daí o terem entrado no caminho do luxo e da depravação dos costumes.
A civilização romana adoçou, é certo, a rudeza dos costumes dos Godos, mas já não tinha a vitalidade e a pureza de outrora. O pior dos males que trouxe aos conquistadores foi a depravação moral. Os Visigodos procuraram, com afã, imitar o luxo, o requinte, dos vencidos. Toletum (Toledo) quis, assim, imitar Roma, ou Constantinopla; o luxo, a ostentação desenfreada, imperou e foi isso que deitou a perder o Império. O próprio clero, que, a princípio, tinha querido opor um dique à podridão e à devassidão dos costumes, acabou, também, por se corromper! A dissolução moral arrastou a política. No meio desta degeneração, um chefe verdadeiro, mais puro, mais são, que os outros, Ruderick (Rodrigo) apossou‑se da coroa (ano 709), que os filhos do seu antecessor Witiza, Sisebuto e Ebbas, lhe disputaram durante bastante tempo, sem resultado. A situação moral e política melhorou, então, um pouco, mas os dias do Império Visigótico estavam irremediavelmente contados! Entretanto, a cidade de Septa (Ceuta), em plena Berberia, pertencia ao Império Visigótico e tinha por governador o Conde Olian‑el‑Gomari (conhecido vulgarmente na história por Juliano), que, querendo‑se vingar de uma ofensa grave anterior de Ruderick, entregou Septa aos berberes e ao seu chefe Musa Ibn Nusayr, instigando‑o a invadir a Península Hispânica, aproveitando o descalabro, que reinava no meio visigótico.
Fala‑se muito, na História, da traição do Conde Juliano, entregando Septa e instigando o chefe Muçulmano a invadir a Península. Mas é preciso ver que Olian‑el‑Gomarí, não era visigodo, não era sequer cristão, mas natural da cabila de Gomara, isto é, um puro berbere; não devia lealdade a Ruderick, de mais que este fora um usurpador, mas era um verdadeiro súbdito do Imperador de Bizâncio, Justiniano II, a quem estava directamente subordinado. De resto, como tinha sido sempre amigo e recebera auxílio de Witiza e dos seus filhos, era natural e lógico que se inclinasse para estes e não para o usurpador Ruderick.
Posto este pequeno parêntesis, Musa, em face do oferecimento de auxílio de Olian‑el‑Gomarí, fez duas tentativas de desembarque na região do Calpe (hoje, o rochedo de Gibraltar) e na baía de Algeciras, como duas tentativas de estabelecimento de uma testa de praia, mas sem resultado, apenas levando já ricos despojos. Então organizou um verdadeiro exército de uns 12.000 homens, segundo Herculano, composto, em grande parte, por Sarracenos e Berberes, capitaneado pelo seu lugar‑tenente, no governo do Moghreb (Mauritânia), Tarik Ibn Zeyad.
Juliano (tratemo‑lo assim) acompanhou a expedição e tendo atravessado, de madrugada e durante o dia 28 de Abril de 711, o estreito, nas suas embarcações ligeiras de velas triangulares, que seriam as precursoras dos futuros “chavecos” argelinos e dos “cáravos” tunisinos, aportaram, uns, às raízes do Calfe, ocupando‑o e, outros, à baía que hoje se denomina de Algeciras (de Alghezirah Alhadra, Ilha Verde). O desembarque terminou ao cair da tarde desse dia.
Tarik, hábil e cauteloso como era, tratou imediatamente de se estabelecer e fortificar no morro e suas imediações e aguardou reforços, que esperava ainda.
Desde então o Calpe mudou de nome e passou a ser o Gebel Tarik (monte de Tarik, donde, depois, proveio Gibraltar). Entretanto os elementos de vigilância visigótica de Carteia tinham alertado Ruderick, que estava longe, que, por seu turno, pediu auxílio ao Conde Theodimir (Teodomiro), Duque de Cordoba, que governava a província Bética e que estava mais perto do local da invasão. Este aprestou‑se imediatamente para a luta; com os elementos que pôde reunir. Sobre os efectivos do invasor há divergências grandes entre os historiadores: alguns compõem o exército muçulmano de uns 7.000 guerreiros berberes, 900 árabes, e aproximadamente uns 100 “witizianos” (cristãos visigodos partidários de Witiza e residentes em Septa e arredores) e que desempenhariam as funções de guias, intérpretes e auxiliares. Assim o efectivo total orçaria pelos 8.000 homens e não pelos 12.000, conforme a opinião de Alexandre Herculano.
