Resolvendo o problema demográfico no Ocidente



A crise demográfica no Ocidente exige uma resposta urgente e eficaz.  Ter três ou mais filhos é uma questão de sobrevivência ou extinção da espécie humana branca e das suas respectivas raças.  Se tal acontecer será uma catástrofe biológica por desleixo e insensatez humana.  

Para uma pessoa saudável física e psiquicamente, ser pai ou mãe de três ou mais filhos — nos tempos que correm — passou a ser de facto um dever cívico e não uma opção.  No dito Ocidente, trata‑se de salvar uma espécie humana à beira da extinção.  A espécie humana branca!…   

Não quero com este texto transformar a liberdade pessoal de cada um numa obrigação estatal.  Até porque algumas pessoas são incapazes de cuidar de crianças, aliás, elas nem sequer são capazes de cuidar delas próprias, quanto mais de uma criança.  

Ter filhos é uma decisão profundamente íntima e pessoal, é condicionada pela saúde, pelas circunstâncias económicas e pelas escolhas de cada pessoa.  Por isso, em vez de se impor pela força da Lei a todos os adultos o dever de serem pais de três ou mais filhos, é mais justo criar as condições para que quem deseja ter filhos possa fazê‑lo sem enfrentar pobreza, insegurança ou abandono e, seja beneficiado relativamente aos outros que optaram por não ter filhos.  Isto é, aqueles que reunindo as condições físicas e psíquicas, não cumpriram — a obrigação — o seu dever cívico e moral de perpetuar a espécie, evitando que ela se extinga.  

Então, e como poderemos fazer isso nos países Ocidentais, onde a liberdade individual é sagrada, o ócio é persistente, a irresponsabilidade reina e imoralidade é banal?…   Bem… De maneira muito simples.  É claro que, para tal é absolutamente necessário ter coragem política.  Não sou nenhum iluminado e de certo que muitos ilustres homens da política e da sociologia europeia já chegaram à mesma conclusão que eu.  Mesmo assim, vou passar de seguida para os meus leitores a “receita” que em consciência julgo ser a única resolução viável e eficaz.  

Então, para pais e mães com três filhos ou mais:  


BENEFÍCIOS  FISCAIS: 
- Isenção de pagar IRS sobre rendimentos de trabalho.  
- Reembolso parcial do IVA em as todas compras familiares (excepto artigos considerados de luxo).

BENEFÍCIOS  DE  APOIO  SOCIAL:
- Licença parental alargada.  
- Infantários gratuitos ou, subsídio equivalente ao SMN para um dos membros do agregado familiar.
    
OUTROS  BENEFÍCIOS:
- Bónus sob os descontos para a Segurança Social para os empregadores dos membros desse agregado familiar.


Complementávamos estas medidas com algumas penalizações (entre outras mais) para todos os outros que fossem física e psiquicamente capazes, mas que, optaram por não cumprir o dever cívico de ter três ou mais filhos.  Então, teríamos:  

PENALIZAÇÃO  FISCAL:
- Perda de todo e qualquer benefício ou dedução fiscal em sede de IRS.  

PENALIZAÇÕES  SOCIAIS:
- Impedimento de antecipar a reforma.  


Eventualmente, algumas pessoas poderiam tentar contornar esta situação através da emigração.  A seguinte consideração aplica‑se a todos os cidadãos, tenham ou não filhos.

Vejamos...  Desde o nascimento e, pelo menos, até à conclusão dos estudos, cada pessoa representa uma despesa significativa para o Estado.  Ainda assim, a emigração não deve ser tratada como um crime.  No entanto, seria justo que o país exigisse às pessoas que emigram o reembolso dos custos dos serviços públicos de que beneficiaram ao longo da vida, até à data da sua decisão de emigrar.  

A saúde e a formação académica, são direitos dos cidadãos e simultaneamente investimentos colectivos da nação.  O Estado, financiado pelos impostos pagos pelos cidadãos, proporciona‑lhes acesso à saúde e à formação académica.  Por isso, não seria justo que outro país beneficiasse do investimento realizado pelo Estado na formação dessas pessoas.  

Assim, o Estado tem o direito de exigir coercivamente aos emigrantes o pagamento dos custos correspondentes, deduzindo os benefícios que, eventualmente, tenha recebido deles até à data da emigração.  

Para concluir, reafirmo o que escrevi no início: resolver a crise demográfica não significa exigir que cada pessoa constitua uma família numerosa.  Significa sim, sensibilizar a população e criar as condições necessárias para que mais pessoas possam cumprir o dever cívico de ter três ou mais filhos, assegurando, ao mesmo tempo, que todas as crianças tenham condições para crescer com dignidade.  

Uma política demográfica duradoura nasce do apoio do Estado, da confiança, da liberdade de escolha e fundamentalmente da responsabilidade de cumprir o dever cívico de prepetuar a espécie e a raça.   


CONCLUINDO: 
- A ideia destas medidas é ajustar a máquina fiscal de maneira a que fosse mais vantajoso para as famílias terem três ou mais filhos do que um, dois ou nenhum.  

TER TRÊS OU MAIS FILHOS, JÁ NÃO É UMA OPÇÃO, É UM DEVER CÍVICO!  


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Como é que a Europa se tornou tão fraca e cega?



Como é que a Europa se tornou tão fraca e cega?

A Europa não se tornou fraca de um dia para o outro. Décadas de baixas taxas de natalidade, um consenso das elites contra a afirmação cultural e o hábito de tratar a imigração em massa como um bem moral, em vez de um facto demográfico e político, deixaram grandes partes do continente incapazes de impor a ordem básica.  O resultado de tudo isso está claramente visível em França.

A agitação estudantil que começou no final de Setembro (2026) por causa das condições nas escolas — sobrelotadas, falta de professores, edifícios degradados, etc. — transformou-se em violência de rua concentrada nos subúrbios. 

Mais de mil liceus foram afectados, cerca de 220 bloqueados no pior dia e, cerca de 400 escolas secundárias encerradas na sexta-feira.  Os números do Ministério do Interior apontam para perto ou acima de 2 mil detenções, na grande maioria adolescentes.  Centenas de agentes da polícia ficaram feridos (305 registados só na quinta-feira, segundo algumas contagens), e entre o pessoal da educação contam-se dezenas de feridos.  As autoridades chamam-lhe agora violência urbana, e não um protesto escolar, e apontaram a agitação da extrema-esquerda, incluindo movimento França Insubmissa, fundado por Jean-Luc Mélenchon, como um factor que alargou a desordem. 

Os incidentes mais graves dos últimos dias incluem vários incêndios em escolas, pessoal do liceu Victor Hugo, em Marselha, alegadamente salpicado com gasolina, vídeos de professores agredidos por alunos, fogo de artifício do tipo morteiro disparado contra as linhas da polícia, vedações derrubadas, lojas saqueadas em alguns locais e perturbações nos transportes públicos em Marselha e Estrasburgo, após vandalismo e ameaças. 

Seine-Saint-Denis, em Paris, tem sido um centro dos bloqueios e dos confrontos.  A demografia dessa zona não é segredo, grandes populações norte-africanas e subsarianas, elevadas concentrações de residentes muçulmanos e um longo historial de motins quando a ordem fraqueja.  As queixas imediatas invocadas por muitos alunos são reais — tectos com infiltrações, professores ausentes, turmas sobrelotadas.  Os métodos (incêndios contra escolas, ataques ao pessoal, fogo de artifício usado como arma) correspondem mais a padrões vistos em anteriores episódios de violência urbana francesa do que à política estudantil comum. 

A comparação com o Irão em 1979 é inevitável.  No Irão, facções de esquerda e islamistas cooperaram contra o Xá Mohammad Reza Pahlavi.  Depois de tomarem o poder, muitos desses esquerdistas foram presos ou executados.  Na Europa Ocidental, o paralelo existente é de natureza política — sectores da esquerda radical trataram redes islâmicas como aliadas contra o Estado liberal, policiando o discurso sobre a integração e, ao mesmo tempo, minimizando os padrões de criminalidade, normas paralelas e incidentes antissemitas associados a esses mesmos grupos.  É provável que o pacto termine da mesma forma, perante o inferno que se desenrola agora nas ruas de França. 

