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| Alexis Carrel |
Desde os tempos mais remotos, o ser humano observa o fascinante espelho da semelhança — o traço do pai refletido no filho, o olhar da avó repetido na neta, o talento ou a doença que atravessam gerações como se obedecessem a uma ordem invisível. Essa curiosidade ancestral deu origem a uma das mais belas e complexas áreas da ciência: o estudo da hereditariedade.
Nas linhas que se
seguem, o leitor encontrará uma breve história da ciência e de um
homem que quis aprimorar as características físicas da humanidade. Capítulos foram concebidos para mostrar como as leis da
hereditariedade moldam não apenas os nossos corpos, mas também as
possibilidades futuras da medicina, da agricultura e do próprio
entendimento da vida.
Este não é um ensaio
frio ou meramente técnico, é uma humilde homenagem a Alexis Carrel e uma breve visão da história primordial sobre o estudo da
hereditariedade, da eugenia e da genética.
Corria o ano de 1996, passado mais de meio século após a morte de Alexis Carrel (1873‑1944), o seu nome foi retirado do quadro de honra da Faculdade de Medicina da Universidade Claude Bernard, em Lyon, França. Carrel, um ex‑aluno da universidade, foi um cirurgião mundialmente famoso nos primeiros anos do século XX e ganhou o Prémio Nobel de Medicina em 1912, por descobertas de técnicas cirúrgicas. O seu trabalho nas décadas de 1920 e 1930 — muito auxiliado por uma bomba de perfusão projectada pelo seu ajudante mais famoso, Charles Lindbergh — a bomba de perfusão, permitiu manter os órgãos vivos fora do corpo, abrindo caminho para transplantes e cirurgias de coração aberto.
Mas porquê a universidade fez essa repreensão póstuma a um dos seus mais brilhantes alunos?... Porque, tal como o seu assistente Lindbergh e muitos dos seus contemporâneos mais proeminentes, Alexis Carrel foi um defensor da eugenia.
Nos últimos cinquenta anos, opositores cheios de ódio ao Ocidente e aos seus povos nativos, conseguiram desacreditar a eugenia ao insultar os seus apoiantes com rótulos de “racistas”, “antissemitas”, “sexistas”, “classistas” e “nazis”. Até mesmo os inimigos cristãos da eugenia recentemente apropriaram‑se de alguns desses rótulos para fazer a sua objecção tradicional — de que a eugenia é uma manipulação blasfema da obra do Criador — soar mais “relevante”. A campanha anti‑eugenia teve tanto sucesso que, tal como aconteceu com Alexis Carrel, qualquer associação com a eugenia pode manchar até a reputação mais brilhante.
Na verdade, a visão actual promove a eugenia como uma ideologia malévola ou uma “pseudociência” de loucos. No seu auge, a eugenia foi pioneira e promovida por biólogos de renome, incluindo os fundadores da genética moderna. A sua autoridade científica foi frequentemente transformada em política pública por alguns dos mais proeminentes estadistas e intelectuais da época.
Política e socialmente, o apoio à eugenia abrangeu um espectro tão amplo que atribuir isso a qualquer regime1 ou filosofia, é pura propaganda. Da mesma forma, a diversidade de apoio que a eugenia teve no seu início de propagação, a evidência de que o movimento não era uma justificativa disfarçada para colocar a classe dominante mais firme, ou para fortalecer o domínio do patriarcado sobre as mulheres, ou para perseguir judeus. Vale lembrar, não apenas da autoridade e eminência de tantos eugenistas iniciais, mas também da sua diversidade e idealismo.
O Homem é instintivamente eugénico: os Homens mais capazes buscaram e foram incentivados a acasalar com as mulheres mais saudáveis. Proibições legais contra a endogamia, evidentemente devido à compreensão do aumento da chance de descendentes doentes, existem desde o Código de Hamurabi (1750 a.C.) e também no Antigo Testamento. Os filósofos Platão e Aristóteles defendiam medidas eugénicas no interesse da sociedade.
