Mostrar mensagens com a etiqueta história de portugal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta história de portugal. Mostrar todas as mensagens

A batalha de Chryssus (Guadalete)


A  BATALHA  DE  CHRYSSUS
( GUADALETE, 711 )





" As dissensões do império visigótico trouxeram à Hespanha os muçulmanos... "


Alexandre Herculano                    
História de Portugal, Volume I, página 101                    



De feito, estas dissensões eram o fruto da dissolução de costumes e de moral, produzida, logo a seguir à conquista da Península pelos Godos aos Romanos.  Os conquistadores, deslumbrados pelo adiantado da civilização dos vencidos, quiseram copiar, imitar, todas as suas qualidades, mas também copiaram alguns dos seus defeitos; todo o requinte da civilização, que já denotava sinais inequívocos de decadência e daí o terem entrado no caminho do luxo e da depravação dos costumes. 

A civilização romana adoçou, é certo, a rudeza dos costumes dos Godos, mas já não tinha a vitalidade e a pureza de outrora.  O pior dos males que trouxe aos conquistadores foi a depravação moral.  Os Visigodos procuraram, com afã, imitar o luxo, o requinte, dos vencidos.  Toletum (Toledo) quis, assim, imitar Roma, ou Constantinopla; o luxo, a ostentação desenfreada, imperou e foi isso que deitou a perder o Império.  O próprio clero, que, a princípio, tinha querido opor um dique à podridão e à devassidão dos costumes, acabou, também, por se corromper!  A dissolução moral arrastou a política.  No meio desta degeneração, um chefe verdadeiro, mais puro, mais são, que os outros, Ruderick (Rodrigo) apossou‑se da coroa (ano 709), que os filhos do seu antecessor Witiza, Sisebuto e Ebbas, lhe disputaram durante bastante tempo, sem resultado.  A situação moral e política melhorou, então, um pouco, mas os dias do Império Visigótico estavam irremediavelmente contados!  Entretanto, a cidade de Septa (Ceuta), em plena Berberia, pertencia ao Império Visigótico e tinha por governador o Conde Olian‑el‑Gomari (conhecido vulgarmente na história por Juliano), que, querendo‑se vingar de uma ofensa grave anterior de Ruderick, entregou Septa aos berberes e ao seu chefe Musa Ibn Nusayr, instigando‑o a invadir a Península Hispânica, aproveitando o descalabro, que reinava no meio visigótico.  

Fala‑se muito, na História, da traição do Conde Juliano, entregando Septa e instigando o chefe Muçulmano a invadir a Península.  Mas é preciso ver que Olian‑el‑Gomarí, não era visigodo, não era sequer cristão, mas natural da cabila de Gomara, isto é, um puro berbere; não devia lealdade a Ruderick, de mais que este fora um usurpador, mas era um verdadeiro súbdito do Imperador de Bizâncio, Justiniano II, a quem estava directamente subordinado.  De resto, como tinha sido sempre amigo e recebera auxílio de Witiza e dos seus filhos, era natural e lógico que se inclinasse para estes e não para o usurpador Ruderick.  

Posto este pequeno parêntesis, Musa, em face do oferecimento de auxílio de Olian‑el‑Gomarí, fez duas tentativas de desembarque na região do Calpe (hoje, o rochedo de Gibraltar) e na baía de Algeciras, como duas tentativas de estabelecimento de uma testa de praia, mas sem resultado, apenas levando já ricos despojos.  Então organizou um verdadeiro exército de uns 12.000 homens, segundo Herculano, composto, em grande parte, por Sarracenos e Berberes, capitaneado pelo seu lugar‑tenente, no governo do Moghreb (Mauritânia), Tarik Ibn Zeyad.  

Juliano (tratemo‑lo assim) acompanhou a expedição e tendo atravessado, de madrugada e durante o dia 28 de Abril de 711, o estreito, nas suas embarcações ligeiras de velas triangulares, que seriam as precursoras dos futuros “chavecos” argelinos e dos “cáravos” tunisinos, aportaram, uns, às raízes do Calfe, ocupando‑o e, outros, à baía que hoje se denomina de Algeciras (de Alghezirah Alhadra, Ilha Verde).  O desembarque terminou ao cair da tarde desse dia.  

Tarik, hábil e cauteloso como era, tratou imediatamente de se estabelecer e fortificar no morro e suas imediações e aguardou reforços, que esperava ainda.  

Desde então o Calpe mudou de nome e passou a ser o Gebel Tarik (monte de Tarik, donde, depois, proveio Gibraltar).  Entretanto os elementos de vigilância visigótica de Carteia tinham alertado Ruderick, que estava longe, que, por seu turno, pediu auxílio ao Conde Theodimir (Teodomiro), Duque de Cordoba, que governava a província Bética e que estava mais perto do local da invasão.  Este aprestou‑se imediatamente para a luta; com os elementos que pôde reunir.  Sobre os efectivos do invasor há divergências grandes entre os historiadores: alguns compõem o exército muçulmano de uns 7.000 guerreiros berberes, 900 árabes, e aproximadamente uns 100 “witizianos” (cristãos visigodos partidários de Witiza e residentes em Septa e arredores) e que desempenhariam as funções de guias, intérpretes e auxiliares.  Assim o efectivo total orçaria pelos 8.000 homens e não pelos 12.000, conforme a opinião de Alexandre Herculano.  
 
Iniciaram‑se as correrias e escaramuças, de parte a parte; as tropas de Tarik, procurando obter informações sobre efectivos e possíveis linhas de defesa; as de Theodimir, para se oporem às correrias dos berberes, à destruição de culturas e ao saque das povoações.  

Logo que o Conde Theodimir teve o primeiro conhecimento do desembarque e consequente aviso de Ruderick pedindo‑lhe auxílio, acudiu com as forças, que de momento pôde reunir na província, talvez uns 1.500 homens a cavalo, mas, apesar dos auxílios das populações e do seu esforço, viu‑se em sérios apuros perante a superioridade numérica do invasor.  Então escreveu uma carta, que ficou célebre, a Ruderick, instigando‑o a que levantasse o maior número de tropas que pudesse e que se viesse pôr à frente da defesa, pois o seu lugar era ali, e o mais urgentemente que pudesse. 

Ruderick, que a esse tempo estava sitiando Pamplona, em virtude de uma rebelião na Navarra, e onde soube da invasão pelos emissários de Carteia, começou imediatamente a juntar tropas e para isso, tentou, desde logo, congraçar‑se com os filhos de Witiza e com Dom Oppas (bispo de Toledo, irmão de Witiza), prometendo‑lhe benesses e regalias, ao que eles corresponderam, pelo menos então, patrioticamente com promessas de lealdade e boa cooperação, sem que se pudesse adivinhar se albergavam intenções reservadas de traição no futuro, ou não!...  Mas Ruderick confiou!...  

Reunidas as tropas, no máximo efectivo, que conseguiu, a Sul de Pamplona, iniciou Ruderick o deslocamento, a marchas forçadas, na direção geral: Pamplona — Soria — Toledo — Cordoba, a fim de se pôr em contacto com as tropas de Theodimir e concertar a defesa.  Os cronistas muçulmanos atribuem aos seus efectivos uns 100.000 homens, o que parece exagerado e que outros historiadores muçulmanos reduziram, depois, para uns 40 a 50.000 homens, o que é mais plausível.  

Ao ter conhecimento desta marcha forçada e dos grandes efectivos cristãos que se avizinhavam, Tarik, aflito, pediu instantemente reforços a Musa, que se não fez esperar enviando‑lhe breve uns 5.000 ginetes e um número aproximado de infantes, cerca de uns 10.000 homens de reforço.  Deste modo e então, segundo os mesmos cronistas muçulmanos, os efectivos dos exércitos em presença seriam: muçulmanos, uns 20.000 homens e cristãos uns 40 a 50.000 e não os 100.000 de certos cronistas exagerados.  

Os muçulmanos de Tarik marcham para Norte, ao encontro das hostes Cristãs, não desguarnecendo o Calpe e os pontos importantes da baía, como era de prudência.  

Mesmo não é natural e lógico que Tarik, chefe sabedor e esforçado, se ficasse, cerca de 3 meses, apegado ao Calpe e à costa, como certos escritores pretendem.  O que era natural é que ele, uma vez estabelecida a sua testa de desembarque tentasse imediatamente iniciar a invasão para Norte.  