A esquerda quis ter o seu próprio exército privado para comandar.  

Mas irá ser devorada pela força que criou. 

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A batalha de Chryssus (Guadalete)


A  BATALHA  DE  CHRYSSUS
( GUADALETE, 711 )





" As dissensões do império visigótico trouxeram à Hespanha os muçulmanos... "


Alexandre Herculano                    
História de Portugal, Volume I, página 101                    



De feito, estas dissensões eram o fruto da dissolução de costumes e de moral, produzida, logo a seguir à conquista da Península pelos Godos aos Romanos.  Os conquistadores, deslumbrados pelo adiantado da civilização dos vencidos, quiseram copiar, imitar, todas as suas qualidades, mas também copiaram alguns dos seus defeitos; todo o requinte da civilização, que já denotava sinais inequívocos de decadência e daí o terem entrado no caminho do luxo e da depravação dos costumes. 

A civilização romana adoçou, é certo, a rudeza dos costumes dos Godos, mas já não tinha a vitalidade e a pureza de outrora.  O pior dos males que trouxe aos conquistadores foi a depravação moral.  Os Visigodos procuraram, com afã, imitar o luxo, o requinte, dos vencidos.  Toletum (Toledo) quis, assim, imitar Roma, ou Constantinopla; o luxo, a ostentação desenfreada, imperou e foi isso que deitou a perder o Império.  O próprio clero, que, a princípio, tinha querido opor um dique à podridão e à devassidão dos costumes, acabou, também, por se corromper!  A dissolução moral arrastou a política.  No meio desta degeneração, um chefe verdadeiro, mais puro, mais são, que os outros, Ruderick (Rodrigo) apossou‑se da coroa (ano 709), que os filhos do seu antecessor Witiza, Sisebuto e Ebbas, lhe disputaram durante bastante tempo, sem resultado.  A situação moral e política melhorou, então, um pouco, mas os dias do Império Visigótico estavam irremediavelmente contados!  Entretanto, a cidade de Septa (Ceuta), em plena Berberia, pertencia ao Império Visigótico e tinha por governador o Conde Olian‑el‑Gomari (conhecido vulgarmente na história por Juliano), que, querendo‑se vingar de uma ofensa grave anterior de Ruderick, entregou Septa aos berberes e ao seu chefe Musa Ibn Nusayr, instigando‑o a invadir a Península Hispânica, aproveitando o descalabro, que reinava no meio visigótico.  

Fala‑se muito, na História, da traição do Conde Juliano, entregando Septa e instigando o chefe Muçulmano a invadir a Península.  Mas é preciso ver que Olian‑el‑Gomarí, não era visigodo, não era sequer cristão, mas natural da cabila de Gomara, isto é, um puro berbere; não devia lealdade a Ruderick, de mais que este fora um usurpador, mas era um verdadeiro súbdito do Imperador de Bizâncio, Justiniano II, a quem estava directamente subordinado.  De resto, como tinha sido sempre amigo e recebera auxílio de Witiza e dos seus filhos, era natural e lógico que se inclinasse para estes e não para o usurpador Ruderick.  

Posto este pequeno parêntesis, Musa, em face do oferecimento de auxílio de Olian‑el‑Gomarí, fez duas tentativas de desembarque na região do Calpe (hoje, o rochedo de Gibraltar) e na baía de Algeciras, como duas tentativas de estabelecimento de uma testa de praia, mas sem resultado, apenas levando já ricos despojos.  Então organizou um verdadeiro exército de uns 12.000 homens, segundo Herculano, composto, em grande parte, por Sarracenos e Berberes, capitaneado pelo seu lugar‑tenente, no governo do Moghreb (Mauritânia), Tarik Ibn Zeyad.  

Juliano (tratemo‑lo assim) acompanhou a expedição e tendo atravessado, de madrugada e durante o dia 28 de Abril de 711, o estreito, nas suas embarcações ligeiras de velas triangulares, que seriam as precursoras dos futuros “chavecos” argelinos e dos “cáravos” tunisinos, aportaram, uns, às raízes do Calfe, ocupando‑o e, outros, à baía que hoje se denomina de Algeciras (de Alghezirah Alhadra, Ilha Verde).  O desembarque terminou ao cair da tarde desse dia.  

Tarik, hábil e cauteloso como era, tratou imediatamente de se estabelecer e fortificar no morro e suas imediações e aguardou reforços, que esperava ainda.  

Desde então o Calpe mudou de nome e passou a ser o Gebel Tarik (monte de Tarik, donde, depois, proveio Gibraltar).  Entretanto os elementos de vigilância visigótica de Carteia tinham alertado Ruderick, que estava longe, que, por seu turno, pediu auxílio ao Conde Theodimir (Teodomiro), Duque de Cordoba, que governava a província Bética e que estava mais perto do local da invasão.  Este aprestou‑se imediatamente para a luta; com os elementos que pôde reunir.  Sobre os efectivos do invasor há divergências grandes entre os historiadores: alguns compõem o exército muçulmano de uns 7.000 guerreiros berberes, 900 árabes, e aproximadamente uns 100 “witizianos” (cristãos visigodos partidários de Witiza e residentes em Septa e arredores) e que desempenhariam as funções de guias, intérpretes e auxiliares.  Assim o efectivo total orçaria pelos 8.000 homens e não pelos 12.000, conforme a opinião de Alexandre Herculano.  
 
Iniciaram‑se as correrias e escaramuças, de parte a parte; as tropas de Tarik, procurando obter informações sobre efectivos e possíveis linhas de defesa; as de Theodimir, para se oporem às correrias dos berberes, à destruição de culturas e ao saque das povoações.  

Logo que o Conde Theodimir teve o primeiro conhecimento do desembarque e consequente aviso de Ruderick pedindo‑lhe auxílio, acudiu com as forças, que de momento pôde reunir na província, talvez uns 1.500 homens a cavalo, mas, apesar dos auxílios das populações e do seu esforço, viu‑se em sérios apuros perante a superioridade numérica do invasor.  Então escreveu uma carta, que ficou célebre, a Ruderick, instigando‑o a que levantasse o maior número de tropas que pudesse e que se viesse pôr à frente da defesa, pois o seu lugar era ali, e o mais urgentemente que pudesse. 

Ruderick, que a esse tempo estava sitiando Pamplona, em virtude de uma rebelião na Navarra, e onde soube da invasão pelos emissários de Carteia, começou imediatamente a juntar tropas e para isso, tentou, desde logo, congraçar‑se com os filhos de Witiza e com Dom Oppas (bispo de Toledo, irmão de Witiza), prometendo‑lhe benesses e regalias, ao que eles corresponderam, pelo menos então, patrioticamente com promessas de lealdade e boa cooperação, sem que se pudesse adivinhar se albergavam intenções reservadas de traição no futuro, ou não!...  Mas Ruderick confiou!...  

Reunidas as tropas, no máximo efectivo, que conseguiu, a Sul de Pamplona, iniciou Ruderick o deslocamento, a marchas forçadas, na direção geral: Pamplona — Soria — Toledo — Cordoba, a fim de se pôr em contacto com as tropas de Theodimir e concertar a defesa.  Os cronistas muçulmanos atribuem aos seus efectivos uns 100.000 homens, o que parece exagerado e que outros historiadores muçulmanos reduziram, depois, para uns 40 a 50.000 homens, o que é mais plausível.  

Ao ter conhecimento desta marcha forçada e dos grandes efectivos cristãos que se avizinhavam, Tarik, aflito, pediu instantemente reforços a Musa, que se não fez esperar enviando‑lhe breve uns 5.000 ginetes e um número aproximado de infantes, cerca de uns 10.000 homens de reforço.  Deste modo e então, segundo os mesmos cronistas muçulmanos, os efectivos dos exércitos em presença seriam: muçulmanos, uns 20.000 homens e cristãos uns 40 a 50.000 e não os 100.000 de certos cronistas exagerados.  

Os muçulmanos de Tarik marcham para Norte, ao encontro das hostes Cristãs, não desguarnecendo o Calpe e os pontos importantes da baía, como era de prudência.  