Iniciaram‑se as correrias e escaramuças, de parte a parte; as tropas de Tarik, procurando obter informações sobre efectivos e possíveis linhas de defesa; as de Theodimir, para se oporem às correrias dos berberes, à destruição de culturas e ao saque das povoações.
Logo que o Conde Theodimir teve o primeiro conhecimento do desembarque e consequente aviso de Ruderick pedindo‑lhe auxílio, acudiu com as forças, que de momento pôde reunir na província, talvez uns 1.500 homens a cavalo, mas, apesar dos auxílios das populações e do seu esforço, viu‑se em sérios apuros perante a superioridade numérica do invasor. Então escreveu uma carta, que ficou célebre, a Ruderick, instigando‑o a que levantasse o maior número de tropas que pudesse e que se viesse pôr à frente da defesa, pois o seu lugar era ali, e o mais urgentemente que pudesse.
Ruderick, que a esse tempo estava sitiando Pamplona, em virtude de uma rebelião na Navarra, e onde soube da invasão pelos emissários de Carteia, começou imediatamente a juntar tropas e para isso, tentou, desde logo, congraçar‑se com os filhos de Witiza e com Dom Oppas (bispo de Toledo, irmão de Witiza), prometendo‑lhe benesses e regalias, ao que eles corresponderam, pelo menos então, patrioticamente com promessas de lealdade e boa cooperação, sem que se pudesse adivinhar se albergavam intenções reservadas de traição no futuro, ou não!... Mas Ruderick confiou!...
Reunidas as tropas, no máximo efectivo, que conseguiu, a Sul de Pamplona, iniciou Ruderick o deslocamento, a marchas forçadas, na direção geral: Pamplona — Soria — Toledo — Cordoba, a fim de se pôr em contacto com as tropas de Theodimir e concertar a defesa. Os cronistas muçulmanos atribuem aos seus efectivos uns 100.000 homens, o que parece exagerado e que outros historiadores muçulmanos reduziram, depois, para uns 40 a 50.000 homens, o que é mais plausível.
Ao ter conhecimento desta marcha forçada e dos grandes efectivos cristãos que se avizinhavam, Tarik, aflito, pediu instantemente reforços a Musa, que se não fez esperar enviando‑lhe breve uns 5.000 ginetes e um número aproximado de infantes, cerca de uns 10.000 homens de reforço. Deste modo e então, segundo os mesmos cronistas muçulmanos, os efectivos dos exércitos em presença seriam: muçulmanos, uns 20.000 homens e cristãos uns 40 a 50.000 e não os 100.000 de certos cronistas exagerados.
Os muçulmanos de Tarik marcham para Norte, ao encontro das hostes Cristãs, não desguarnecendo o Calpe e os pontos importantes da baía, como era de prudência.
Mesmo não é natural e lógico que Tarik, chefe sabedor e esforçado, se ficasse, cerca de 3 meses, apegado ao Calpe e à costa, como certos escritores pretendem. O que era natural é que ele, uma vez estabelecida a sua testa de desembarque tentasse imediatamente iniciar a invasão para Norte.
Acerca da região em que se deu o encontro dos dois exércitos há também discordâncias: a princípio tomou forma a tese do vale do Chryssus, nome que os Romanos davam ao rio Guadalete, do nome que depois os muçulmanos lhe puseram, ou Xeres, e que tendo as suas origens na região de Olvera‑Algamitas, banha Arcos de La Frontera e vai desaguar na Baía de Cádis. Depois tomou consistência outra tese: a da região da Lagoa de Janda, ou ainda, o vale do Barbate, e lagoas e pântanos desta região mais ao Sul. Contudo, estudos mais recentes fizeram voltar os críticos para a primeira hipótese, a do Chryssus, a que os muçulmanos logo puseram o nome de Wad‑ad‑Lete (donde depois saiu Guadalete), ou ainda Xeres, (donde Jerez), e que teria dado o nome à cidade bem conhecida pelos vinhos e aguardentes célebres em todo o mundo. Esta hipótese é, a nosso ver, a mais plausível, mesmo porque já indica um certo avanço, uma certa progressão para Norte e que justifica o não imobilismo das forças de Tarik. E mais fácil, portanto, compreender que teria sido, nas margens deste rio, que se teria ferido a célebre batalha, se atendermos a que Tarik teria conseguido estabelecer uma testa de desembarque de certa amplitude, depois dos reforços enviados por Musa e que teria, pouco mais ou menos, atingido o perímetro: Vejar de La Frontera — Zahara — Grazalema — Ronda — Estepona, nos seus pontos essenciais e nos “passos” das serras correspondentes.