O berço da eugenia, bem compreendido, foi a Inglaterra do século XIX, onde Charles Darwin (1809‑1882) forneceu fortes evidências da descendência do Homem de outras formas de vida. Uma consequência disso foi rapidamente compreendida por outro inglês da época vitoriana, o primo de Darwin, Sir Francis Galton (1822‑1911).
Ao nível de Darwin e Galton, esteve um monge austríaco chamado Gregor Johann Mendel1 (1822‑1884), que fez um excelente trabalho científico com ervilhas e flores e postulou as Leis da Hereditariedade, que são válidas até aos dias de hoje.
No seu livro Hereditary Genius (1869), Galton argumentou que as habilidades intelectuais, tal como as características físicas, são hereditárias. A partir dessa percepção, foi um passo curto até à percepção de que medidas para fomentar a transmissão de características desejáveis poderiam levar a uma melhoria duradoura da raça.
As quatro décadas de trabalho laboratorial e organizacional que Galton investiu em eugenia o estabelecem como o fundador da disciplina e do movimento. Ele cunhou o nome “eugenia”, que deriva do grego para “bem nascido”, e definiu‑o da seguinte forma:
Eugenia é o estudo de agências sob controle social que podem melhorar
ou prejudicar as qualidades raciais das futuras gerações, quer seja física
ou mentalmente.
Galton também estabeleceu a eugenia como uma presença institucional na Inglaterra eduardina, e deu um impulso poderoso ao movimento no exterior. Sem filhos, Galton dedicou grande parte de sua fortuna pessoal à criação de um laboratório para a eugenia nacional e à criação da primeira cátedra de eugenia, no University College, em Londres.
Embora o próprio Francis Galton fosse da classe média alta proprietária, o escolhido para seu sucessor, Karl Pearson, era um radical económico e político, na verdade um socialista. A impressão cuidadosamente cultivada hoje é que a eugenia foi liderada por direitistas da classe dominante. Alguns de seus apoiantes, como Herbert Spencer, viam isso como um corolário natural da sociedade de classes, mas os defensores mais vocais da eugenia vinham da esquerda. Os seus nomes soam como uma lista de radicalismo da época eduardina.
George Bernard Shaw, o dramaturgo pacifista, socialista e vegetariano, escrevia abundantemente e de forma excêntrica a favor da eugenia, e era assinante da revista de eugenia de Pearson, intitulada Biometrika. O também socialista H. G. Wells, era um forte defensor da esterilização das pessoas com deficiência mental. Havelock Ellis, um estudante pioneiro da sexualidade humana e ensaísta, foi autor do The Problem of Race Regeneration (1911). Outros apoiantes proeminentes incluíam Beatrice e Sidney Webb, fundadores do socialismo fabiano e posteriormente entusiastas da Rússia Soviética, assim como o radical anglo‑judeu Harold Laski, que mais tarde lideraria o Partido Trabalhista Britânico (Labour Party), que trabalhou por seis meses no laboratório de Pearson e chegou a tomar chá com o próprio Francis Galton.
No julgamento de Michael Freeden, um dos principais historiadores da esquerda do liberalismo britânico, “... No primeiro grande entusiasmo pela eugenia, os liberais estavam em destaque ...”. A eugenia, com a sua promessa de melhoria humana inata e a longo prazo, tinha grande apelo para os reformistas.
Os principais nomes da nova ciência da genética forneceram entusiasticamente as bases intelectuais para o novo movimento. Entre os mais proeminentes apoiantes da eugenia estavam William Bateson, o primeiro professor inglês de genética (em Oxford); Ronald A. Fisher, criador da síntese evolutiva moderna e sucessor de Pearson na Cátedra de Eugenia Galton; J. B. S. Haldane, inovador em genética populacional e uma voz radical; e o grande biólogo Julian Huxley. A hereditariedade era um facto que podia ser colocado a serviço da humanidade.
Nos primeiros anos da eugenia britânica, surgiu rapidamente um consenso entre cientistas e intelectuais que abrangeu todo o espectro político em apoio a medidas eugénicas positivas. Essas incluíam reembolsos fiscais para cobrir os custos de maternidade e criação dos filhos, especialmente para famílias meritórias; auxílios educativos para meninos e meninas promissores da classe trabalhadora; subsídios para licença de maternidade para os merecedores, etc, etc.