Acerca da região em que se deu o encontro dos dois exércitos há também discordâncias: a princípio tomou forma a tese do vale do Chryssus, nome que os Romanos davam ao rio Guadalete, do nome que depois os muçulmanos lhe puseram, ou Xeres, e que tendo as suas origens na região de Olvera‑Algamitas, banha Arcos de La Frontera e vai desaguar na Baía de Cádis.  Depois tomou consistência outra tese: a da região da Lagoa de Janda, ou ainda, o vale do Barbate, e lagoas e pântanos desta região mais ao Sul.  Contudo, estudos mais recentes fizeram voltar os críticos para a primeira hipótese, a do Chryssus, a que os muçulmanos logo puseram o nome de Wad‑ad‑Lete (donde depois saiu Guadalete), ou ainda Xeres, (donde Jerez), e que teria dado o nome à cidade bem conhecida pelos vinhos e aguardentes célebres em todo o mundo.  Esta hipótese é, a nosso ver, a mais plausível, mesmo porque já indica um certo avanço, uma certa progressão para Norte e que justifica o não imobilismo das forças de Tarik.  E mais fácil, portanto, compreender que teria sido, nas margens deste rio, que se teria ferido a célebre batalha, se atendermos a que Tarik teria conseguido estabelecer uma testa de desembarque de certa amplitude, depois dos reforços enviados por Musa e que teria, pouco mais ou menos, atingido o perímetro: Vejar de La Frontera — Zahara — Grazalema — Ronda — Estepona, nos seus pontos essenciais e nos “passos” das serras correspondentes.  

Seria absolutamente incompreensível que Tarik não tivesse tentado atingir e ocupar os pontos essenciais de Zahara e da serrania de Ronda, e que lhe eram necessários à sua própria defesa.  

Por outro lado, Ruderick, que, atingida Cordoba, se dirigia, então, para Moron de La Frontera, era lógico que, encontrando o curso do Guadalete, aí se estabelecesse como uma linha de defesa e ainda procurasse envolver pela sua esquerda, o flanco direito de Tarik, logicamente o mais fraco, ou, talvez, apenas vigiado, pois, como era plausível, Tarik deveria dirigir‑se directamente para Hispalis (Sevilla), o seu primeiro objetivo, enquanto que Ruderick tentaria, combinando com o envolvimento pela esquerda, atacá‑lo ao centro para obter a decisão.  

Tarik devia ter pesado bem as possibilidades do inimigo e em face do estabelecimento dos Cristãos nas margens do Guadalete, ou nas suas imediações, dispôs os seus efectivos principais numa zona, que se pode imaginar junto a este rio, entre Medina Sidônia e o lacete agudo que faz o rio a Norte desta povoação, mas, com todas as probabilidades a Sul do rio e, portanto, este não desempenhou o papel de obstáculo, ou linha de defesa, nem as crónicas muçulmanas referem a sua transposição durante o combate, o que era natural se o tivesse sido.  

Há uma grande confusão nos relatos das crónicas e pouco se sabe de concreto acerca de certos detalhes da batalha; em que há mais dificuldades no seu estudo do que em muitas ações da Alta Antiguidade.  Temos de fazer suposições, estabelecer hipóteses, tirar conclusões, mais ou menos plausíveis.  

O grande escritor espanhol, general Kindelan estabelece um esquema, que nos parece mais plausível do que qualquer outro:  


(1) 1ª Fase = Dias 19, 20 e 21
Combater em posição com pequenas alterações de dispositivo; 

(2) 2ª Fase = Dia 22
As alas cristãs cedem, o seu centro resiste;  

(3) 3ª Fase = Dia 23
O centro cede, as alas entram em fuga; retirada geral; derrota total.



Na madrugada de 19 de Julho de 711, na planície pantanosa, em parte, a Sul da curva apertada que aí faz o rio, Tarik estabeleceu o seu dispositivo frente a Norte, com a sua cavalaria árabe ao centro e em linha, a cavalaria berbere, de grande mobilidade, nos flancos, uns troços de infantaria berbere à retaguarda do centro e uns tabores de reserva de cavalaria em 3ª linha.  Tomou o comando global, sem reserva alguma sob o seu comando direto.  De resto, era quase regra geral, a reserva não estar na mão do Comando‑Chefe.  

Ruderick dispôs as suas forças a Norte dos Muçulmanos e logo a Sul do rio, tendo: em 1ª linha o corpo do exército da Bética, sob o comando de Theodimir, ladeado pelos troços de cavalaria hispano‑godos dos comandos de Sisberto, à direita e de Dom Oppas à esquerda.  À retaguarda, em 2ª linha e como reserva, na sua mão, o grosso da cavalaria hispano‑goda.  Era intenção de Ruderick, logo de início, envolver com esta sua reserva o flanco direito do adversário, mas as coisas correram de outro modo...  

Iniciaram‑se as hostilidades por ataques simultâneos e alternados de ambas as partes; Tarik tinha ordenado a cada um dos seus flancos (cavalaria berbere) que envolvesse a ala correspondente inimiga e, quando deu conta que Ruderick estava tentando envolver com a sua reserva a sua direita, mandou imediatamente os seus tabores de reserva contra‑atacar o envolvimento, ao mesmo tempo que o centro (cavalaria árabe) acometia furiosamente o centro cristão.  Parece que esta fase de ataque frontal e envolvimentos recíprocos deve ter durado pelo menos 3 dias (!), durante os quais se notou a superioridade numérica dos cristãos e a grande coragem da cavalaria goda.  Foi a fase da luta verdadeiramente de posição, por assim dizer e marcada pelo sinal (1) nas várias frações, no croquis.  Não deve ter havido, aí, mudanças sensíveis de lugar das várias frações, dos dois contendores.  

Mas, a seguir ao 3º dia, houve um momento, em que a situação de Tarik se tornou verdadeiramente crítica e em que os mouros estavam acusando indícios de pânico!  Então o seu chefe subiu a grande altura (falando‑lhes de tal modo, mostrando‑lhes que apenas a sua salvação estava no ataque e na luta encarniçada e que tivessem uma fé inabalável em Allah; que ele, Tarik, iria acometer pessoalmente Ruderick e matá‑lo‑ia, ou morreria às suas mãos!...  

Então, os mouros e berberes, encorajados pela patriótica arenga, voltaram ao ataque, mais ardorosos que nunca; os cristãos ainda aguentaram, com denodo quase aquele dia, mas pela tarde desse 4º dia, inexplicavelmente, as alas cristãs cedem terreno e inicia‑se simultaneamente a retirada geral!  No 5º dia, esta estabelece‑se francamente, quase em fuga, perseguidos pelas cavalarias árabe e berbere, nos flancos, onde abrem crescentes ameaçadores!...  

Teria havido traição de Sisberto e de Dom Oppas?...  Enfraquecimento normal, a seguir a quatro dias de combates contínuos?...  Sabe‑se lá!...  

Nesse 4º dia, o centro cristão completamente cercado, ainda se defende heroicamente, até que, morto, ou desaparecido (afogado num pântano, segundo correu...), Ruderick, se inicia, então, a retirada geral que havia de degenerar em fuga no 5º dia...    

Não se sabe — as crónicas são omissas — se o Rei Ruderick morreu realmente na batalha, ou depois, de ferimentos; não se sabe mesmo o destino dos que poderiam ter sido traidores; o que é certo é que Tarik ficou vencedor incontestado.  

Desconhecem‑se também as baixas de parte a parte, mas deveriam ter sido terríveis sobretudo do lado dos cristãos, que aguentaram ataques sucessivos durante perto de 5 dias.  A decisão deve‑se ter dado a 23 de julho pela manhã.  

Com esta batalha verdadeiramente decisiva, pois decidiu os destinos da Península Hispânica, por quase 8 séculos, ia iniciar‑se a sua conquista sistemática e depois e logo a seguir à reconquista, uma das mais belas séries de páginas gloriosas das campanhas da Europa e que havia de durar precisamente 774 anos, desde Gangas de Onis (ano 718) até à tomada de Granada (ano 1492). 



= = = = = =   ■ ■ ■   = = = = = =



Não faremos comentários, nem de carácter estratégico nem táctico, em virtude da incerteza dos detalhes e pormenores da condução da campanha e da própria batalha.  É realmente inexplicável a falência das duas alas cristãs, de mais, ao fim de três dias de luta, quando as hostes de Tarik, enfraquecidas e desfalcadas, fraquejavam já!  Seria traição, resultado ainda do ódio dos filhos de Witiza e dos seus partidários e do irmão contra o usurpador?...  Quem o poderá dizer?!...  Ficou tudo, a propósito desta memorável batalha dos 5 dias, bastante nebuloso; o que é certo é que o Koran dominou, por causa dela, e durante 781 anos, na Península Hispânica, mas também é incontestável que trouxe, durante esse dilatado período, muitos benefícios de civilização e um elevado grau de cultura.  