Mesmo não é natural e lógico que Tarik, chefe sabedor e esforçado, se ficasse, cerca de 3 meses, apegado ao Calpe e à costa, como certos escritores pretendem.  O que era natural é que ele, uma vez estabelecida a sua testa de desembarque tentasse imediatamente iniciar a invasão para Norte.  

Acerca da região em que se deu o encontro dos dois exércitos há também discordâncias: a princípio tomou forma a tese do vale do Chryssus, nome que os Romanos davam ao rio Guadalete, do nome que depois os muçulmanos lhe puseram, ou Xeres, e que tendo as suas origens na região de Olvera‑Algamitas, banha Arcos de La Frontera e vai desaguar na Baía de Cádis.  Depois tomou consistência outra tese: a da região da Lagoa de Janda, ou ainda, o vale do Barbate, e lagoas e pântanos desta região mais ao Sul.  Contudo, estudos mais recentes fizeram voltar os críticos para a primeira hipótese, a do Chryssus, a que os muçulmanos logo puseram o nome de Wad‑ad‑Lete (donde depois saiu Guadalete), ou ainda Xeres, (donde Jerez), e que teria dado o nome à cidade bem conhecida pelos vinhos e aguardentes célebres em todo o mundo.  Esta hipótese é, a nosso ver, a mais plausível, mesmo porque já indica um certo avanço, uma certa progressão para Norte e que justifica o não imobilismo das forças de Tarik.  E mais fácil, portanto, compreender que teria sido, nas margens deste rio, que se teria ferido a célebre batalha, se atendermos a que Tarik teria conseguido estabelecer uma testa de desembarque de certa amplitude, depois dos reforços enviados por Musa e que teria, pouco mais ou menos, atingido o perímetro: Vejar de La Frontera — Zahara — Grazalema — Ronda — Estepona, nos seus pontos essenciais e nos “passos” das serras correspondentes.  

Seria absolutamente incompreensível que Tarik não tivesse tentado atingir e ocupar os pontos essenciais de Zahara e da serrania de Ronda, e que lhe eram necessários à sua própria defesa.  

Por outro lado, Ruderick, que, atingida Cordoba, se dirigia, então, para Moron de La Frontera, era lógico que, encontrando o curso do Guadalete, aí se estabelecesse como uma linha de defesa e ainda procurasse envolver pela sua esquerda, o flanco direito de Tarik, logicamente o mais fraco, ou, talvez, apenas vigiado, pois, como era plausível, Tarik deveria dirigir‑se directamente para Hispalis (Sevilla), o seu primeiro objetivo, enquanto que Ruderick tentaria, combinando com o envolvimento pela esquerda, atacá‑lo ao centro para obter a decisão.  

Tarik devia ter pesado bem as possibilidades do inimigo e em face do estabelecimento dos Cristãos nas margens do Guadalete, ou nas suas imediações, dispôs os seus efectivos principais numa zona, que se pode imaginar junto a este rio, entre Medina Sidônia e o lacete agudo que faz o rio a Norte desta povoação, mas, com todas as probabilidades a Sul do rio e, portanto, este não desempenhou o papel de obstáculo, ou linha de defesa, nem as crónicas muçulmanas referem a sua transposição durante o combate, o que era natural se o tivesse sido.  

Há uma grande confusão nos relatos das crónicas e pouco se sabe de concreto acerca de certos detalhes da batalha; em que há mais dificuldades no seu estudo do que em muitas ações da Alta Antiguidade.  Temos de fazer suposições, estabelecer hipóteses, tirar conclusões, mais ou menos plausíveis.  

O grande escritor espanhol, general Kindelan estabelece um esquema, que nos parece mais plausível do que qualquer outro:  


(1) 1ª Fase = Dias 19, 20 e 21
Combater em posição com pequenas alterações de dispositivo; 

(2) 2ª Fase = Dia 22
As alas cristãs cedem, o seu centro resiste;  

(3) 3ª Fase = Dia 23
O centro cede, as alas entram em fuga; retirada geral; derrota total.



Na madrugada de 19 de Julho de 711, na planície pantanosa, em parte, a Sul da curva apertada que aí faz o rio, Tarik estabeleceu o seu dispositivo frente a Norte, com a sua cavalaria árabe ao centro e em linha, a cavalaria berbere, de grande mobilidade, nos flancos, uns troços de infantaria berbere à retaguarda do centro e uns tabores de reserva de cavalaria em 3ª linha.  Tomou o comando global, sem reserva alguma sob o seu comando direto.  De resto, era quase regra geral, a reserva não estar na mão do Comando‑Chefe.  

Ruderick dispôs as suas forças a Norte dos Muçulmanos e logo a Sul do rio, tendo: em 1ª linha o corpo do exército da Bética, sob o comando de Theodimir, ladeado pelos troços de cavalaria hispano‑godos dos comandos de Sisberto, à direita e de Dom Oppas à esquerda.  À retaguarda, em 2ª linha e como reserva, na sua mão, o grosso da cavalaria hispano‑goda.  Era intenção de Ruderick, logo de início, envolver com esta sua reserva o flanco direito do adversário, mas as coisas correram de outro modo...  

Iniciaram‑se as hostilidades por ataques simultâneos e alternados de ambas as partes; Tarik tinha ordenado a cada um dos seus flancos (cavalaria berbere) que envolvesse a ala correspondente inimiga e, quando deu conta que Ruderick estava tentando envolver com a sua reserva a sua direita, mandou imediatamente os seus tabores de reserva contra‑atacar o envolvimento, ao mesmo tempo que o centro (cavalaria árabe) acometia furiosamente o centro cristão.  Parece que esta fase de ataque frontal e envolvimentos recíprocos deve ter durado pelo menos 3 dias (!), durante os quais se notou a superioridade numérica dos cristãos e a grande coragem da cavalaria goda.  Foi a fase da luta verdadeiramente de posição, por assim dizer e marcada pelo sinal (1) nas várias frações, no croquis.  Não deve ter havido, aí, mudanças sensíveis de lugar das várias frações, dos dois contendores.  

Mas, a seguir ao 3º dia, houve um momento, em que a situação de Tarik se tornou verdadeiramente crítica e em que os mouros estavam acusando indícios de pânico!  Então o seu chefe subiu a grande altura (falando‑lhes de tal modo, mostrando‑lhes que apenas a sua salvação estava no ataque e na luta encarniçada e que tivessem uma fé inabalável em Allah; que ele, Tarik, iria acometer pessoalmente Ruderick e matá‑lo‑ia, ou morreria às suas mãos!...  

Então, os mouros e berberes, encorajados pela patriótica arenga, voltaram ao ataque, mais ardorosos que nunca; os cristãos ainda aguentaram, com denodo quase aquele dia, mas pela tarde desse 4º dia, inexplicavelmente, as alas cristãs cedem terreno e inicia‑se simultaneamente a retirada geral!  No 5º dia, esta estabelece‑se francamente, quase em fuga, perseguidos pelas cavalarias árabe e berbere, nos flancos, onde abrem crescentes ameaçadores!...  

Teria havido traição de Sisberto e de Dom Oppas?...  Enfraquecimento normal, a seguir a quatro dias de combates contínuos?...  Sabe‑se lá!...  

Nesse 4º dia, o centro cristão completamente cercado, ainda se defende heroicamente, até que, morto, ou desaparecido (afogado num pântano, segundo correu...), Ruderick, se inicia, então, a retirada geral que havia de degenerar em fuga no 5º dia...    

Não se sabe — as crónicas são omissas — se o Rei Ruderick morreu realmente na batalha, ou depois, de ferimentos; não se sabe mesmo o destino dos que poderiam ter sido traidores; o que é certo é que Tarik ficou vencedor incontestado.  

Desconhecem‑se também as baixas de parte a parte, mas deveriam ter sido terríveis sobretudo do lado dos cristãos, que aguentaram ataques sucessivos durante perto de 5 dias.  A decisão deve‑se ter dado a 23 de julho pela manhã.  

Com esta batalha verdadeiramente decisiva, pois decidiu os destinos da Península Hispânica, por quase 8 séculos, ia iniciar‑se a sua conquista sistemática e depois e logo a seguir à reconquista, uma das mais belas séries de páginas gloriosas das campanhas da Europa e que havia de durar precisamente 774 anos, desde Gangas de Onis (ano 718) até à tomada de Granada (ano 1492). 