O movimento eugenista incluiu um número desproporcional de mulheres. Embora a sua discussão franca sobre questões sexuais e contracepção tenha conquistado o apoio de feministas radicais como Margaret Sanger, Victoria Woodhull e Emma Goldman, o seu foco na família e no novo valor que atribuía à capacidade intelectual das mulheres — como mais um pretendente poderia medir as capacidades mentais hereditárias da sua companheira? — recomendou a eugenia para mulheres mais tradicionais. Na avaliação do historiador da ciência Mark Adams, “parece que, pelos padrões contemporâneos, a eugenia era um dos campos menos sexistas da época em vários países”.
Alguns dos principais clérigos da Inglaterra apoiavam a eugenia em linguagem intransigente. W. R. Inge, o famoso “decano sombrio” de St. Paul's, escreveu na primeira edição da Eugenics Review:
A legislação humanitária, ou prática, precisa ser complementada,
e os seus efeitos inevitáveis e malignos [ênfase adicionada]
contrabalançados, pela prática eugénica e, em última instância,
pela legislação eugénica.
Quando, em 1912, a Câmara dos Comuns hesitou na aprovação da Mental Deficiency Bill (lei que previa a segregação obrigatória dos deficientes mentais nas instituições, mas não a esterilização), o Arcebispo de York, o segundo prelado de maior patente na Igreja da Inglaterra, instou a que eles “se apressassem” e aprovassem o projecto.
Embora uma versão diluída do Projeto de Lei de Deficiência Mental, tenha se tornado lei no ano seguinte, os britânicos mostraram‑se (tanto conservadores quanto liberais) demasiado reticentes para adoptar medidas eugénicas fortes, mesmo no auge da eugenia: demasiado conservadores para aceitar o que parecia interferir em questões de escolha familiar que tradicionalmente eram privadas; e demasiado liberais (no sentido de laissez‑faire) para aceitar restringir a liberdade individual ou subsidiar a procriação, mesmo para os melhores cidadãos. De qualquer forma, muitos dos principais eugenistas ingleses aprovariam apenas a esterilização voluntária.
UM MOVIMENTO EM CRESCIMENTO
A primeira Conferência Internacional de Eugenia, ocorreu em Londres, em 1912, apenas alguns anos após o estabelecimento da eugenia como ciência. Os cerca de 750 participantes representaram uma galáxia de conquistas internacionais. Sir Arthur Balfour, ex‑Primeiro‑Ministro e futuro Ministro das Relações Exteriores, fez o discurso de abertura, enquanto que Leonard Darwin, filho de Charles Darwin, que foi presidente da Eugenics Society, de 1911 a 1928, presidiu à conferência. Winston Churchill, foi vice‑presidente patrocinador, assim como o Lord Chief Justice e o Lord Bishop of Ripon.
Um grande contingente dos Estados Unidos fez a travessia do oceano, incluindo Charles W. Eliot, famoso presidente emérito de Harvard, Alexander Graham Bell, e Gifford Pinchot, o famoso conservacionista, cada um dos quais actuou como vice‑Presidente patrocinador do lado americano.
De certa forma, essa conferência marcou a passagem de testemunho da Inglaterra para os Estados Unidos da América. Embora a eugenia americana não tivesse a defesa de um brilhante conjunto de escritores e radicais, o apoio de políticos, cientistas e do público em geral fez dos Estados Unidos, possivelmente, a principal potência eugénica mundial nas três primeiras décadas do século XX.
O movimento nos Estados Unidos deve a sua ascensão a Charles Davenport, biólogo e antropólogo que foi um dos primeiros americanos a compreender e escrever sobre as descobertas de Gregor Mendel. Davenport, que obteve o seu doutoramento em Harvard e havia sido professor assistente na Universidade de Chicago, era, assim como Francis Galton, um organizador talentoso e um captador de fundos competente.