 ■  




Autor:  Brigadeiro José Alfredo do Amaral Esteves Pereira
Publicado:  Revista de Infantaria, ano 36, nº.267‑269, Julho‑Setembro/1969, pp.207‑215



 ■




Operação Vagô



Corria o ano de 1961 e dois generais traidores à nação portuguesa, chamados Humberto Delgado e Henrique Galvão de Melo, dividem no exílio a liderança do Movimento Nacional Independente (MNI).  Estes generais eram apoiados por forças políticas de países estrangeiros e alinhados com as ideologias mundialistas, comunistas e libertinas.  

Os dois sempre mantiveram uma relação tensa, pois competiam pela liderança absoluta do movimento, mas na prática Humberto Delgado era o responsável político do movimento e o Henrique Galvão era o responsável pela organização militar e operacional.  A relação entre ambos deteriorou‑se bastante após o sequestro do paquete Santa Maria, porque Humberto Delgado considerou‑a um fracasso e Galvão de Melo tinha opinião contrária.

Por volta de finais de Maio, Galvão de Melo comunicou a Humberto Delgado que tinha um plano para desviar um avião da TAP (Transportes Aéreos Portugueses) e lançar panfletos revolucionários sobre várias cidades portuguesas — baptizado de Operação Vagô.  

Humberto Delgado não concordou com o plano de Galvão de Melo em virtude dele também ter um plano para organizar um pronunciamento do Exército em Portugal.  Porém, Galvão de Melo tentou convencer Delgado a concretizar os dois planos simultaneamente e nesse entretanto reivindica o comando operacional do movimento.  

Mas, Humberto Delgado recusou dar‑lhe o comando operacional do movimento e na sequência desse desentendimento extinguiu o cargo de secretário‑geral do MNI.  Galvão de Melo inconformado respondeu‑lhe: 

      - Deixei de ser o que, efectivamente, nunca fui, como titular de um cargo que, efectivamente, nunca existiu, 
        num movimento que, pelos vistos, está reduzido, também, a uma inexistência efectiva.  



Após este episódio de crispação, no mês de Setembro, Galvão de Melo funda uma nova organização revolucionária denominada Frente Anti‑totalitária dos Portugueses Livres no Exílio, mais conhecida pela sua sigla FAPLE. 

Por esta ocasião, Humberto Delgado e Galvão de Melo estavam em Marrocos, hospedados no Hotel Minzah, em Tânger.  Delgado preparava uma sublevação militar em Portugal e, Galvão de Melo planeava o desvio de um avião — a dita Operação Vagô.  Os elementos operacionais que intervieram na dita operação conheciam‑se bem, pois todos eles estiveram exilados no Brasil e tentaram por tudo que os dois chefes unissem esforços para fazerem uma operação em conjunto, porém sem sucesso!

Humberto  Delgado  e  Henrique  Galão  de  Melo


O general Galvão de Melo, nomeou para executarem a Operação Vagô, os seguintes elementos operacionais terroristas: 

   - Hermínio da Palma Inácio
   - Camilo Mortágua 
   - Amândio Silva
   - João Martins
   - Francisco Vasconcelos
   - Helena Vidal



Enquanto que, Humberto Delgado enviou para Portugal os seguintes elementos operacionais terroristas, com a missão de organizarem o pronunciamento militar:  

   - Manuel Serra
   - José da Silva Graça 
   - Raul Marques 



Galvão de Melo aceitou aguardar algumas semanas pela sublevação militar, todavia, os operacionais enviados por Humberto Delgado tiveram muitas dificuldades em convencer alguns quartéis a aderirem.  Entretanto, em Novembro de 1961, Galvão de Melo decidiu avançar com a sua Operação Vagô.  Somente no final do ano é que os enviados de Humberto Delgado vieram a conseguir uma intentona militar, que ocorreu a 1 de Janeiro de 1962, com um assalto ao quartel do Regimento de Beja.  A intentona foi um fracasso, não obstante o quartel ter estado tomado pelos revolucionários durante algumas horas.  

Relativamente à Operação Vagô, o plano terrorista era partir de avião de Casablanca e seguir a rota normal para Lisboa, depois simular a aterragem no aeroporto da Portela (em Lisboa) e em voo rasante sobre a cidade, largar os panfletos.  Também estava no plano da operação lançar os panfletos sobre as cidades do Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.  Em seguida o avião voaria para Tânger, em Marrocos, onde Palma Inácio e o restante grupo de terroristas esperavam obter asilo político.  

A ocasião escolhida para esta operação foi intencional, pois o país estava nas vésperas das eleições para a Assembleia Nacional.  Os panfletos apelavam à revolta popular para impedir, “de qualquer maneira”, a “farsa do acto eleitoral”.  

Lockheed  Super  Constellation  da  TAP


Era uma sexta‑feira, 10 de Novembro, ás 9:15 Horas da manhã, o avião Lockheed Super Constellation da TAP, batizado Mouzinho de Albuquerque, descolava da pista do aeroporto de Casablanca, em Marrocos, com destino a Lisboa.  Era previsto o voo durar 1 hora e 30 minutos.  

A bordo, entre os 19 passageiros (estrangeiros e portugueses) viaja um grupo de 6 terroristas revolucionários chefiado por Hermínio Palma Inácio.  Na bagagem de mão, além das armas, levavam cerca de 100 mil panfletos destinados a serem largados sobre algumas cidades portuguesas.

Aproximadamente com uma hora de voo, o chefe dos operacionais terroristas — Palma Inácio — levantou‑se calmamente do seu lugar e dirigiu‑se ao cockpit e sacou de um revolver de cano longo, abriu a porta e entrou decidido, encostando o cano da arma à cabeça do comandante de voo — João Marcelino — e disse‑lhe o seguinte: 

      - Isto é uma acção revolucionária.  Não pretendo fazer mal a ninguém.
      - Façam o que Vos vou dizer.  

O co‑piloto Teles Grilo, o engenheiro de voo António Coragem e o mecânico de voo Alberto Coelho, não disseram uma única palavra.  Apenas o comandante João Marcelino, que estava ameaçado com o revolver, tentou com serenidade demover Palma Inácio, dizendo‑lhe:  

      - O avião não tem combustível para chegar a Tânger.

Porém, Palma Inácio estava seguro daquilo que estava a fazer.  Ele era mecânico de aviões, e além disso também tinha tirado um curso de piloto de linha aérea nos Estados Unidos, e disse:  

      - Mostre‑me os registos de voo.

O comandante entregou‑lhe os registos de voo e ele verificou que os tanques do avião foram atestados em Casablanca.  Então, disse para o comandante:  

      - Há combustível suficiente.  
      - Vai fazer o que eu lhe ordenei!

Todavia, o comandante João Marcelino tentou mais uma vez dissuadir Palma Inácio com outro argumento, dizendo‑lhe:  

      - Como é que vai lançar os panfletos?...  
      - Eu não posso abrir as portas e as janelas do avião.

Mas, Palma Inácio entendia de aeronáutica e retorquiu:  

      - Pode sim senhor!  
      - Vai voar o mais baixo possível, despressuriza as cabinas e abrimos as janelas de emergência.



E foi assim, desta maneira que Palma Inácio ficou com a situação controlada e bem encaminhada no cockpit.  Entretanto, lá atrás na cabina, a operação terrorista estava a correr ás mil maravilhas.  Os outros cinco revolucionários terroristas nem sequer foram obrigados a levantar a voz ou a mostrar as armas.  O comissário de bordo — Orlof Esteves — e as duas assistentes — Maria del Pilar e Luísa Infante — “aceitaram” colaborar com aquele momento histórico, bem como os treze passageiros, que não se mostraram muito preocupados com a situação.  

Então, o voo seguiu normalmente e a faltar pouco menos meia hora para chegar a Lisboa, momentos antes de iniciar os procedimentos para a descida, o comandante João Marcelino informou a torre de controlo e recebeu autorização para aterrar na pista nº.5.  Nesse momento Palma Inácio exclama: 

      - Que está a fazer?  
      - Se aterra somos todos presos.  



Mas no último momento o avião borregou sobre a pista, ganhou altitude e afastou‑se do aeroporto.  

Logo de seguida o comandante João Marcelino comunicou à torre de controlo e tentou explicar ao controlador de serviço — por meias palavras — que a bordo estava um grupo de terroristas e o obrigaram a fazer um voo rasante sobre Lisboa e sobre outras cidades do Sul do país.  Nesse entretanto, a comunicação foi interrompida pela voz do general Costa Macedo, da FAP (Força Aérea Portuguesa), que aos comandos de um monomotor, apercebeu‑se de tudo e deu o alerta.  Poucos minutos depois, dois caças F-84 levantaram voo da Base Aérea de Monte Real.  Descolaram com ordens para abaterem o avião da TAP no caso de não conseguirem obrigá‑lo a aterrar em solo português.  