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Não faremos comentários, nem de carácter estratégico nem táctico, em virtude da incerteza dos detalhes e pormenores da condução da campanha e da própria batalha.  É realmente inexplicável a falência das duas alas cristãs, de mais, ao fim de três dias de luta, quando as hostes de Tarik, enfraquecidas e desfalcadas, fraquejavam já!  Seria traição, resultado ainda do ódio dos filhos de Witiza e dos seus partidários e do irmão contra o usurpador?...  Quem o poderá dizer?!...  Ficou tudo, a propósito desta memorável batalha dos 5 dias, bastante nebuloso; o que é certo é que o Koran dominou, por causa dela, e durante 781 anos, na Península Hispânica, mas também é incontestável que trouxe, durante esse dilatado período, muitos benefícios de civilização e um elevado grau de cultura.  


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Autor:  Brigadeiro José Alfredo do Amaral Esteves Pereira
Publicado:  Revista de Infantaria, ano 36, nº.267‑269, Julho‑Setembro/1969, pp.207‑215



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A Quarta Teoria Política (um resumo)



Para quem não conhece os conceitos da Quarta Teoria Política (Teoria do Mundo Multipolar) ou para quem nunca leu o livro “A Quarta Teoria Política”, de Aleksandr Dugin, aqui está um curtíssimo resumo.  

Então, “A Quarta Teoria Política”, de Aleksandr Dugin, é um livro que nasce da sensação de fim de uma época.  O seu ponto de partida é a ideia de que as grandes ideologias políticas do século XX — liberalismo, comunismo e fascismo — entraram em colapso ou esgotaram-se historicamente, deixando um vazio intelectual e político.  Dugin escreve como quem olha para os destroços do século passado e pergunta não apenas o que restou, mas o que ainda pode ser construído depois da ruína.  Nesse sentido, o livro não é só uma proposta política: é também um diagnóstico civilizacional, quase um manifesto contra a uniformização do mundo contemporâneo.  

A tese central é simples de formular, embora complexa nas consequências: se o liberalismo venceu os seus rivais históricos, isso não significa que tenha vencido a história.  Para Dugin, o liberalismo tornou-se a ideologia dominante, mas essa dominância produziu um mundo empobrecido espiritualmente, tecnocrático e sem profundidade metafísica.  O indivíduo, celebrado como centro absoluto, passa a existir isolado, dissolvido em consumo, mercado e administração.  A política, nessa visão, perde substância e torna-se gestão.  O livro insiste que esse esvaziamento não é neutro: ele representa uma forma específica de poder, que se apresenta como universal, mas que destrói diferenças culturais, identidades coletivas e tradições locais.  

Dugin tenta então abrir espaço para uma “quarta” teoria, isto é, uma alternativa às três grandes ideologias modernas.  Todavia, essa alternativa não é apresentada como um sistema fechado, pronto e conclusivo.  Ela aparece mais como uma busca, uma arquitetura em construção, uma convocação para pensar além das categorias herdadas da modernidade.  Em vez de repetir o jogo já conhecido entre Estado, mercado e revolução, ele propõe recuperar algo anterior e mais profundo: a noção de povo, tradição, destino histórico, enraizamento e pertença.  A sua crítica mira sobretudo o sujeito liberal, abstrato, individualizado, desligado de laços orgânicos, porque para ele esse sujeito é a peça central do domínio moderno.  

O livro também é fortemente marcado por uma rejeição da ideia de que a história caminha inevitavelmente para uma ordem única.  Contra o universalismo liberal, Dugin defende uma visão plural do mundo, formada por civilizações distintas, cada uma com a sua verdade histórica e a sua missão própria.  Aqui há uma das dimensões mais importantes da obra: o desejo de substituição do modelo homogéneo por uma política das diferenças civilizacionais.  O mundo, nessa leitura, não deveria ser uma cópia ampliada do Ocidente liberal, mas sim, uma constelação de centros culturais com direito à autonomia espiritual e política.  

Ao mesmo tempo, o livro opera num terreno perigoso e controverso.  Dugin tenta afastar-se explicitamente do fascismo e do comunismo clássicos, mas o seu vocabulário frequentemente reaproveita temas de tradição, organicismo, unidade colectiva e anti-individualismo, que podem soar inquietantemente próximos de formas autoritárias de pensamento.  É precisamente aí que a obra divide os leitores: para alguns, trata-se de uma crítica ousada ao esvaziamento da política moderna; para outros, de uma tentativa de reembalar impulsos antiliberais em linguagem filosófica (o.d.a. - Mas qual é o mal de ser antiliberal?).  O texto não seduz pela moderação, mas pela força da ruptura.  

Interpretativamente, o livro pode ser lido como uma recusa do presente.  Dugin escreve como se a modernidade tivesse produzido não apenas progresso técnico, mas também desorientação metafísica.  O ser humano, afastado de qualquer centro sagrado, passa a flutuar entre identidades provisórias.  Ou seja, a Quarta Teoria Política surge como uma crítica à forma dominante de organizar a política, especialmente ao liberalismo moderno.  O que está em jogo não é apenas uma disputa entre sistemas políticos, mas a reconstrução do sentido.  

“Em vez da liberdade abstrata, pertença”: não basta ser formalmente livre para escolher; as pessoas também precisam de se sentir ligadas a uma comunidade, cultura, povo ou tradição. 

“Em vez da igualdade formal, diferença histórica”: em vez de tratar todos como indivíduos iguais perante regras universais, valoriza-se o facto de os povos e as culturas terem histórias e características próprias.  

“Em vez do consumo, destino”: a vida não deveria ser orientada sobretudo pela compra, pelo conforto e pelo mercado, mas por um sentido coletivo de missão ou futuro.  

“Em vez da neutralidade, visão de mundo”: nenhuma política seria realmente neutra; toda a sociedade deveria assumir uma interpretação explícita sobre o ser humano, a história e o futuro.  

Assim, a política não deve limitar-se a administrar leis, eleições e economia.  Deve também responder a perguntas como: Quem somos?...  A que comunidade pertencemos?...  Que história partilhamos?...  Para onde queremos ir?...  

A ideia central é que a política contemporânea teria ficado demasiado abstrata, técnica e centrada no indivíduo. Por isso, essa teoria tentaria “devolver densidade ao mundo”: dar às pessoas e às comunidades uma identidade, uma história e um propósito mais fortes.

Há, porém, uma tensão interna decisiva no livro: Dugin critica a modernidade com força, mas precisa usar categorias modernas para construir a sua crítica.  Ele rejeita o universalismo liberal, mas formula a sua alternativa em termos igualmente abrangentes e ambiciosos.  Quer superar a política moderna, mas ainda fala em teoria, modelo, sistema e horizonte civilizacional.  Essa tensão dá ao livro a sua energia e também o seu limite.  Ele não é uma doutrina acabada; é uma provocação intelectual que depende da insatisfação com o mundo actual.  

Em termos de estilo, a obra funciona como um chamado.  Não pretende apenas argumentar; pretende mobilizar.  O seu tom é profético, às vezes apocalíptico, frequentemente inflamado.  O leitor não é conduzido por uma exposição neutra, mas por uma narrativa de decadência e possibilidade.  Primeiro vem a constatação do colapso: as ideologias modernas falharam.  Depois, a pergunta essencial: O que vem depois?...  A resposta de Dugin não é tecnicamente detalhada, mas simbolicamente forte.  Ele quer reabrir o espaço da decisão histórica, como se dissesse que a humanidade ainda não terminou de escolher quem deseja ser.  

A sua ambição é contestar o monopólio do liberalismo sobre o imaginário político contemporâneo.  Mesmo para quem discorda radicalmente das suas conclusões, a obra obriga a pensar sobre uma questão incómoda: o que acontece quando uma ordem vence todas as outras e passa a parecer natural, inevitável, sem alternativa?...  Dugin responde tentando reintroduzir a possibilidade do conflito de ideias em escala civilizacional.  