Seria absolutamente incompreensível que Tarik não tivesse tentado atingir e ocupar os pontos essenciais de Zahara e da serrania de Ronda, e que lhe eram necessários à sua própria defesa.
Por outro lado, Ruderick, que, atingida Cordoba, se dirigia, então, para Moron de La Frontera, era lógico que, encontrando o curso do Guadalete, aí se estabelecesse como uma linha de defesa e ainda procurasse envolver pela sua esquerda, o flanco direito de Tarik, logicamente o mais fraco, ou, talvez, apenas vigiado, pois, como era plausível, Tarik deveria dirigir‑se directamente para Hispalis (Sevilla), o seu primeiro objetivo, enquanto que Ruderick tentaria, combinando com o envolvimento pela esquerda, atacá‑lo ao centro para obter a decisão.
Tarik devia ter pesado bem as possibilidades do inimigo e em face do estabelecimento dos Cristãos nas margens do Guadalete, ou nas suas imediações, dispôs os seus efectivos principais numa zona, que se pode imaginar junto a este rio, entre Medina Sidônia e o lacete agudo que faz o rio a Norte desta povoação, mas, com todas as probabilidades a Sul do rio e, portanto, este não desempenhou o papel de obstáculo, ou linha de defesa, nem as crónicas muçulmanas referem a sua transposição durante o combate, o que era natural se o tivesse sido.
Há uma grande confusão nos relatos das crónicas e pouco se sabe de concreto acerca de certos detalhes da batalha; em que há mais dificuldades no seu estudo do que em muitas ações da Alta Antiguidade. Temos de fazer suposições, estabelecer hipóteses, tirar conclusões, mais ou menos plausíveis.
O grande escritor espanhol, general Kindelan estabelece um esquema, que nos parece mais plausível do que qualquer outro:
(1) 1ª Fase = Dias 19, 20 e 21
Combater em posição com pequenas alterações de dispositivo;
(2) 2ª Fase = Dia 22
As alas cristãs cedem, o seu centro resiste;
(3) 3ª Fase = Dia 23
O centro cede, as alas entram em fuga; retirada geral; derrota total.
Na madrugada de 19 de Julho de 711, na planície pantanosa, em parte, a Sul da curva apertada que aí faz o rio, Tarik estabeleceu o seu dispositivo frente a Norte, com a sua cavalaria árabe ao centro e em linha, a cavalaria berbere, de grande mobilidade, nos flancos, uns troços de infantaria berbere à retaguarda do centro e uns tabores de reserva de cavalaria em 3ª linha. Tomou o comando global, sem reserva alguma sob o seu comando direto. De resto, era quase regra geral, a reserva não estar na mão do Comando‑Chefe.
Ruderick dispôs as suas forças a Norte dos Muçulmanos e logo a Sul do rio, tendo: em 1ª linha o corpo do exército da Bética, sob o comando de Theodimir, ladeado pelos troços de cavalaria hispano‑godos dos comandos de Sisberto, à direita e de Dom Oppas à esquerda. À retaguarda, em 2ª linha e como reserva, na sua mão, o grosso da cavalaria hispano‑goda. Era intenção de Ruderick, logo de início, envolver com esta sua reserva o flanco direito do adversário, mas as coisas correram de outro modo...