Foi então que o Lockheed Super Constellation da TAP, iniciou um perigosíssimo jogo do gato e do rato, voando baixo a aproximadamente 100 metros de altura, para evitar ser detectado pelos radares e iludir os dois caças.  

Fez um voo rasante sobre a estátua do Marquês de Pombal, sobrevoou a baixa lisboeta e logo a seguir guinou sob Alcântara.  Foi então que uma chuva de milhares de panfletos foram lançados das janelas do avião e caíram sobre Lisboa, depois sobre o Barreiro, Setúbal, Beja e Faro.

Entretanto, já de regresso a Marrocos, os pilotos avistam dois navios de guerra portugueses prontos para abater o avião.  Só havia uma hipótese de escapar.  Era voar a poucos de metros acima da água por entre os dois navios, impedindo‑os, assim, de utilizarem a artilharia, pois se o fizessem disparavam um contra o outro.  Foi a incrível proeza que o comandante João Marcelino conseguiu.  A calma, sempre mantida a bordo deveu‑se ao bom ambiente entre os “terroristas”, que nunca mostraram as suas armas aos passageiros, e a tripulação que além de ajudar a distribuir os folhetos, manteve os passageiros “entretidos” distribuindo‑lhes bebidas.  

Por fim, conforme planeado no roteiro da Operação Vagô, por volta das 12:50 Horas, o Lockheed Super Constellation da TAP, aterrou no aeroporto de Tânger, em Marrocos, com todos os que iam a bordo sãos e salvos.  Foi então no meio dos festejos pelo êxito da operação, que os passageiros, na maioria estrangeiros, perceberam o que se tinha passado.  A missão terrorista foi cumprida com êxito!... 

Nos dias seguintes, para alegria e satisfação dos terroristas revolucionários, a Operação Vagô mereceu honras por parte da imprensa internacional (e “nacional”) que ajudava no complô político internacional contra Portugal. 

Regressado o avião a Lisboa, o comandante João Marcelino acabou sendo interrogado pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), por suspeita de colaboracionismo com os “piratas do ar”, mas a verdade é que o comandante Marcelino não era sequer suposto estar naquele voo.  Ele trocou o voo para acompanhar a hospedeira Maria Luísa Infante, por quem estava apaixonado e com quem acabou por casar.  

Quanto aos terroristas, apesar das pressões do Governo português para que Marrocos extraditasse Palma Inácio e os restantes terroristas, eles ficaram retidos em Marrocos durante cerca de uma semana e depois foram autorizados a regressar ao Brasil onde estavam exilados.  

Em resumo, os conspiradores internos e externos contra o regime de então, são os mesmos políticos e magnatas internacionalistas que após 1945, em poucas décadas destruíram cultural e socialmente, todos os países de matriz civilizacional ocidental.  A prova desta afirmação é o que se assiste hoje em dia.  


 ■ ■ ■  



Volfrâmio (ouro negro)

Volfrâmio

Houve um tempo, em Portugal, em que homens que toda a vida tinham passado fome poderiam se dar ao luxo de acender cigarros com "notas de banco".  Não por desprezo pelo dinheiro, mas por excesso dele, e pela incredulidade de quem nunca tivera nada e de repente tinha demasiado.  

Foi nos anos em que decorria a 2ª Guerra Mundial, nas aldeias da Beira, de Trás-os-Montes, das serras de Arouca, onde a terra escondia um metal cinzento e pesado que o resto do mundo, em chamas, comprava a peso de ouro.  

Chamavam-lhe o ouro negro.  O nome verdadeiro era volfrâmio.  

Enquanto na costa Oeste passavam, ao largo, as rotas de abastecimento aliadas e os submarinos alemães, era no interior do país, longe do mar, que Portugal vivia a sua participação mais lucrativa e mais silenciosa na guerra.  Não com soldados.  Mas com pedras!...  

O volfrâmio, a que os químicos chamam tungsténio e atribuem a letra W, é um dos metais mais extraordinários da natureza.  Tem o ponto de fusão mais alto de todos os metais, perto de 3500 ºC, e uma dureza que poucos materiais igualam.  

Antes da guerra já tinha usos industriais importantes, em filamentos de lâmpadas, ferramentas de corte e aços especiais.  A guerra transformou-o numa matéria-prima estratégica.  

Em ligas de aço e carbonetos, o volfrâmio aumentava a resistência ao calor e ao desgaste.  Servia para fabricar ferramentas de corte, máquinas de guerra e, sobretudo, para núcleos de projécteis perfurantes, aquelas munições capazes de trespassar a couraça de um tanque de guerra.  

Sem o volfrâmio, a artilharia anti-tanque alemã perdia o dente.  E a Alemanha, com o acesso às fontes asiáticas de tungsténio severamente limitado pela guerra, ficou dependente de uma única região do mundo para o obter: a Península Ibérica.  

Portugal e a vizinha Espanha tornaram-se, da noite para o dia, fornecedores de uma das chaves da guerra industrial.  

O preço seguiu a procura, e a procura era desesperada.  Em 1942, o volfrâmio português era exportado a um preço médio cerca de trinta vezes superior ao de 1938.  Em termos relativos, tratou-se de uma valorização excepcional, mais próxima de uma bolha de guerra do que de um simples ciclo mineiro, e como todas as bolhas, atraiu a si quanta gente havia.  

Foi então que rebentou aquilo a que ficou a chamar-se a febre do volfrâmio.  De todo o país acorreram milhares de pessoas às zonas mineiras, gente que largou a enxada e a jorna para ir cavar a montanha.  Onde havia minério organizado, abriram-se minas e contrataram-se homens.  

Onde havia apenas filões à superfície, instalou-se uma economia paralela, a dos chamados pilhas, os apanhadores clandestinos que andavam pelos montes a catar pedras de volfrâmio para vender a intermediários.  

O minério, uma vez apanhado, ou seguia legalmente para o litoral e era carregado em navios, ou tomava os velhos trilhos do contrabando rumo a Espanha, pelas serras da raia, às costas das mulas conduzidas pelos almocreves.  

As fronteiras entre o legal e o ilegal, sempre ténues naquelas terras, tornaram-se quase invisíveis.  E com o dinheiro veio o desvario.  Numa região habituada à miséria, a riqueza súbita não trouxe prudência, trouxe espanto.  

Conta-se, e os relatos repetem-se de aldeia em aldeia com uma persistência que lhes dá crédito, que houve quem fizesse cigarros com notas, quem acendesse charutos com notas de contos de réis, quem comprasse o que nunca vira e não sabia usar.  Era a ilusão de uma fortuna que muitos julgavam eterna e que duraria, afinal, o tempo exacto de uma guerra.  

As marcas ficaram na memória das gentes e na própria paisagem, retalhada de poços, escombreiras e galerias que ainda hoje se vêem.  

A televisão portuguesa chegou a fazer, em 2001, uma série inteira sobre este mundo, passada em Arouca, com o título justo de "A Febre do Ouro Negro".  E é em Arouca, precisamente, que mora o mais insólito de toda esta história.  

No concelho de Arouca, em Regoufe e Rio de Frades, a poucos quilómetros uma da outra, ingleses e alemães exploravam minas vizinhas, em simultâneo, sem nunca terem chegado a um confronto directo.  

Enquanto no resto da Europa as duas nações se matavam na mais mortífera das guerras, ali, numa montanha portuguesa, coexistiam sob vigilância mútua, cruzando-se nas estradas sem se tocarem.  Por baixo dessa coabitação improvável, os espiões de cada lado e a polícia política portuguesa recolhiam, claro está, toda a informação que pudessem.  

Mas a imagem fica: a guerra mundial suspensa, por conveniência mineira, à porta de uma aldeia da Beira.  Havia, aliás, mais teias do que as que se viam.  

Os serviços secretos americanos identificaram redes empresariais associadas a interesses alemães no Porto, fachadas comerciais que escondiam capital e interesses do III Reich, entre as quais a Companhia Mineira do Norte de Portugal, conhecida nas terras simplesmente como a Companhia Alemã.  

Num dos detalhes mais amargos de toda a história, essa empresa pertencera, segundo várias investigações, a um judeu, Paul Gruenfeld, a quem o regime nazi a tirara, arianizada, como então se dizia ao roubo legalizado dos bens dos judeus, em 1938.  