Como resumo interpretativo, pode-se dizer que A Quarta Teoria Política é o "esforço" de construir uma política para depois do fim das ideologias clássicas, mas também uma denúncia da pobreza espiritual da modernidade liberal.  O livro combina crítica do individualismo, exaltação da tradição, defesa do pluralismo civilizacional e recusa da hegemonia ocidental.  A sua força está na ambição, o seu risco está na proximidade com visões autoritárias.  Lido como texto filosófico, ele é uma tentativa de restaurar profundidade ao debate político.  Lido como projecto histórico, ele é um lembrete de como a busca por alternativa pode facilmente deslizar para formas rígidas de poder.  Ainda assim, é justamente nessa ambiguidade que o livro permanece relevante: ele não oferece conforto, mas inquietação.  E, em matéria de pensamento político, a inquietação às vezes vale mais do que a certeza.  

No fundo, o livro é menos uma solução do que uma guerra contra a resignação.  



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Estamos falidos!



Já escrevi por aqui que estamos falidos e que a declaração de insolvência está prestes a rebentar.  Não se tem falado muito na imprensa, mas o dedo que vai enterrar de vez os partidos tradicionais na Europa já está no gatilho e chama-se dívida pública.  

Temo que vá haver autoritarismo durante uns tempos, porque dificilmente será possível despedir funcionários públicos e cortar regalias sem alguma forma de repressão que mantenha o país em funcionamento.  Falta apenas saber qual o lado que vai prevalecer, entre o lado que tem apoio dos wokes ou o lado que tem o apoio dos militares e das forças de segurança.  Aceitam-se apostas, porque o duelo adivinha-se renhido.  

Desejo-vos a todos uma transição com a paz e a segurança possíveis, na certeza de que uma insolvência do Estado sem possibilidade de resgate internacional (porque ninguém vai conseguir acudir como antes), será sempre dolorosa.  E não percam a esperança.  O ocidente é pródigo em transformar grandes crises num mundo melhor, e uma crise destas tem sempre a vantagem de também permitir a limpeza necessária de instituições e de problemas que nos têm amarrado à miséria.  

Saibamos aproveitar o mau para algo bom.  



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Fonte: 



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Operação Vagô



Corria o ano de 1961 e dois generais traidores à nação portuguesa, chamados Humberto Delgado e Henrique Galvão de Melo, dividem no exílio a liderança do Movimento Nacional Independente (MNI).  Estes generais eram apoiados por forças políticas de países estrangeiros e alinhados com as ideologias mundialistas, comunistas e libertinas.  

Os dois sempre mantiveram uma relação tensa, pois competiam pela liderança absoluta do movimento, mas na prática Humberto Delgado era o responsável político do movimento e o Henrique Galvão era o responsável pela organização militar e operacional.  A relação entre ambos deteriorou‑se bastante após o sequestro do paquete Santa Maria, porque Humberto Delgado considerou‑a um fracasso e Galvão de Melo tinha opinião contrária.

Por volta de finais de Maio, Galvão de Melo comunicou a Humberto Delgado que tinha um plano para desviar um avião da TAP (Transportes Aéreos Portugueses) e lançar panfletos revolucionários sobre várias cidades portuguesas — baptizado de Operação Vagô.  

Humberto Delgado não concordou com o plano de Galvão de Melo em virtude dele também ter um plano para organizar um pronunciamento do Exército em Portugal.  Porém, Galvão de Melo tentou convencer Delgado a concretizar os dois planos simultaneamente e nesse entretanto reivindica o comando operacional do movimento.  

Mas, Humberto Delgado recusou dar‑lhe o comando operacional do movimento e na sequência desse desentendimento extinguiu o cargo de secretário‑geral do MNI.  Galvão de Melo inconformado respondeu‑lhe: 

      - Deixei de ser o que, efectivamente, nunca fui, como titular de um cargo que, efectivamente, nunca existiu, 
        num movimento que, pelos vistos, está reduzido, também, a uma inexistência efectiva.  



Após este episódio de crispação, no mês de Setembro, Galvão de Melo funda uma nova organização revolucionária denominada Frente Anti‑totalitária dos Portugueses Livres no Exílio, mais conhecida pela sua sigla FAPLE. 

Por esta ocasião, Humberto Delgado e Galvão de Melo estavam em Marrocos, hospedados no Hotel Minzah, em Tânger.  Delgado preparava uma sublevação militar em Portugal e, Galvão de Melo planeava o desvio de um avião — a dita Operação Vagô.  Os elementos operacionais que intervieram na dita operação conheciam‑se bem, pois todos eles estiveram exilados no Brasil e tentaram por tudo que os dois chefes unissem esforços para fazerem uma operação em conjunto, porém sem sucesso!

Humberto  Delgado  e  Henrique  Galão  de  Melo


O general Galvão de Melo, nomeou para executarem a Operação Vagô, os seguintes elementos operacionais terroristas: 

   - Hermínio da Palma Inácio
   - Camilo Mortágua 
   - Amândio Silva
   - João Martins
   - Francisco Vasconcelos
   - Helena Vidal



Enquanto que, Humberto Delgado enviou para Portugal os seguintes elementos operacionais terroristas, com a missão de organizarem o pronunciamento militar:  

   - Manuel Serra
   - José da Silva Graça 
   - Raul Marques 



Galvão de Melo aceitou aguardar algumas semanas pela sublevação militar, todavia, os operacionais enviados por Humberto Delgado tiveram muitas dificuldades em convencer alguns quartéis a aderirem.  Entretanto, em Novembro de 1961, Galvão de Melo decidiu avançar com a sua Operação Vagô.  Somente no final do ano é que os enviados de Humberto Delgado vieram a conseguir uma intentona militar, que ocorreu a 1 de Janeiro de 1962, com um assalto ao quartel do Regimento de Beja.  A intentona foi um fracasso, não obstante o quartel ter estado tomado pelos revolucionários durante algumas horas.  

Relativamente à Operação Vagô, o plano terrorista era partir de avião de Casablanca e seguir a rota normal para Lisboa, depois simular a aterragem no aeroporto da Portela (em Lisboa) e em voo rasante sobre a cidade, largar os panfletos.  Também estava no plano da operação lançar os panfletos sobre as cidades do Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.  Em seguida o avião voaria para Tânger, em Marrocos, onde Palma Inácio e o restante grupo de terroristas esperavam obter asilo político.  

A ocasião escolhida para esta operação foi intencional, pois o país estava nas vésperas das eleições para a Assembleia Nacional.  Os panfletos apelavam à revolta popular para impedir, “de qualquer maneira”, a “farsa do acto eleitoral”.  

Lockheed  Super  Constellation  da  TAP


Era uma sexta‑feira, 10 de Novembro, ás 9:15 Horas da manhã, o avião Lockheed Super Constellation da TAP, batizado Mouzinho de Albuquerque, descolava da pista do aeroporto de Casablanca, em Marrocos, com destino a Lisboa.  Era previsto o voo durar 1 hora e 30 minutos.  

A bordo, entre os 19 passageiros (estrangeiros e portugueses) viaja um grupo de 6 terroristas revolucionários chefiado por Hermínio Palma Inácio.  Na bagagem de mão, além das armas, levavam cerca de 100 mil panfletos destinados a serem largados sobre algumas cidades portuguesas.

Aproximadamente com uma hora de voo, o chefe dos operacionais terroristas — Palma Inácio — levantou‑se calmamente do seu lugar e dirigiu‑se ao cockpit e sacou de um revolver de cano longo, abriu a porta e entrou decidido, encostando o cano da arma à cabeça do comandante de voo — João Marcelino — e disse‑lhe o seguinte: 

      - Isto é uma acção revolucionária.  Não pretendo fazer mal a ninguém.
      - Façam o que Vos vou dizer.  

O co‑piloto Teles Grilo, o engenheiro de voo António Coragem e o mecânico de voo Alberto Coelho, não disseram uma única palavra.  Apenas o comandante João Marcelino, que estava ameaçado com o revolver, tentou com serenidade demover Palma Inácio, dizendo‑lhe:  

      - O avião não tem combustível para chegar a Tânger.

Porém, Palma Inácio estava seguro daquilo que estava a fazer.  Ele era mecânico de aviões, e além disso também tinha tirado um curso de piloto de linha aérea nos Estados Unidos, e disse:  

      - Mostre‑me os registos de voo.