Em 1910, ele fundou o primeiro centro dos Estados Unidos para o estudo da eugenia, o Eugenics Record Office, em Cold Spring Harbor, em Long Island. Para este e outros projectos de eugenia, conseguiu um financiamento significativo das fortunas das famílias Rockefeller e Harriman, e acima de tudo o apoio da Carnegie Institution (os três há muito tempo que se tornaram motores de um ambientalismo anti‑eugénico). Em Cold Spring Harbor, Davenport, dirigiu estudos ambiciosos de eugenia e supervisionou a colecta de dados antropométricos e genealógicos de toda a América.
Davenport e o seu segundo em comando, Harry Laughlin, receberam críticas, principalmente de outros geneticistas, pela sua tendência a exagerar e simplificar demais a hereditariedade de características que desde então foram demonstradas depender de mais de um gene, ou envolver factores ambientais significativos. Os seus erros — compreensíveis dado o início do campo de estudo — e os alertas dos geneticistas foram explorados por anti‑eugenicistas para obscurecer a realidade de que, como relata o historiador Kenneth Ludmerer, durante os anos em que o movimento eugenista floresceu nos EUA, aproximadamente metade de todos os geneticistas americanos estiveram envolvidos nele.
Como mostra a liderança de Eliot, Pinchot e Bell, na conferência de Londres, o entusiasmo pela eugenia na América do início do século XX, não se limitava aos geneticistas. Os dois principais antropólogos físicos americanos da época, Aleš Hrdlička, curador do Museu Nacional em Washington, e Earnest Hooton, de Harvard, foram ambos entusiastas defensores. Havia um amplo apoio entre psicólogos, sobretudo os pioneiros americanos em testes de inteligência: G. Stanley Hall, Henry Goddard, Robert Yerkes, Lewis Terman e William McDougall (que dedicou as Palestras Lowell, de 1921, em Harvard à tese “de que a grande condição do declínio de qualquer civilização é a inadequação das qualidades das pessoas que a possuem”).
Luther Burbank, o famoso melhorador de plantas, foi activo na formação da American Eugenics Society, assim como David Starr Jordan, presidente da Universidade de Stanford e biólogo de formação, que invocou princípios eugénicos para sublinhar a sua oposição à guerra.1 Ao todo, cinco presidentes da Academia Americana para o Avanço da Ciência, serviram no conselho consultivo da American Eugenics Society.
AMERICANOS COMUNS
Desde o inicio, a eugenia prendeu a imaginação dos americanos comuns. A sua relação com a genealogia familiar e sua conexão com os princípios do melhoramento de plantas e animais despertou entusiasmo, especialmente nas comunidades agrícolas, e exposições e concursos de eugenia tornaram‑se comuns nas feiras do condado.
Como na Inglaterra, os principais clérigos apoiavam a eugenia — assim como muitos judeus, que, provavelmente, deviam as suas capacidades hereditárias a um sistema de acasalamento eugénico adoptado durante osseus séculos de segregação no exílio. Num sermão do Dia das Mães num templo em Kansas City, em 1926, o rabino Harry Mayer declarou: “Que não possamos fazer nada para permitir que nosso sangue seja adulterado pela infusão de sangue de grau inferior”. Os judeus estavam bem representados em sociedades de eugenia, e também em pesquisas em eugenia.
Foram os progressistas reformistas americanos — não conservadores de direita ou segregacionistas do Sul — que lideraram a defesa e aprovação de legislações sobre eugenia na época eugénica americana. Como escreve o historiador Mark Haller, “A eugenia, nos seus primeiros anos, exerceu ampla influência sobre o pensamento americano como uma espécie de reforma científica entre as muitas outras reformas da Era Progressista”.
Em sua vida posterior, talvez o mais eminente progressista, Theodore Roosevelt, promoveu a causa de melhorar a raça por meio de uma melhor criação com o seu vigor habitual. Ecoando o Professor McDougall, o Rough Rider escreveu:
O grande problema da civilização é garantir um aumento relativo
dos valiosos em comparação com os elementos menos valiosos
ou nocivos na população. Esse problema não pode ser resolvido
a menos que consideremos plenamente a imensa influência da
hereditariedade.