O metal que dela saía iria endurecer os canhões do regime que perseguia o homem a quem fora roubada.
No meio de tudo isto estava Salazar, e foi ali que ele jogou a mais hábil das suas cartas.  Porque o volfrâmio o pôs, a ele e ao país, no centro de um braço de ferro entre as grandes potências.  

A Inglaterra, que possuía em Portugal a maior empresa de extracção do minério, a Beralt Tin da Panasqueira, exigia paradoxalmente o embargo total das exportações, e quando o não conseguia, comprava volfrâmio de que não precisava só para o tirar do mercado e encarecer a compra alemã.  Eram as chamadas compras preventivas.  

A Alemanha, do lado oposto, lutava com todas as forças pela liberdade de comprar, porque dela dependia.  

A explicação da assimetria é simples: a Inglaterra tinha alternativas, importava da Birmânia até esta cair, da Cornualha e da América Latina, mas a Alemanha não tinha nenhuma.  

E Salazar, sentado sobre as montanhas que ambos cobiçavam, percebeu que aquele metal cinzento lhe dava um poder negocial muito superior à dimensão militar do nosso país.  

Vendia ao Churchill e vendia ao Hitler!...  

Criou uma Comissão Reguladora do Comércio de Metais, a fim de que tudo passasse pela mão do Estado.  E exigiu, aos alemães, que pagassem em ouro.  Foi por essa porta que entrou em Portugal a sombra que, décadas mais tarde, haveria de escurecer todo o balanço.  

O ouro alemão fluiu para Lisboa em quantidades enormes.  As reservas de ouro portuguesas cresceram fortemente durante a guerra, alimentadas em parte pelos pagamentos alemães, muitos deles feitos através da Suíça.  

Parte desse ouro circulou através de rotas ferroviárias ibéricas, incluindo a ligação de Canfranc, que se tornou símbolo desse trânsito opaco entre a Europa ocupada, Espanha e Portugal.  

O problema é que parte desse ouro não vinha das minas da Alemanha.  Vinha dos cofres saqueados da Europa ocupada, e em alguns casos, da pior origem imaginável.  

Está documentado que cerca de vinte toneladas de ouro ligado às reservas belgas saqueadas acabaram por passar para a órbita portuguesa através de operações financeiras e transportes organizados durante a guerra.  E há a suspeita, nunca inteiramente afastada, de que entre esse ouro fundido e misturado nas reservas nacionais houvesse ouro arrancado às vítimas dos campos de extermínio.  

Os Aliados avisaram formalmente, em Fevereiro de 1944, sobre o tráfico do ouro pilhado.  Salazar alegaria sempre que, até essa data, agira de boa fé.  

A guerra virou, e com ela virou o jogo.  

Depois da derrota alemã em Estalinegrado, depois de Portugal ceder aos Aliados as bases dos Açores em 1943, a pressão sobre Lisboa tornou-se irresistível.  

A 5 de Junho de 1944, na véspera do desembarque da Normandia, Salazar cedeu e decretou o embargo total das exportações de volfrâmio, tanto para o Eixo como para os Aliados.  Foi uma das maiores cedências do regime em toda a guerra, e marcou o fim abrupto da grande corrida ao volfrâmio.  

O contrabando ainda continuou uns meses pelos trilhos da raia, até que a libertação do sul de França fechou a fronteira dos Pirenéus e cortou o último caminho.  

Nas aldeias, a febre passou tão depressa como viera.  As minas foram fechando, os homens voltaram à enxada, e o ouro negro tornou-se outra vez apenas pedra cinzenta na montanha.  Restou a memória, e restaram as fortunas de alguns, gastas quase sempre tão depressa como tinham sido feitas.  

Quanto ao ouro que ficara nos cofres do Estado, esse lá permaneceu.  

No longo acerto de contas do pós-guerra, depois de anos de negociação, Portugal entregou uma pequena fracção, cerca de quatro toneladas, das mais de duzentas que recebera, no âmbito de um acordo internacional, mas ainda consegui, no mesmo acerto, que a Alemanha do pós-guerra lhe pagasse dívidas pendentes.  

Na sequência de um pedido judaico de compensações, meio século depois, já em democracia, uma comissão oficial criada no final dos anos 90 e presidida por Mário Soares, voltaria a debruçar-se sobre o assunto e concluiria que o Estado Novo não sabia, na altura, da origem do ouro, e que nada mais havia a compensar.  As conclusões foram contestadas por vários historiadores, e o capítulo, em rigor, nunca ficou inteiramente fechado.  

Cavaco Silva, que era na altura o primeiro-ministro de Portugal, por "coincidência" decidiu discretamente enviar como investimento português, 12 toneladas de ouro, para uma empresa americana chamada Drexel, que "coincidentemente" passados 30 dias declarou falência.  Até hoje não sei como Portugal foi ressarcido desse investimento, isto é, se reaveu as 12 toneladas de ouro!...  

Este é, talvez, um dos retratos mais incómodos da neutralidade portuguesa: um país pobre, cercado por pressões contraditórias, que soube lucrar com a guerra vendendo aos dois lados o metal que ambos disputavam.  

Enquanto isso, o povo, na sua maioria, vivia das senhas de racionamento.  Os cofres encheram-se.  As mesas, não.  E há, no fim, um eco que arrepia.  

Oitenta anos depois, o volfrâmio voltou a ser estratégico, e outra vez por causa de guerras e do medo delas.  A China, que domina hoje o mercado mundial, reforçou o controlo sobre a oferta, os preços dispararam, a União Europeia voltou a classificar o metal como matéria-prima crítica para a defesa, e Bruxelas olha de novo para Portugal como referência.  

A mina da Panasqueira, a mesma que armou os dois lados em 1942, continua aberta, e tem, segundo quem a explora, toda a produção vendida antes mesmo de sair da terra.  

O ouro negro voltou a valer ouro.  As montanhas são as mesmas.  

E a guerra, essa, continua lá ao longe… 


 ∎ ∎ ∎  


Um comentário sobre o 25 de Abril de 1974



O fenómeno do 25 de Abril de 1974, corresponde tecnicamente a um golpe de estado militar, feito por oficiais superiores das Forças Armadas portuguesas no activo contra o governo reconhecido do Estado português.  Todas as características, sem excepção, permitem qualificar o evento como um golpe de Estado.  A sua origem próxima parece estar em fenómenos de natureza corporativa militar.  Todavia, o Governo do Estado Novo, depois da morte do Dr. Oliveira Salazar, anunciou uma abertura para, depois, se enfiar num beco sem saída, no que toca à questão da chamada Guerra do Ultramar ou Guerra Colonial. 

1º)  A sociedade portuguesa apresentava um atraso muito evidente em termos gerais, e ultimamente gritante, desde logo comparando com a vizinha Espanha.  Em 1974 não havia uma única auto-estrada concluída.  Vivíamos num país de pobreza e de emigração sistemática e com um crescimento desinteressante para a generalidade da população.  O regime havia falhado na criação duma grande classe média dominante e na progressiva democratização do Estado.  Era também evidente uma pressão externa para a descolonização e democratização da parte dos nossos aliados.  Desde o malogrado presidente Kennedy que os Estados Unidos da América, a nossa potência directora na NATO em plena guerra fria, havia feito um ultimato a Portugal para descolonizar e democratizar. 

2º)  Depois da festa urbana da chamada liberdade, iniciaram-se dois eventos que mudariam a história mundial: em primeiro lugar a chamada “descolonização exemplar” que consistiu exclusivamente na entrega sem quaisquer votações das antigas colónias aos movimentos respectivos marxistas-leninistas, provocando a catástrofe dos retornados, a desgraça de centenas de milhar de famílias que haviam optado pela vida noutro continente e que, de um momento para o outro, se viram despojados de praticamente tudo.  Foi assim que o império colonial português transitou para a esfera marxista, representada desde logo pelos partidos PAIGC, MPLA,UNITA, FRETILIN e em 1999 para o Partido Comunista da China.  Como o critério era exclusivamente político, ninguém explicou, nem era preciso, porque é que uns territórios outrora totalmente vazios, descobertos por Portugal, de natureza insular, colonizados por nós, com povos mestiços (Cabo Verde, e, São Tomé e Príncipe) eram considerados colónias e os outros, colonizados por mestiços mais claros (Açores e Madeira) não o eram.  O segundo evento foi o chamado PREC, ou seja, o Processo Revolucionário Em Curso.  