O comandante entregou‑lhe os registos de voo e ele verificou que os tanques do avião foram atestados em Casablanca.  Então, disse para o comandante:  

      - Há combustível suficiente.  
      - Vai fazer o que eu lhe ordenei!

Todavia, o comandante João Marcelino tentou mais uma vez dissuadir Palma Inácio com outro argumento, dizendo‑lhe:  

      - Como é que vai lançar os panfletos?...  
      - Eu não posso abrir as portas e as janelas do avião.

Mas, Palma Inácio entendia de aeronáutica e retorquiu:  

      - Pode sim senhor!  
      - Vai voar o mais baixo possível, despressuriza as cabinas e abrimos as janelas de emergência.



E foi assim, desta maneira que Palma Inácio ficou com a situação controlada e bem encaminhada no cockpit.  Entretanto, lá atrás na cabina, a operação terrorista estava a correr ás mil maravilhas.  Os outros cinco revolucionários terroristas nem sequer foram obrigados a levantar a voz ou a mostrar as armas.  O comissário de bordo — Orlof Esteves — e as duas assistentes — Maria del Pilar e Luísa Infante — “aceitaram” colaborar com aquele momento histórico, bem como os treze passageiros, que não se mostraram muito preocupados com a situação.  

Então, o voo seguiu normalmente e a faltar pouco menos meia hora para chegar a Lisboa, momentos antes de iniciar os procedimentos para a descida, o comandante João Marcelino informou a torre de controlo e recebeu autorização para aterrar na pista nº.5.  Nesse momento Palma Inácio exclama: 

      - Que está a fazer?  
      - Se aterra somos todos presos.  



Mas no último momento o avião borregou sobre a pista, ganhou altitude e afastou‑se do aeroporto.  

Logo de seguida o comandante João Marcelino comunicou à torre de controlo e tentou explicar ao controlador de serviço — por meias palavras — que a bordo estava um grupo de terroristas e o obrigaram a fazer um voo rasante sobre Lisboa e sobre outras cidades do Sul do país.  Nesse entretanto, a comunicação foi interrompida pela voz do general Costa Macedo, da FAP (Força Aérea Portuguesa), que aos comandos de um monomotor, apercebeu‑se de tudo e deu o alerta.  Poucos minutos depois, dois caças F-84 levantaram voo da Base Aérea de Monte Real.  Descolaram com ordens para abaterem o avião da TAP no caso de não conseguirem obrigá‑lo a aterrar em solo português.  

Foi então que o Lockheed Super Constellation da TAP, iniciou um perigosíssimo jogo do gato e do rato, voando baixo a aproximadamente 100 metros de altura, para evitar ser detectado pelos radares e iludir os dois caças.  

Fez um voo rasante sobre a estátua do Marquês de Pombal, sobrevoou a baixa lisboeta e logo a seguir guinou sob Alcântara.  Foi então que uma chuva de milhares de panfletos foram lançados das janelas do avião e caíram sobre Lisboa, depois sobre o Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.

Entretanto, já de regresso a Marrocos, os pilotos avistam dois navios de guerra portugueses prontos para abater o avião.  Só havia uma hipótese de escapar.  Era voar a poucos de metros acima da água por entre os dois navios, impedindo‑os, assim, de utilizarem a artilharia, pois se o fizessem disparavam um contra o outro.  Foi a incrível proeza que o comandante João Marcelino conseguiu.  A calma, sempre mantida a bordo deveu‑se ao bom ambiente entre os “terroristas”, que nunca mostraram as suas armas aos passageiros, e a tripulação que além de ajudar a distribuir os folhetos, manteve os passageiros “entretidos” distribuindo‑lhes bebidas.  

Por fim, conforme planeado no roteiro da Operação Vagô, por volta das 12:50 Horas, o Lockheed Super Constellation da TAP, aterrou no aeroporto de Tânger, em Marrocos, com todos os que iam a bordo sãos e salvos.  Foi então no meio dos festejos pelo êxito da operação, que os passageiros, na maioria estrangeiros, perceberam o que se tinha passado.  A missão terrorista foi cumprida com êxito!... 

Nos dias seguintes, para alegria e satisfação dos terroristas revolucionários, a Operação Vagô mereceu honras por parte da imprensa internacional (e “nacional”) que ajudava no complô político internacional contra Portugal. 

Regressado o avião a Lisboa, o comandante João Marcelino acabou sendo interrogado pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), por suspeita de colaboracionismo com os “piratas do ar”, mas a verdade é que o comandante Marcelino não era sequer suposto estar naquele voo.  Ele trocou o voo para acompanhar a hospedeira Maria Luísa Infante, por quem estava apaixonado e com quem acabou por casar.  

Quanto aos terroristas, apesar das pressões do Governo português para que Marrocos extraditasse Palma Inácio e os restantes terroristas, eles ficaram retidos em Marrocos durante cerca de uma semana e depois foram autorizados a regressar ao Brasil onde estavam exilados.  

Em resumo, os conspiradores internos e externos contra o regime de então, são os mesmos políticos e magnatas internacionalistas que após 1945, em poucas décadas destruíram cultural e socialmente, todos os países de matriz civilizacional ocidental.  A prova desta afirmação é o que se assiste hoje em dia.  


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Recordações fenícias

Barco moliceiro, na ria de Aveiro


O nosso país tem coisas muito interessantes, e entre elas está o carro fenício com rodas fixas ao eixo, o qual se revolve nas suas duas caixas presas ao carro!  

É muito singular que a locomoção mais moderna (o comboio por exemplo) também aplica o mesmo sistema nos seus carris de ferro.  Só que com rodas em cunha, caso contrário descarrilava nas curvas!  

Temos mais uma recordação fenícia entre nós, a qual, na realidade, é bem mais interessante que o nosso velho carro de bois, a quem o Chiado, em Lisboa, deve o seu apelido.  Essa recordação é o barco de pesca da Afurada, com os seus dois bem proporcionados bicos.  Um na prôa e o outro na ré.  

Provavelmente este barco deve ser a mãe da gondola de Veneza, a qual mantêm os dois bicos, e numa forma mais elegante, para a complacência das lindas venezianas dos tempos remotos e talvez (quem sabe) das de hoje.  

O que é certo é que o pescador no Douro trás debaixo dos pés uma barca clássica.  

É de notar como este pequeno barco serviu de molde para tantas derivações.  Assim, em tempos idos, achavamos uns barcos de pesca muito grandes na praia de Espinho, os quais venciam as ondas quebradas do Atlântico de uma maneira admirável e traziam para terra os cabos das redes cheias de milhões de sardinhas.  

Também serviu o clássico barco de molde para os barcos que povoam a ria de Aveiro, os quais teem debaixo do bico da prôa um dormitório muito confortável e espaçoso.  

Os fenícios, evidentemente, tinham a mente prática, artística, económica e expansiva!  


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A democracia acabou



Em 1999, com o fim do chamado “Bloco de Leste”, o mundo passou a ser unipolar, ou seja, passou a ser “ponto assente” que a única solução é a economia de mercado e o liberalismo (selvagem).  

Estava visto que a politica alternativa, o comunismo, era ineficaz e tinha falido.  Até mesmo a China, o grande gigante que continua oficialmente a ser comunista, na realidade passou a admitir ser “um regime, dois sistemas”, pois teve de se render à economia de mercado para não entrar em colapso financeiro como aconteceu à ex-URSS.  Então a China passou a ser uma espécie de fascismo ao modo asiático.  

Com o fim do bloco comunista (URSS, China e restantes países satélites), as democracias ocidentais deixaram de ter uma verdadeira dialética sobre o sistema, e as esquerdas-marxistas passaram a depender exclusivamente dos banqueiros e magnatas ocidentais para se financiarem.  

Na realidade, em termos económicos, já não existe diferenças significativas entre os partidos tradicionais (entenda-se os PUARes dos países ocidentais).  Basta ver que, quer estejam os partidos de esquerda, ou quer estejam os partidos de direita, nos governos, as políticas económicas são sempre de economia de mercado, liberais e de grandes negócios com grandes empresas de capitais privados.  