Os progressistas foram fundamentais na aprovação de leis que preveiam a esterilização (muitas vezes involuntária) de doentes mentais ou com deficiência mental. A de Indiana (1907) foi a primeira; O governador Woodrow Wilson, assinou a lei de esterilização de Nova Jersey, em 1911; Hiram Johnson, assinou a da California dois anos depois. Significativamente, dezesseis estados americanos aprovaram legislações para esterilização antes que uma única lei desse tipo fosse aprovada no Sul. Na década de 1930, cerca de trinta estados haviam aprovado leis de eugenia, principalmente em legislaturas reformistas. Foi nos estados mais “conservadores”, onde religião e tradição eram mais fortemente contra a reforma, que a eugenia avançou menos. De 1907 até a década de 1960, cerca de 60.000 esterilizações foram realizadas nos Estados Unidos, com a Califórnia bem na liderança com 20.000; abaixo da linha Mason‑Dixon, a Carolina do Norte acabou realizando a maior parte das esterilizações.
A esterilização involuntária foi alvo de críticas legais por violar um direito básico. De forma apropriada, foi um grande jurista progressista quem escreveu a decisão mais autoritária sobre o assunto, concluindo que a esterilização involuntária, em certas circunstâncias imperiosas, não era incompatível com a Constituição dos Estados Unidos.
A decisão, Buck V. Bell, foi escrita pelo juiz Oliver Wendell Holmes, que dominou a jurisprudência americana por meio século. Sobre o direito do Estado da Virgínia de esterilizar uma criança com debilidade mental, Holmes, que havia sido gravemente ferido em Antietam 54 anos antes, escreveu:
Já vimos mais de uma vez que o bem‑estar público pode exigir os
melhores cidadãos para salvar as suas vidas. Seria estranho se
não pudesse convocar aqueles que já drenam a força do Estado
para aqueles sacrifícios menores, muitas vezes não considerados
tais para os envolvidos, para evitar que sejamos inundados por
sua incompetência... Três gerações de imbecis já são suficientes."
[Os Bucks, um dos familiares de quem era autor do caso, eram
brancos pobres.]
Seguindo o exemplo americano, outros governos adoptaram medidas eugénicas. Na Suíça, o cantão de Vaud, aprovou uma lei de esterilização em 1928; no ano seguinte, a Dinamarca foi a primeira nação europeia a promulgar tal lei, seguida logo depois pelo restante da Escandinávia.
O Canadá também teve o seu movimento eugénico, no qual as mulheres desempenhavam um papel de liderança. Embora a influência da Igreja Católica tenha impedido a legislação de eugenia nas províncias mais populosas do Canadá, leis de esterilização foram promulgadas em Alberta e na Colúmbia Britânica, em 1933. Fatalmente para o movimento eugénico, naquele mesmo ano a Alemanha adoptou uma lei para a esterilização eugénica.
EUGENIA E NAZISMO
Nada manchou tanto a reputação da eugenia quanto a sua ligação com o regime de Adolf Hitler. Na avaliação de Paul Popenoe, uma das principais figuras do movimento eugenético americano, “O principal factor no declínio da eugenia foi, sem dúvida, o hitlerismo”. Mas, na verdade, como o geneticista e antropólogo americano Stephen Saetz demonstrou num estudo bem pesquisado sobre a eugenia no Terceiro Reich, a prática eugénica alemã não era radicalmente diferente de sua contraparte americana, e muitas políticas posteriores atribuídas à eugenia, sobretudo as medidas contra os judeus, nada tinham a ver com eugenia. O programa de “eutanásia”, no qual até 80.000 pessoas com deficiência grave e incurabilidade foram mortas, foi motivado pelo desejo de libertar instalações médicas e pessoal no início da guerra, e não era um programa de eugenia. Na visão da historiadora Sheila Faith Weiss: “Eugenistas alemães...”, no máximo só à responsabilidade indirecta pelo programa de “eutanásia”.
Ainda assim, a associação da eugenia com Adolf Hitler e com o nazismo ajudou a transformar o que já era uma forte oposição à eugenia — que ia da Igreja Católica de um lado, à esquerda anti‑hereditária (da academia americana ao Kremlin) do outro — numa ortodoxia inquebravel. A maioria dos judeus, inicialmente ofendida pelas conexões tangenciais entre o movimento eugenista e as reformas migratórias dos EUA nos anos 1920, e depois repelida pelo hitlerismo, passou firmemente para o campo anti‑eugenia.