3º)  O PREC construído paulatinamente em 1974 e entronizado oficialmente pelo golpe de Estado de 11 de março de 1975, constituiu uma folia colectiva em que só não foram proibidos e ilegalizados partidos de esquerda e um do centro, em que a Assembleia Constituinte foi cercada e sequestrada pelas massas populares organizadas, em que se ocupou maioria do Alentejo e da Beira Baixa com a Reforma Agrária, confiscando as propriedades, o gado, as alfaias agrícolas, as instalações, a terra, e os seus produtos, aos legítimos proprietários, sem qualquer indemnização, ao mesmo tempo que se confiscavam as empresas privadas designadamente toda a banca, todas as seguradoras, todas as empresas de industrias pesadas, sem contar com um conjunto enorme de empresas detidas por estas.  A função pública e as empresas privadas foram sujeitas a depurações e saneamentos, despedimentos e expulsões políticas sem direito a contraditório e indemnização de milhares e milhares de pessoas por suspeita de ligações ao antigo regime.  As prisões encheram-se de presos políticos acusados de ”ligações à reacção”.  Criaram-se movimentos armados clandestinos de direita, designadamente o ELP, Exército de Libertação de Portugal, e o MDLP Movimento Democrático para a Libertação de Portugal, que actuavam sobretudo no norte.  Foi criada uma espécie de fronteira em Rio Maior e o Verão quente de 1975 caracterizou-se pelo avanço da revolução no Centro e Sul e o avanço violento da contrarrevolução no Norte.  Estava instalado o caos e o caminho para uma guerra civil.  Um pequeno grupo de militares adiantou um contragolpe em 25 Novembro de 1975, para pôr fim ao governo comunista do General Vasco Gonçalves, primeiro-ministro afecto ao PCP, restaurar o liberalismo, impedir guerra civil, e abrir caminho à democratização do Estado em termos ocidentais.

4º)  Daquilo que sei hoje, se o processo histórico não tivesse ocorrido desta maneira acredito que estaríamos agora com resultados em tudo idênticos.  É o funcionamento do princípio da força normativa dos factos.  Mas isso dava outro artigo, eventualmente bem mais interessante. 


António C. A. de Sousa Lara 
        (Prof. Universitário)


 ■ FIM ■ 



A conquista da cidade de Santarém aos mouros

Tomada de Santarém aos mouros.
Pintura de Roque Gameiro,  Quadros da História de Portugal,  1917


Estava-se no ano de 1147, em plena reconquista da Península Ibérica.  A cidade de Santarém tinha uma localização estratégica pois era crucial para a expansão do território a Norte do rio Tejo, além de que as suas terras eram muito férteis o que tornava a cidade uma das mais ricas não só da Península Ibérica, mas também de todo o Império Almorávida.  

Por motivos de ordem estratégica, D. Afonso Henriques encontrava-se na cidade de Coimbra e havia celebrado tréguas com o Alcaide da cidade.  Por essa razão incumbiu o cavaleiro Mem Moniz, filho de D. Egas Moniz, que fosse a Santarém com o pretexto de tratar assuntos relativos à paz com o Alcaide.  Porém, o seu verdadeiro objectivo era espiar as defesas da cidade e tentar descobrir a parte mais vulnerável para se fazer um ataque.  

Mem Moniz, uma vez regressado a Coimbra, cidade onde estava D. Afonso Henriques e o seu exército, informou-o sobre a melhor forma de penetrar em Santarém.  Reuniram-se e discutiram os detalhes, e após terminada a reunião D. Afonso Henriques só comunicou as suas intenções ao seu alferes Pero Paes, a Lourenço Viegas e a D. Gonçalo de Sousa.  

D. Afonso Henriques, partiu então de Coimbra com 250 dos seus melhores cavaleiros com a intenção de capturar a cidade moura de Santarém.  Antes da ofensiva, acamparam em Codornelas e dessa localidade enviou um emissário a Santarém a informar o Alcaide do fim das Tréguas.  

Na noite de 14 de Março de 1147, D. Afonso Henriques e o seu exército chegaram a Santarém.  D. Afonso Henriques incumbiu aos primeiros soldados a subir ao castelo, que levantassem de imediato o estandarte portucalense, a fim de motivar os companheiros de armas e enganar os inimigos, levando-os a acreditar que já haviam conquistado a fortaleza.  

Com a ajuda de escadas, quarenta e cinco homens escalaram as paredes do castelo, mataram os sentinelas mouros, hastearam o estandarte portucalense na torre de menagem e forçaram o seu caminho para o portão, abrindo-o a fim de permitir que o corpo principal do exército português entrasse na cidade.  A resistência moura foi forte, porém, já na manhã de 15 de Março de 1147, os mouros foram derrotados. 

Conforme mencionei anteriormente, naquela época Santarém era uma posição estratégica, e a sua posse permitiu que os portugueses protegessem áreas vizinhas, como Coimbra e Leiria, contra os frequentes ataques dos mouros.  Além disso, Santarém serviu como base avançada para futuras operações militares.  

A conquista de Santarém foi de importância vital para a estratégia de D. Afonso Henriques, pois a sua posse significou o fim dos ataques dos mouros muito frequentes sobre Coimbra e Leiria, e também permitiu um ataque a Lisboa, que se veio a realizar no futuro com o auxilio de Cruzados. 

Assim, a conquista de Santarém teve um relevante significado histórico na Reconquista da Península Ibérica, pois abriu caminho para um ataque posterior à cidade de Lisboa, que também estava sob domínio mouro.  A vitória em Santarém fortaleceu a posição de D. Afonso Henriques e a sua capacidade de expandir o território cristão.  

Para concluir, podemos afirmar que a conquista de Santarém é considerada a primeira operação especial na história das forças armadas portucalenses, uma vez que o grosso do exército só combateu depois de uma pequena "elite" de homens ter aniquilado estrategicamente as sentinelas que vigiavam a cidade.  A conquista de Santarém foi um marco importante na luta pela recuperação das terras ocupadas pelos mouros e contribuiu para a formação do futuro Reino de Portugal.  



 ■ ■ ■  



Salazar e Estado Novo

António de Oliveira Salazar
António de Oliveira Salazar


NASCIMENTO  DE  SALAZAR

Deus quis que a criança viesse ao mundo quando já não era esperada, o pai António de Oliveira e a mãe Maria do Resgate, já não eram jovens e tinham 50 e 44 anos respectivamente.  No decorrer de 9 anos de casamento tiveram 4 filhas, Marta, Elisa, Leopoldina e Laura.  O parto correu sem problemas em casa da família, no Vimieiro, uma localidade perto de Santa Comba Dão.  Era domingo, dia 28 de Abril de 1889, e o relógio apontava aproximadamente três horas da tarde.  

O menino seria batizado a 16 de Maio desse ano e chamar-se-ia António de Oliveira Salazar.  António de Oliveira como o pai e Salazar como o avô materno.  Foram escolhidos para seus padrinhos a ilustre e abastada família dos Perestrelos, pai e filha, cujos nomes eram, António Xavier Perestrelo Corte-Real e Maria de Pinna Perestrelo.  

Os Perestrelos não obstante aceitarem o convite para padrinhos, fizeram-se representar por um carpinteiro de nome Francisco Alves da Silva e pela sua esposa Luísa da Piedade.  Os Perestrelos não foram à igreja porque a pesar do feitor António de Oliveira não ser propriamente pobre, o carpinteiro e a sua esposa estariam mais ao nível dele.  



QUEDA  DA  MONARQUIA


Em 1908, a situação económica, política e social de Portugal estava a deteriorar-se dia após dia.  Os homens da Igreja, monárquicos, temem pela sorte da família real e vivem em constante sobressalto com as constantes ameaças de derrube do regime monárquico por meios revolucionários, a serem levados a cabo por parte dos republicanos.  Estes eram influenciados em certa medida por forças estrangeiras.  O rei D. Carlos não sabia como resolver esse gravíssimo problema.  

Entretanto, em 28 de Janeiro de 1908, falha uma tentativa para derrubar o regime monárquico.  Três dias depois, a 1 de Fevereiro, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, foram assassinados no Terreiro do Paço.  Com o assassinato do rei praticamente acabou o regime monárquico em Portugal.  O seu filho mais novo D. Manuel II, ainda foi coroado rei, mas devido à sua tenra idade e falta de preparação não conseguiu aguentar o regime por muito mais tempo.  O político Afonso Costa, um marrano,[1] rufia violento e de modos rudes, já antes tinha, meio que ameaçado de “morte” o rei D. Carlos, proferindo a seguinte frase:  

“ Por muito menos crimes do que os cometidos pelo senhor D. Carlos,
rolou no cadafalso, em França, a cabeça do rei Luís XVI. ”


Afonso Costa era membro da Maçonaria e foi por alguns poucos considerado o principal suspeito de ser o mandante desse assassinato levado a cabo por membros da Carbonária.  