Aparentemente, os partidos tradicionais estão corrompidos nas suas ideologias e deixaram de ser democráticos, pois já não são uma alternativa real entre si, apenas têm pequenas diferenças de intensidade nisto ou naquilo.  Digamos que: Mesquinhices!...  

O mais grave é que com níveis de abstenção na ordem de 65% nas eleições legislativas, atinge-se os 43% de votos expressos com apenas 15% do eleitorado, ou seja, uma pequena percentagem de eleitores fica a mandar no país com maioria absoluta, como se fosse mais de metade do eleitorado que os escolhesse.  

Isto é o fim da democraticidade do sistema, pois só existe uma visão.  Quem pensa diferente é considerado um marginal e não tem meios de divulgar à sua mensagem.  Por causa disto a população desinteressou-se, deixou de considerar-se representada por estes partidos, criando-se assim uma ditadura de uma pequena minoria legitimada como se democrática fosse.  

Os partidos tradicionais vêm para os meios de comunicação social apelar o voto, dizer que se tem de combater à abstenção, mas na verdade isso é puro teatro.  Para eles, o sistema está muito bem assim, estão no poder alternadamente e cada vez necessitam de menos votos para ganhar as eleições e terem a maioria dos deputados na Assembleia da República.  

Quantos menos votos necessitarem, mais fácil será controlá-los.  Aos votos e ao povo.  

Para eles está óptimo!...


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Volfrâmio (ouro negro)

Volfrâmio

Houve um tempo, em Portugal, em que homens que toda a vida tinham passado fome poderiam se dar ao luxo de acender cigarros com "notas de banco".  Não por desprezo pelo dinheiro, mas por excesso dele, e pela incredulidade de quem nunca tivera nada e de repente tinha demasiado.  

Foi nos anos em que decorria a 2ª Guerra Mundial, nas aldeias da Beira, de Trás-os-Montes, das serras de Arouca, onde a terra escondia um metal cinzento e pesado que o resto do mundo, em chamas, comprava a peso de ouro.  

Chamavam-lhe o ouro negro.  O nome verdadeiro era volfrâmio.  

Enquanto na costa Oeste passavam, ao largo, as rotas de abastecimento aliadas e os submarinos alemães, era no interior do país, longe do mar, que Portugal vivia a sua participação mais lucrativa e mais silenciosa na guerra.  Não com soldados.  Mas com pedras!...  

O volfrâmio, a que os químicos chamam tungsténio e atribuem a letra W, é um dos metais mais extraordinários da natureza.  Tem o ponto de fusão mais alto de todos os metais, perto de 3500 ºC, e uma dureza que poucos materiais igualam.  

Antes da guerra já tinha usos industriais importantes, em filamentos de lâmpadas, ferramentas de corte e aços especiais.  A guerra transformou-o numa matéria-prima estratégica.  

Em ligas de aço e carbonetos, o volfrâmio aumentava a resistência ao calor e ao desgaste.  Servia para fabricar ferramentas de corte, máquinas de guerra e, sobretudo, para núcleos de projécteis perfurantes, aquelas munições capazes de trespassar a couraça de um tanque de guerra.  

Sem o volfrâmio, a artilharia anti-tanque alemã perdia o dente.  E a Alemanha, com o acesso às fontes asiáticas de tungsténio severamente limitado pela guerra, ficou dependente de uma única região do mundo para o obter: a Península Ibérica.  

Portugal e a vizinha Espanha tornaram-se, da noite para o dia, fornecedores de uma das chaves da guerra industrial.  

O preço seguiu a procura, e a procura era desesperada.  Em 1942, o volfrâmio português era exportado a um preço médio cerca de trinta vezes superior ao de 1938.  Em termos relativos, tratou-se de uma valorização excepcional, mais próxima de uma bolha de guerra do que de um simples ciclo mineiro, e como todas as bolhas, atraiu a si quanta gente havia.  

Foi então que rebentou aquilo a que ficou a chamar-se a febre do volfrâmio.  De todo o país acorreram milhares de pessoas às zonas mineiras, gente que largou a enxada e a jorna para ir cavar a montanha.  Onde havia minério organizado, abriram-se minas e contrataram-se homens.  

Onde havia apenas filões à superfície, instalou-se uma economia paralela, a dos chamados pilhas, os apanhadores clandestinos que andavam pelos montes a catar pedras de volfrâmio para vender a intermediários.  

O minério, uma vez apanhado, ou seguia legalmente para o litoral e era carregado em navios, ou tomava os velhos trilhos do contrabando rumo a Espanha, pelas serras da raia, às costas das mulas conduzidas pelos almocreves.  

As fronteiras entre o legal e o ilegal, sempre ténues naquelas terras, tornaram-se quase invisíveis.  E com o dinheiro veio o desvario.  Numa região habituada à miséria, a riqueza súbita não trouxe prudência, trouxe espanto.  

Conta-se, e os relatos repetem-se de aldeia em aldeia com uma persistência que lhes dá crédito, que houve quem fizesse cigarros com notas, quem acendesse charutos com notas de contos de réis, quem comprasse o que nunca vira e não sabia usar.  Era a ilusão de uma fortuna que muitos julgavam eterna e que duraria, afinal, o tempo exacto de uma guerra.  

As marcas ficaram na memória das gentes e na própria paisagem, retalhada de poços, escombreiras e galerias que ainda hoje se vêem.  

A televisão portuguesa chegou a fazer, em 2001, uma série inteira sobre este mundo, passada em Arouca, com o título justo de "A Febre do Ouro Negro".  E é em Arouca, precisamente, que mora o mais insólito de toda esta história.  

No concelho de Arouca, em Regoufe e Rio de Frades, a poucos quilómetros uma da outra, ingleses e alemães exploravam minas vizinhas, em simultâneo, sem nunca terem chegado a um confronto directo.  

Enquanto no resto da Europa as duas nações se matavam na mais mortífera das guerras, ali, numa montanha portuguesa, coexistiam sob vigilância mútua, cruzando-se nas estradas sem se tocarem.  Por baixo dessa coabitação improvável, os espiões de cada lado e a polícia política portuguesa recolhiam, claro está, toda a informação que pudessem.  

Mas a imagem fica: a guerra mundial suspensa, por conveniência mineira, à porta de uma aldeia da Beira.  Havia, aliás, mais teias do que as que se viam.  

Os serviços secretos americanos identificaram redes empresariais associadas a interesses alemães no Porto, fachadas comerciais que escondiam capital e interesses do III Reich, entre as quais a Companhia Mineira do Norte de Portugal, conhecida nas terras simplesmente como a Companhia Alemã.  

Num dos detalhes mais amargos de toda a história, essa empresa pertencera, segundo várias investigações, a um judeu, Paul Gruenfeld, a quem o regime nazi a tirara, arianizada, como então se dizia ao roubo legalizado dos bens dos judeus, em 1938.  

O metal que dela saía iria endurecer os canhões do regime que perseguia o homem a quem fora roubada.
No meio de tudo isto estava Salazar, e foi ali que ele jogou a mais hábil das suas cartas.  Porque o volfrâmio o pôs, a ele e ao país, no centro de um braço de ferro entre as grandes potências.  

A Inglaterra, que possuía em Portugal a maior empresa de extracção do minério, a Beralt Tin da Panasqueira, exigia paradoxalmente o embargo total das exportações, e quando o não conseguia, comprava volfrâmio de que não precisava só para o tirar do mercado e encarecer a compra alemã.  Eram as chamadas compras preventivas.  

A Alemanha, do lado oposto, lutava com todas as forças pela liberdade de comprar, porque dela dependia.  

A explicação da assimetria é simples: a Inglaterra tinha alternativas, importava da Birmânia até esta cair, da Cornualha e da América Latina, mas a Alemanha não tinha nenhuma.  

E Salazar, sentado sobre as montanhas que ambos cobiçavam, percebeu que aquele metal cinzento lhe dava um poder negocial muito superior à dimensão militar do nosso país.  

Vendia ao Churchill e vendia ao Hitler!...  

