Volfrâmio (ouro negro)

Volfrâmio

Houve um tempo, em Portugal, em que homens que toda a vida tinham passado fome poderiam se dar ao luxo de acender cigarros com "notas de banco".  Não por desprezo pelo dinheiro, mas por excesso dele, e pela incredulidade de quem nunca tivera nada e de repente tinha demasiado.  

Foi nos anos em que decorria a 2ª Guerra Mundial, nas aldeias da Beira, de Trás-os-Montes, das serras de Arouca, onde a terra escondia um metal cinzento e pesado que o resto do mundo, em chamas, comprava a peso de ouro.  

Chamavam-lhe o ouro negro.  O nome verdadeiro era volfrâmio.  

Enquanto na costa Oeste passavam, ao largo, as rotas de abastecimento aliadas e os submarinos alemães, era no interior do país, longe do mar, que Portugal vivia a sua participação mais lucrativa e mais silenciosa na guerra.  Não com soldados.  Mas com pedras!...  

O volfrâmio, a que os químicos chamam tungsténio e atribuem a letra W, é um dos metais mais extraordinários da natureza.  Tem o ponto de fusão mais alto de todos os metais, perto de 3500 ºC, e uma dureza que poucos materiais igualam.  

Antes da guerra já tinha usos industriais importantes, em filamentos de lâmpadas, ferramentas de corte e aços especiais.  A guerra transformou-o numa matéria-prima estratégica.  

Em ligas de aço e carbonetos, o volfrâmio aumentava a resistência ao calor e ao desgaste.  Servia para fabricar ferramentas de corte, máquinas de guerra e, sobretudo, para núcleos de projécteis perfurantes, aquelas munições capazes de trespassar a couraça de um tanque de guerra.  

Sem o volfrâmio, a artilharia anti-tanque alemã perdia o dente.  E a Alemanha, com o acesso às fontes asiáticas de tungsténio severamente limitado pela guerra, ficou dependente de uma única região do mundo para o obter: a Península Ibérica.  

Portugal e a vizinha Espanha tornaram-se, da noite para o dia, fornecedores de uma das chaves da guerra industrial.  

O preço seguiu a procura, e a procura era desesperada.  Em 1942, o volfrâmio português era exportado a um preço médio cerca de trinta vezes superior ao de 1938.  Em termos relativos, tratou-se de uma valorização excepcional, mais próxima de uma bolha de guerra do que de um simples ciclo mineiro, e como todas as bolhas, atraiu a si quanta gente havia.  

Foi então que rebentou aquilo a que ficou a chamar-se a febre do volfrâmio.  De todo o país acorreram milhares de pessoas às zonas mineiras, gente que largou a enxada e a jorna para ir cavar a montanha.  Onde havia minério organizado, abriram-se minas e contrataram-se homens.  

Onde havia apenas filões à superfície, instalou-se uma economia paralela, a dos chamados pilhas, os apanhadores clandestinos que andavam pelos montes a catar pedras de volfrâmio para vender a intermediários.  

O minério, uma vez apanhado, ou seguia legalmente para o litoral e era carregado em navios, ou tomava os velhos trilhos do contrabando rumo a Espanha, pelas serras da raia, às costas das mulas conduzidas pelos almocreves.  

As fronteiras entre o legal e o ilegal, sempre ténues naquelas terras, tornaram-se quase invisíveis.  E com o dinheiro veio o desvario.  Numa região habituada à miséria, a riqueza súbita não trouxe prudência, trouxe espanto.  

Conta-se, e os relatos repetem-se de aldeia em aldeia com uma persistência que lhes dá crédito, que houve quem fizesse cigarros com notas, quem acendesse charutos com notas de contos de réis, quem comprasse o que nunca vira e não sabia usar.  Era a ilusão de uma fortuna que muitos julgavam eterna e que duraria, afinal, o tempo exacto de uma guerra.  

As marcas ficaram na memória das gentes e na própria paisagem, retalhada de poços, escombreiras e galerias que ainda hoje se vêem.  

A televisão portuguesa chegou a fazer, em 2001, uma série inteira sobre este mundo, passada em Arouca, com o título justo de "A Febre do Ouro Negro".  E é em Arouca, precisamente, que mora o mais insólito de toda esta história.  

No concelho de Arouca, em Regoufe e Rio de Frades, a poucos quilómetros uma da outra, ingleses e alemães exploravam minas vizinhas, em simultâneo, sem nunca terem chegado a um confronto directo.  

Enquanto no resto da Europa as duas nações se matavam na mais mortífera das guerras, ali, numa montanha portuguesa, coexistiam sob vigilância mútua, cruzando-se nas estradas sem se tocarem.  Por baixo dessa coabitação improvável, os espiões de cada lado e a polícia política portuguesa recolhiam, claro está, toda a informação que pudessem.  

Mas a imagem fica: a guerra mundial suspensa, por conveniência mineira, à porta de uma aldeia da Beira.  Havia, aliás, mais teias do que as que se viam.  

Os serviços secretos americanos identificaram redes empresariais associadas a interesses alemães no Porto, fachadas comerciais que escondiam capital e interesses do III Reich, entre as quais a Companhia Mineira do Norte de Portugal, conhecida nas terras simplesmente como a Companhia Alemã.  

Num dos detalhes mais amargos de toda a história, essa empresa pertencera, segundo várias investigações, a um judeu, Paul Gruenfeld, a quem o regime nazi a tirara, arianizada, como então se dizia ao roubo legalizado dos bens dos judeus, em 1938.  

O metal que dela saía iria endurecer os canhões do regime que perseguia o homem a quem fora roubada.
No meio de tudo isto estava Salazar, e foi ali que ele jogou a mais hábil das suas cartas.  Porque o volfrâmio o pôs, a ele e ao país, no centro de um braço de ferro entre as grandes potências.  