Essa organização criminosa era considerada o braço armado da Maçonaria e tinha sido recém criada em Portugal.  Após o assassinato do rei D. Carlos, a Carbonária foi rapidamente extinta no nosso país.  

Os republicamos (em sua grande maioria maçons e anti-Igreja Católica), através dos jornais e publicações da época, andavam há já algumas décadas a envenenar as cabeças do povo português contra a monarquia e contra a Igreja Católica.  Assim, desta forma, os republicanos de corrente ideológica liberal e anti-Igreja Católica, em 5 de Outubro de 1910, os maçons republicanos liberais, conseguiram derrubar a monarquia e instaurar em Portugal a primeira República.  

Em poucos dias o novo regime republicano, liberal e maçónico, atacou a Igreja Católica, Afonso Costa que ocupava a pasta pasta da Justiça e Cultos, ajudou com afinco na promulgação da Lei abolindo o ensino religioso em Portugal.  Em 20 de Abril de 1911, foi promulgada a Lei da Separação entre o Estado e a Igreja.  Em 16 de Outubro, Afonso Costa, clama no Parlamento por uma política de total intransigência contra os "conspiradores" monárquicos.  

Porém, contrariamente aquilo que o ignorante e ingénuo povo português pensava, o regime republicano, liberal, ateu e anti-Igreja Católica, não resolveu nenhum problema do país, bem pelo contrário, os principais problemas do país agravaram-se ainda mais.



INSTAURAÇÃO  DA  DITADURA


O ano de 1916, foi particularmente terrível para Portugal, sucediam-se greves por mesquinhices, a criminalidade nas ruas era altíssima, havia muita agitação social e os partidos políticos não se entendiam.  A situação económica do país era gravíssima, chegou-se ao ponto de Portugal só ter farinha de trigo para pouco mais que uma semana.  Muitas padarias foram saqueadas e a farinha teve de ser racionada.  O comércio de trigo teve se ser limitado até 30 litros por família a fim de assegurar a viabilidade de pequenas sementeiras e de algum pão para o povo.  

Foi então que, Afonso Costa, em pânico com a ameaça de fome e eventual guerra civil, viu-se obrigado a pedir um empréstimo de 3 milhões de Libras a Inglaterra, que só foi concedido com a contrapartida de Portugal entrar na Primeira Guerra Mundial ao lado dos ingleses.  

Portugal comprometeu-se e enviou para a frente de combate 55.000 homens. Lamentavelmente a participação portuguesa na guerra foi catastrófica e houve um elevadíssimo número de baixas nos soldados nacionais.  

O descontentamento do povo era geral.  Foi então que, uma parte considerável da população portuguesa começou a ser da opinião que tinha sido um grande erro instaurar a República.  

Entretanto, face à péssima situação política e social de Portugal, surgiu um marechal chamado Gomes da Costa — monárquico convicto — que encabeçou um grupo de militares que eram da opinião que em Portugal fosse instaurada uma ditadura militar que governasse o país com pulso de ferro a fim de impor disciplina no povo.  

Foi então que, com esse objetivo em mente o marechal Gomes da Costa reuniu um pequeno exército e avançou para a tomada do poder em 28 de Maio de 1926.  Os militares revoltosos saíram da cidade de Braga e dirigiram-se para Lisboa com o objetivo de derrubar o governo e tomar o poder.  Todavia, esse pequeno exército não estava sozinho, militares por todo o país aderiram ao golpe de Estado que terminou com um desfile pelas ruas de Lisboa e com aplausos dos populares.  

Na altura o Presidente da República era o maçon Bernardino Machado, que de imediato se demitiu e entregou o lugar ao também maçon, almirante José Mendes Cabeçadas, que tinha liderado a revolta militar em Lisboa.  

A partir dessa altura foram proibidos os partidos políticos e acabaram as eleições.  Os governantes passaram a ser escolhidos e nomeados pelos militares.  A par disso, foram também proibidos os sindicatos, as greves e as manifestações, assim como as emissoras de rádio, os jornais e outras publicações, passaram a ser controladas e censuradas.  Ou seja, a população ficou limitada nas suas liberdades de expressão e de ação, principalmente se fossem contra o governo.  

É claro que, estas duras medidas foram absolutamente necessárias para pôr o país e a sociedade em geral no rumo certo.  Portugal rapidamente entrou na ordem, porém os graves problemas económicos persistiam e continuavam por resolver.  

Entretanto, em 1928, o general Óscar Carmona foi eleito Presidente da República.  Endereçou um convite para o Ministério das Finanças a um jovem professor da Universidade de Coimbra, chamado António de Oliveira Salazar e que a pesar de jovem já gozava de grande reputação.  

Salazar, orgulhosamente aceitou o cargo e estava decidido a resolver os problemas económicos que atormentavam o país.  

Rapidamente Salazar conseguiu fazer aquilo que nenhum outro ministro das finanças tinha feito até então, ou seja, aumentou as receitas, reduziu as despesas e assim equilibrou as contas do Estado.  Salazar tornou-se o ministro mais importante do governo, sendo-lhe atribuído o cognome de “salvador da pátria”, ele tornou-se numa espécie de herói nacional.   

Salazar tinha uma inteligência acima da média e uma habilidade nata para assuntos de economia, então muito naturalmente sobressaiu entre todos os homens de Estado.  Tal facto fez com que em 1932, o Presidente da República Óscar Carmona o tenha nomeado como Presidente do Conselho de Ministros, que na altura era um cargo muito semelhante ao de Primeiro-Ministro na actualidade.  

Para aceitar o novo cargo Salazar exigiu ser o senhor absoluto do governo e assim aconteceu.  Ele passou a controlar tudo e ninguém lhe fazia frente.  Criou o Partido União Nacional, que passou a ser o único partido autorizado em Portugal.  Criou também uma polícia política que tinha informadores secretos e perseguia todos aqueles que fossem ou falassem contra o regime.  Em 1933, mandou escrever uma nova Constituição e iniciou um novo regime político em Portugal — uma ditadura — ao qual chamou de Estado Novo.  

Todavia, nem tudo foi pacifico para Salazar.  Em 4 de Julho de 1937, foi alvo de um atentado à bomba quando se deslocava de automóvel para assistir à missa dominical.  O atentado foi feito por um grupo de militantes da CGT - Confederação Geral do Trabalho, cujo líder era Emídio Santana.  Este grupo era de inspiração anarcosindicalista.  

Neste novo regime, deixou de haver liberdade de expressão em Portugal, o que aliás, já não havia mesmo antes dele assumir o governo, os jornais e revistas tinham de enviar previamente para o gabinete de censura quatro cópias de cada página com tudo o que iam publicar.  Por sua vez, o censor, caso lesse algo que na sua ideia pudesse prejudicar o regime impedia a publicação, ou então, cortava com um “lápis azul” o que ele julgasse que não poderia ser publicado.  Para além dos jornais e revistas, a Censura também se fazia sentir em: filmes, peças de teatro, canções, livros, anúncios publicitários, pinturas, caricaturas, etc, etc.  

O povo português também deixou de ter a liberdade de falar sobre política ou dizer mal do regime.  Os que arriscavam a falar eram perseguidos, presos e torturados.  Muitos deles foram enviados para a prisão do Tarrafal, que se situava na ilha de Santiago, em Cabo-Verde.  

Salazar também criou a Mocidade Portuguesa, uma espécie de escuteiros mas com orientação política nacionalista e pró-regime, onde ensinavam as crianças dos 7 aos 14 anos a amar a nação, a respeitar as ideias do regime e a obedecerem-lhes.  

Entretanto, começou a Segunda Guerra Mundial.  Inteligentemente Salazar — com a graça de Deus — manteve Portugal neutro e livrou o nosso povo dos horrores da guerra.  Também, sabiamente, aproveitou-se da situação e exportou alimentos e outros produtos para os principais países envolvidos na guerra e, principalmente, volfrâmio, que era um minério utilizado para endurecer o aço do armamento militar.  Essas exportações renderam ao país muito dinheiro e Salazar aplicou todo esse dinheiro em obras publicas, tais como hospitais, estradas, caminhos de ferro, pontes, aeroportos, etc.  

Não obstante o país ter recebido muito dinheiro proveniente das exportações, a generalidade do povo português vivia com bastantes carências e foi nessa altura — pós-guerra — que se deu inicio à “onda” emigratória principalmente para países da Europa Ocidental e Brasil.  