Após a guerra, a eugenia foi em grande parte levada para a clandestinidade, ou suavizada e reembalada como “aconselhamento genético” e outras aplicações limitadas. As leis de esterilização involuntária e outros programas considerados “eugenistas” foram abolidos ou deixados em desuso. Sociedades e periódicos de eugenia foram renomeados, redirecionados ou abolidos. Geneticistas em actividade, quaisquer que fossem as suas opiniões privadas, negavam a conexão original e de longa data entre a sua ciência e a eugenia.
No entanto, mesmo em seu eclipse, a eugenia continua sendo publicamente apoiada na América por uma minoria ousada, criativa e diversa. Na década de 1960, o geneticista de esquerda, judeu e antirracista, Hermann Muller (Prémio Nobel de Medicina, 1946), que três décadas antes havia elogiado o trabalho de Alexis Carrel e Charles Lindbergh, colaborou com o inventor e empreendedor Robert K. Graham para estabelecer um “banco de esperma genial”. Em 1980, William Shockley, defensor declarado do reconhecimento das diferenças raciais, foi o primeiro laureado com o Nobel a se tornar doador do Repositório de Escolha Germinal do Dr. Graham.
O progresso constante do nosso conhecimento sobre como a hereditariedade desempenha um papel em todos os aspectos da nossa natureza — incluindo o Projeto Genoma Humano, que mapeou e identificou todos os genes humanos até 2005 — e demonstrou que a visão ambientalista de melhorar o homem é uma ficção. O proeminente geneticista James D. Watson disse ao Congresso: “Costumávamos pensar que nosso destino estava nas estrelas. Agora sabemos que, em grande parte, o nosso destino está nos nossos genes”. Avanços impressionantes na engenharia genética trouxeram muitos dos sonhos dos eugenistas ao nosso alcance.
No entanto, apesar disso, e apesar dos óbvios fracassos do liberalismo ocidental e do colapso do comunismo. Apesar de todas as implicações promissoras para o renascimento da eugenia, o tabu permanece. Hoje, o maior obstáculo ao pensamento eugénico é o estúpido dogma da igualdade racial. Embora a desigualdade seja evidente em todos os lugares, e embora as leis genéticas se apliquem claramente a todos os órgãos de todas as espécies, o liberalismo moderno quase pode ser considerado baseado na noção de que o cérebro humano não é afectado por genes.
Numa sociedade multirracial, são as implicações raciais da hereditariedade dos traços mentais que forçaram verdades óbvias a ficarem ocultas. Todos os padrões de selecção eugénica caírão de forma diferente em diferentes grupos raciais, então, mesmo as medidas mais óbvias e benignas certamente provocarão estupidamente berros de “genocídio” e “nazismo”.
E assim desta forma continuaremos a pagar um preço fantástico por medo de não podermos abandonar a ilusão da igualdade racial. Da mesma forma que negamos a desigualdade racial, também mal podemos tolerar a desigualdade de indivíduos, mesmo entre membros da mesma raça ou espécie humana. As sociedades homogéneas são muito menos propensas a disparates igualitários porque não precisam fazer comparações raciais como nós no Ocidente. Na China e também em Singapura, já instituíram medidas eugénicas leves e as futuras gerações colherão grandes benefícios disso.
Os princípios da eugenia são, claro, racialmente neutros e todos os grupos podem beneficiar deles. Até que os americanos e europeus estejam preparados para aceitar a realidade das diferenças raciais, é improvável que aceitem mesmo as propostas eugénicas mais óbvias e benéficas — e todos os americanos e europeus de todas as raças continuarão sofrendo.
Seria uma grande tragédia se a humanidade, e em particular a espécie humana branca, que criou tanto a genética quanto a eugenia, fossem privadas desta grande oportunidade que temos diante de nós. Recuperar a verdade sobre os primeiros eugenistas pode ser um primeiro passo para conquistar o futuro.
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