A Inglaterra, que possuía em Portugal a maior empresa de extracção do minério, a Beralt Tin da Panasqueira, exigia paradoxalmente o embargo total das exportações, e quando o não conseguia, comprava volfrâmio de que não precisava só para o tirar do mercado e encarecer a compra alemã.  Eram as chamadas compras preventivas.  

A Alemanha, do lado oposto, lutava com todas as forças pela liberdade de comprar, porque dela dependia.  

A explicação da assimetria é simples: a Inglaterra tinha alternativas, importava da Birmânia até esta cair, da Cornualha e da América Latina, mas a Alemanha não tinha nenhuma.  

E Salazar, sentado sobre as montanhas que ambos cobiçavam, percebeu que aquele metal cinzento lhe dava um poder negocial muito superior à dimensão militar do nosso país.  

Vendia ao Churchill e vendia ao Hitler!...  

Criou uma Comissão Reguladora do Comércio de Metais, a fim de que tudo passasse pela mão do Estado.  E exigiu, aos alemães, que pagassem em ouro.  Foi por essa porta que entrou em Portugal a sombra que, décadas mais tarde, haveria de escurecer todo o balanço.  

O ouro alemão fluiu para Lisboa em quantidades enormes.  As reservas de ouro portuguesas cresceram fortemente durante a guerra, alimentadas em parte pelos pagamentos alemães, muitos deles feitos através da Suíça.  

Parte desse ouro circulou através de rotas ferroviárias ibéricas, incluindo a ligação de Canfranc, que se tornou símbolo desse trânsito opaco entre a Europa ocupada, Espanha e Portugal.  

O problema é que parte desse ouro não vinha das minas da Alemanha.  Vinha dos cofres saqueados da Europa ocupada, e em alguns casos, da pior origem imaginável.  

Está documentado que cerca de vinte toneladas de ouro ligado às reservas belgas saqueadas acabaram por passar para a órbita portuguesa através de operações financeiras e transportes organizados durante a guerra.  E há a suspeita, nunca inteiramente afastada, de que entre esse ouro fundido e misturado nas reservas nacionais houvesse ouro arrancado às vítimas dos campos de extermínio.  

Os Aliados avisaram formalmente, em Fevereiro de 1944, sobre o tráfico do ouro pilhado.  Salazar alegaria sempre que, até essa data, agira de boa fé.  

A guerra virou, e com ela virou o jogo.  

Depois da derrota alemã em Estalinegrado, depois de Portugal ceder aos Aliados as bases dos Açores em 1943, a pressão sobre Lisboa tornou-se irresistível.  

A 5 de Junho de 1944, na véspera do desembarque da Normandia, Salazar cedeu e decretou o embargo total das exportações de volfrâmio, tanto para o Eixo como para os Aliados.  Foi uma das maiores cedências do regime em toda a guerra, e marcou o fim abrupto da grande corrida ao volfrâmio.  

O contrabando ainda continuou uns meses pelos trilhos da raia, até que a libertação do sul de França fechou a fronteira dos Pirenéus e cortou o último caminho.  

Nas aldeias, a febre passou tão depressa como viera.  As minas foram fechando, os homens voltaram à enxada, e o ouro negro tornou-se outra vez apenas pedra cinzenta na montanha.  Restou a memória, e restaram as fortunas de alguns, gastas quase sempre tão depressa como tinham sido feitas.  

Quanto ao ouro que ficara nos cofres do Estado, esse lá permaneceu.  

No longo acerto de contas do pós-guerra, depois de anos de negociação, Portugal entregou uma pequena fracção, cerca de quatro toneladas, das mais de duzentas que recebera, no âmbito de um acordo internacional, mas ainda consegui, no mesmo acerto, que a Alemanha do pós-guerra lhe pagasse dívidas pendentes.  

Na sequência de um pedido judaico de compensações, meio século depois, já em democracia, uma comissão oficial criada no final dos anos 90 e presidida por Mário Soares, voltaria a debruçar-se sobre o assunto e concluiria que o Estado Novo não sabia, na altura, da origem do ouro, e que nada mais havia a compensar.  As conclusões foram contestadas por vários historiadores, e o capítulo, em rigor, nunca ficou inteiramente fechado.  

Cavaco Silva, que era na altura o primeiro-ministro de Portugal, por "coincidência" decidiu discretamente enviar como investimento português, 12 toneladas de ouro, para uma empresa americana chamada Drexel, que "coincidentemente" passados 30 dias declarou falência.  Até hoje não sei como Portugal foi ressarcido desse investimento, isto é, se reaveu as 12 toneladas de ouro!...  

Este é, talvez, um dos retratos mais incómodos da neutralidade portuguesa: um país pobre, cercado por pressões contraditórias, que soube lucrar com a guerra vendendo aos dois lados o metal que ambos disputavam.  

Enquanto isso, o povo, na sua maioria, vivia das senhas de racionamento.  Os cofres encheram-se.  As mesas, não.  E há, no fim, um eco que arrepia.  

Oitenta anos depois, o volfrâmio voltou a ser estratégico, e outra vez por causa de guerras e do medo delas.  A China, que domina hoje o mercado mundial, reforçou o controlo sobre a oferta, os preços dispararam, a União Europeia voltou a classificar o metal como matéria-prima crítica para a defesa, e Bruxelas olha de novo para Portugal como referência.  

A mina da Panasqueira, a mesma que armou os dois lados em 1942, continua aberta, e tem, segundo quem a explora, toda a produção vendida antes mesmo de sair da terra.  

O ouro negro voltou a valer ouro.  As montanhas são as mesmas.  

E a guerra, essa, continua lá ao longe… 


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