Criou uma Comissão Reguladora do Comércio de Metais, a fim de que tudo passasse pela mão do Estado.  E exigiu, aos alemães, que pagassem em ouro.  Foi por essa porta que entrou em Portugal a sombra que, décadas mais tarde, haveria de escurecer todo o balanço.  

O ouro alemão fluiu para Lisboa em quantidades enormes.  As reservas de ouro portuguesas cresceram fortemente durante a guerra, alimentadas em parte pelos pagamentos alemães, muitos deles feitos através da Suíça.  

Parte desse ouro circulou através de rotas ferroviárias ibéricas, incluindo a ligação de Canfranc, que se tornou símbolo desse trânsito opaco entre a Europa ocupada, Espanha e Portugal.  

O problema é que parte desse ouro não vinha das minas da Alemanha.  Vinha dos cofres saqueados da Europa ocupada, e em alguns casos, da pior origem imaginável.  

Está documentado que cerca de vinte toneladas de ouro ligado às reservas belgas saqueadas acabaram por passar para a órbita portuguesa através de operações financeiras e transportes organizados durante a guerra.  E há a suspeita, nunca inteiramente afastada, de que entre esse ouro fundido e misturado nas reservas nacionais houvesse ouro arrancado às vítimas dos campos de extermínio.  

Os Aliados avisaram formalmente, em Fevereiro de 1944, sobre o tráfico do ouro pilhado.  Salazar alegaria sempre que, até essa data, agira de boa fé.  

A guerra virou, e com ela virou o jogo.  

Depois da derrota alemã em Estalinegrado, depois de Portugal ceder aos Aliados as bases dos Açores em 1943, a pressão sobre Lisboa tornou-se irresistível.  

A 5 de Junho de 1944, na véspera do desembarque da Normandia, Salazar cedeu e decretou o embargo total das exportações de volfrâmio, tanto para o Eixo como para os Aliados.  Foi uma das maiores cedências do regime em toda a guerra, e marcou o fim abrupto da grande corrida ao volfrâmio.  

O contrabando ainda continuou uns meses pelos trilhos da raia, até que a libertação do sul de França fechou a fronteira dos Pirenéus e cortou o último caminho.  

Nas aldeias, a febre passou tão depressa como viera.  As minas foram fechando, os homens voltaram à enxada, e o ouro negro tornou-se outra vez apenas pedra cinzenta na montanha.  Restou a memória, e restaram as fortunas de alguns, gastas quase sempre tão depressa como tinham sido feitas.  

Quanto ao ouro que ficara nos cofres do Estado, esse lá permaneceu.  

No longo acerto de contas do pós-guerra, depois de anos de negociação, Portugal entregou uma pequena fracção, cerca de quatro toneladas, das mais de duzentas que recebera, no âmbito de um acordo internacional, mas ainda consegui, no mesmo acerto, que a Alemanha do pós-guerra lhe pagasse dívidas pendentes.  

Na sequência de um pedido judaico de compensações, meio século depois, já em democracia, uma comissão oficial criada no final dos anos 90 e presidida por Mário Soares, voltaria a debruçar-se sobre o assunto e concluiria que o Estado Novo não sabia, na altura, da origem do ouro, e que nada mais havia a compensar.  As conclusões foram contestadas por vários historiadores, e o capítulo, em rigor, nunca ficou inteiramente fechado.  

Cavaco Silva, que era na altura o primeiro-ministro de Portugal, por "coincidência" decidiu discretamente enviar como investimento português, 12 toneladas de ouro, para uma empresa americana chamada Drexel, que "coincidentemente" passados 30 dias declarou falência.  Até hoje não sei como Portugal foi ressarcido desse investimento, isto é, se reaveu as 12 toneladas de ouro!...  

Este é, talvez, um dos retratos mais incómodos da neutralidade portuguesa: um país pobre, cercado por pressões contraditórias, que soube lucrar com a guerra vendendo aos dois lados o metal que ambos disputavam.  

Enquanto isso, o povo, na sua maioria, vivia das senhas de racionamento.  Os cofres encheram-se.  As mesas, não.  E há, no fim, um eco que arrepia.  

Oitenta anos depois, o volfrâmio voltou a ser estratégico, e outra vez por causa de guerras e do medo delas.  A China, que domina hoje o mercado mundial, reforçou o controlo sobre a oferta, os preços dispararam, a União Europeia voltou a classificar o metal como matéria-prima crítica para a defesa, e Bruxelas olha de novo para Portugal como referência.  

A mina da Panasqueira, a mesma que armou os dois lados em 1942, continua aberta, e tem, segundo quem a explora, toda a produção vendida antes mesmo de sair da terra.  

O ouro negro voltou a valer ouro.  As montanhas são as mesmas.  

E a guerra, essa, continua lá ao longe… 


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Os livros proibidos que estão em todo o lado



Leio que uma dessas celebridades de meia-caca, muito representativa dos tempos que correm, a cantora Dua Lipa, abriu uma secção de livros “proibidos e censurados”, que “desafiam o poder e a narrativa dominante” num projeto colaborativo com a Livraria Lello.  

Com curiosidade, fui ver que “livros proibidos que desafiam a narrativa dominante” seriam esses...  

E, conforme esperado, é toda uma parafernália de obras promovidas e disponíveis em qualquer livraria do Ocidente e que abordam um conjunto de narrativas politicamente predominantes: desde as ficções feministas de Margaret Atwood (tão “desafiadora do poder” que até tem séries de televisão baseadas nas suas fantasias), passando pelos títulos de Alice Walker (com os seus feminismos racializados), de Ocean Vuong (com as suas narrativas LGBT), de Trevor Noah (com a sua crítica ao apartheid) e todo um restante acervo dedicado primordialmente a temas de ideologia de género, sexualidades alternativas, racismos sistémicos e novas vagas feministas.  

O libelo de “livros censurados” que “desafiam o poder” é risível e constitui obviamente uma operação de marketing comercial dirigida aos imbecis.  

Por “censurados”, entendem-se ali livros que foram removidos de alguns currículos ou bibliotecas escolares dos EUA, por serem considerados inapropriados para a idade a que se destinavam ou excessivamente politizados para ambientes escolares, bem como obras banidas em regimes iliberais não-ocidentais que não toleram a propagação das taras sociais e sexuais que são o âmago da maior parte daquelas produções.  

O facto é que aquele género de livros está disponível aos magotes nos escaparates de qualquer livraria ocidental, e geralmente em lugar de destaque.  São precisamente as obras que certos meios culturais dominantes mais difundem.  

Aliás, no Ocidente, falar de “livros censurados” exige uma contextualização prévia, pois são raras as proibições jurídicas de venda ao público e, na era digital, mesmo os títulos desaparecidos dos escaparates de livrarias físicas podem, regra geral, ser encontrados online com maior ou menos esforço.  Um livro proibido que desafia a narrativa dominante não é aquele que é retirado de um currículo escolar dirigido a alunos de 13 anos e que pode depois ser comprado na livraria que fica ao lado da escola…  

São obras que não são reeditadas, não são traduzidas, não são publicáveis, não se encontram expostas nas prateleiras das livrarias convencionais ou cuja narrativa é proibida (nalguns casos até criminalizada) pelo regime.  

A lista desses títulos daria em si mesmo um livro, mas quase todos se situam nos antípodas ideológicos daquilo que a Dua Lipa e a Lello, com o favor da casta mediática, promovem e cujas adaptações e variações até se multiplicam em séries e filmes nas plataformas de streaming.  

Livros banidos seriam, para dar apenas meia-dúzia de exemplos de centenas de outros possíveis: Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts (O Mito do Século XX, Alfred Rosenberg) ou o Gott und Volk (Deus e Povo, Hans Blöthner), ambos de cariz ideológico; de revisionismo histórico teríamos casos como The Hoax of the Twentieth Century (Arthur Butz) ou Nuremberg ou la Terre Promise (Maurice Bardèche); e nos romances teríamos épicos como Die Geächteten (Os Proscritos, Ernst von Salomon) ou Mourir à Berlin (Morrer em Berlim, Jean Mabire).  

Vivemos num circo global repleto de palhaços convencidos da sua própria seriedade, onde os conceitos são subvertidos e a linguagem é manipulada para criar realidades alternativas que contrariam a verdade objetiva.  Este é só mais um caso.


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