Iniciaram‑se as hostilidades por ataques simultâneos e alternados de ambas as partes; Tarik tinha ordenado a cada um dos seus flancos (cavalaria berbere) que envolvesse a ala correspondente inimiga e, quando deu conta que Ruderick estava tentando envolver com a sua reserva a sua direita, mandou imediatamente os seus tabores de reserva contra‑atacar o envolvimento, ao mesmo tempo que o centro (cavalaria árabe) acometia furiosamente o centro cristão. Parece que esta fase de ataque frontal e envolvimentos recíprocos deve ter durado pelo menos 3 dias (!), durante os quais se notou a superioridade numérica dos cristãos e a grande coragem da cavalaria goda. Foi a fase da luta verdadeiramente de posição, por assim dizer e marcada pelo sinal (1) nas várias frações, no croquis. Não deve ter havido, aí, mudanças sensíveis de lugar das várias frações, dos dois contendores.
Mas, a seguir ao 3º dia, houve um momento, em que a situação de Tarik se tornou verdadeiramente crítica e em que os mouros estavam acusando indícios de pânico! Então o seu chefe subiu a grande altura (falando‑lhes de tal modo, mostrando‑lhes que apenas a sua salvação estava no ataque e na luta encarniçada e que tivessem uma fé inabalável em Allah; que ele, Tarik, iria acometer pessoalmente Ruderick e matá‑lo‑ia, ou morreria às suas mãos!...
Então, os mouros e berberes, encorajados pela patriótica arenga, voltaram ao ataque, mais ardorosos que nunca; os cristãos ainda aguentaram, com denodo quase aquele dia, mas pela tarde desse 4º dia, inexplicavelmente, as alas cristãs cedem terreno e inicia‑se simultaneamente a retirada geral! No 5º dia, esta estabelece‑se francamente, quase em fuga, perseguidos pelas cavalarias árabe e berbere, nos flancos, onde abrem crescentes ameaçadores!...
Teria havido traição de Sisberto e de Dom Oppas?... Enfraquecimento normal, a seguir a quatro dias de combates contínuos?... Sabe‑se lá!...
Nesse 4º dia, o centro cristão completamente cercado, ainda se defende heroicamente, até que, morto, ou desaparecido (afogado num pântano, segundo correu...), Ruderick, se inicia, então, a retirada geral que havia de degenerar em fuga no 5º dia...
Não se sabe — as crónicas são omissas — se o Rei Ruderick morreu realmente na batalha, ou depois, de ferimentos; não se sabe mesmo o destino dos que poderiam ter sido traidores; o que é certo é que Tarik ficou vencedor incontestado.
Desconhecem‑se também as baixas de parte a parte, mas deveriam ter sido terríveis sobretudo do lado dos cristãos, que aguentaram ataques sucessivos durante perto de 5 dias. A decisão deve‑se ter dado a 23 de julho pela manhã.
Com esta batalha verdadeiramente decisiva, pois decidiu os destinos da Península Hispânica, por quase 8 séculos, ia iniciar‑se a sua conquista sistemática e depois e logo a seguir à reconquista, uma das mais belas séries de páginas gloriosas das campanhas da Europa e que havia de durar precisamente 774 anos, desde Gangas de Onis (ano 718) até à tomada de Granada (ano 1492).
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Não faremos comentários, nem de carácter estratégico nem táctico, em virtude da incerteza dos detalhes e pormenores da condução da campanha e da própria batalha. É realmente inexplicável a falência das duas alas cristãs, de mais, ao fim de três dias de luta, quando as hostes de Tarik, enfraquecidas e desfalcadas, fraquejavam já! Seria traição, resultado ainda do ódio dos filhos de Witiza e dos seus partidários e do irmão contra o usurpador?... Quem o poderá dizer?!... Ficou tudo, a propósito desta memorável batalha dos 5 dias, bastante nebuloso; o que é certo é que o Koran dominou, por causa dela, e durante 781 anos, na Península Hispânica, mas também é incontestável que trouxe, durante esse dilatado período, muitos benefícios de civilização e um elevado grau de cultura.
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https://archive.org/details/a-batalha-de-chryssus-guadalete-1969
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Autor: Brigadeiro José Alfredo do Amaral Esteves Pereira
Publicado: Revista de Infantaria, ano 36,
nº.267‑269, Julho‑Setembro/1969, pp.207‑215
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