OPOSIÇÃO  AO  REGIME
E
GUERRA  COLONIAL


O povo estava descontente e foi então que os opositores ao regime apoiados por várias potencias estrangeiras (EUA, Inglaterra e outros), juntaram-se aos revolucionários comunistas apoiados pela URSS[2] e começam novamente a envenenar as cabeças do povo português, tal como já o haviam feito no tempo da monarquia.  Como consequência disso, começou a haver instabilidade social e greves um pouco por todo o país.  

Foi então que, corria o ano de 1958, um general — traidor ao regime — chamado Humberto Delgado, secretamente apoiado por potencias estrangeiras, candidata-se a presidente da República.  Num celebre dia, quando Humberto Delgado é questionado por um jornalista sobre o que ele faria ao Presidente do Conselho de Ministros — ou seja, a Salazar — caso ganhasse as eleições, ele respondeu “Obviamente, demito-o!”.  Porém, a pesar de um bom apoio popular, Humberto Delgado perde as eleições para Américo Tomás, que era o candidato escolhido por Salazar e apoiado pelo regime.  

Após as eleições e com o apoio e “liderança” do “general sem medo” como era conhecido Humberto Delgado, Portugal nunca mais teve sossego social.  

O regime tinha imensos opositores interna e externamente, que trabalhavam afincadamente para interesses estrangeiros e cujo objectivo era derrubar o regime.  Por esse facto o regime teve de enfrentar várias manifestações estudantis e algumas tentativas falhadas de golpes de Estado.  Graças a Deus todas elas mal sucedidas.  Entretanto, Humberto Delgado acaba por ser assassinado em Espanha pela PIDE,[3] que era a polícia secreta portuguesa.

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, constituiu-se a ONU[4] e ficou acordado pelos países fundadores que mundialmente todas as colónias tinham direito à autodeterminação e a serem independentes.  

Assim, vários países que na altura tinham colónias começaram os respetivos processos de descolonização, entregando o poder político e administrativo aos povos autóctones, tornando assim esses países independentes.  Salazar não aderiu a essa ideia, uma vez que Portugal era um país sem recursos naturais e era das ex-colónias que Portugal adquiria uma boa parte dos recursos que necessitava nomeadamente petróleo, ferro, café, açúcar, chá e frutas diversas, entre outras coisas.  

Entretanto, potências como EUA e URSS, levadas pela ganância e ambição de dominarem o mundo inteiro, começaram a criar e armar movimentos políticos e de guerrilha que reivindicavam a independência nas ex-colónias.  Principalmente em Angola e Moçambique, que eram os países onde se encontravam muitos recursos naturais que essas potências ambicionavam explorar.  

Nessa altura Portugal era dos poucos países que ainda tinham colónias e foi então pelos motivos anteriormente mencionados que em África a revolta dos povos autóctones contra a “ocupação” portuguesa ia aumentado gradualmente.  

Aos poucos, os EUA e a URSS, foram armando as milícias de africanos autóctones que mais tarde fizeram guerra aos colonos portugueses.  A guerra colonial era previsível.  

Posto isso, foi então que em 15 de Março de 1961, em Angola, a UPA,[5] que era uma milícia de guerrilheiros autóctones — pretos — atacou e assassinou barbaramente um grande número de colonos portugueses nas fazendas do Norte de Angola.  Foi um ataque essencialmente traiçoeiro e racista contra civis — brancos — desarmados invés de ser dirigido ás forças militares e policiais do regime.  

Em resposta a esse ataque sanguinário e brutal, Salazar comunicou ao povo português que iria enviar tropas para Angola.  Nessa comunicação ficou celebre a frase “Para Angola, rapidamente e em força”.  Começou então a Guerra Colonial, que se estendeu a todas as colónias portuguesas com excepção de Macau.  

A Guerra Colonial prolongou-se por 13 anos e envolveu todas as colónias portuguesas nos continentes da África e da Ásia, ou seja, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Goa, Damão e Diu.  Havia outros dois enclaves portugueses na Índia, que se chamavam Nagar Aveli e Dadrá, mas já tinham sido perdidos no ano de 1954.  

A função dos contingentes de soldados portugueses enviados para África, foi de impedir que os guerrilheiros independentistas se apoderassem daquilo que Salazar achava que era — a extensão do — território português, ou seja, o território português ia desde a Metrópole até Timor.  

A Guerra Colonial foi um dos momentos mais traumáticos da nossa história e deixou marcas muito profundas na sociedade portuguesa, principalmente porque houve milhares de soldados mortos e feridos.  Praticamente todas as famílias portuguesas tiveram alguém a combater na Guerra Colonial.  Muitos portugueses ofereciam-se para ir combater nas ex-colónias, mas muitos outros emigraram clandestinamente para fugir da guerra.  Naquele tempo o serviço militar era obrigatório para todos os homens portugueses e quem se recusasse a cumprir o serviço militar ia preso.  

Todavia, não obstante os constantes protestos de descontentamento popular dentro e fora do país, o regime estava disposto a manter a todo o custo as colónias, até porque, Salazar, estava bem ciente que os recursos naturais das ex-colónias eram indispensáveis a Portugal.  



MORTE  DE  SALAZAR
E
FIM  DO  REGIME


Salazar já há algum tempo que dava sinais de fadiga física e mental e decide instalar-se no Forte de Santo António do Estoril.  

Na manhã de 4 de Agosto de 1968, aconteceu algo inesperado.  Após olhar a barra do Tejo, Salazar senta-se, deixando-se cair — como era hábito dele — sobre uma velha cadeira toda desconchavada, do tipo realizador de cinema, já com a lona ressequida pelo tempo, a cadeira quebrou-se, ele caiu e bateu com a cabeça no chão.  Passado esse evento, ainda nessa mesma manhã, Salazar recebe a visita do seu barbeiro, depois, em pé, leu o jornal que este lhe tinha trazido e ao sentar-se numa cadeira que momentos antes tinha sido arredada para o lado, caiu totalmente desamparado e bateu novamente com a cabeça no chão.  Dias depois, Salazar queixa-se de dores de cabeça e arrasta ligeiramente a perna direita.  A 6 de Setembro, Salazar foi internado no Hospital da Cruz Vermelha e submetido a uma intervenção cirúrgica.  No dia 16, sofre uma trombose e ficou impedido de continuar a governar.  

Os relatórios e opiniões dos médicos indicavam que dificilmente Salazar iria voltar a ter condições psíquicas e físicas para continuar a assumir a liderança do país.  

Face a este problema, o Presidente da República Américo Tomás, reúne-se com todo o Aparelho de Estado e rapidamente o regime tomou as medidas necessárias para substituir o líder e nomeou para Presidente do Conselho de Ministros um famoso professor de Direito, chamado Marcelo Caetano.  

Não se realizaram eleições em virtude do regime ser uma ditadura e, logo portanto, Marcelo Caetano foi nomeado diretamente pelo Presidente da República, Américo Tomás.  

Em 27 de Julho de 1970, é comunicado ao país o falecimento de Salazar.  



CONSIDERAÇÕES  FINAIS


Com a mudança do Presidente do Conselho de Ministros e o falecimento de Salazar, o povo português teve a esperança que a ditadura acabaria e consequentemente também a Guerra Colonial, mas foi uma pura ilusão.  Muito pouco mudou com estes dois eventos.  

Finalmente, o fim do regime político criado por este grande estadista português, veio 4 anos após a sua morte.  

Um grupo de oficiais militares com o pretexto de haver injustiças ao nível de promoções nas carreiras militares, conspiram contra o regime em conluio com um discreto apoio de forças estrangeiras.  Então, em 25 de Abril de 1974, levaram a cabo um golpe de Estado que foi bem sucedido e que ficou conhecido como o Movimento dos Capitães de Abril.  

Como nota final, é imperativo dizer que gostemos ou não de Salazar, ele foi um dos melhores, senão mesmo o melhor estadista português de todos os séculos.  Sozinho contra o mundo, sozinho contra todos os escroques de Portugal e sozinho contra todos os conspiradores internos e externos, mas, mesmo assim, conduziu sempre a sua nação pelo bom caminho.  

Salazar fez o seu melhor por Portugal e pelo seu povo.  Erros, todos nós cometemos e ele também os cometeu, porém, cuidou de Portugal como se da sua própria casa se tratasse, e, cuidou do seu povo como se dos seus próprios filhos se tratassem.  Devemos pois, estar-lhe gratos!...  

Porém, o seu maior feito foi curar o seu pobre país de uma “doença crónica” chamada endividamento sistemático.  “Doença” essa que regressou mais tarde, e, mais uma vez com um regime Republicano, Democrático e Liberal, imposto ao povo português por forças estrangeiras em 25 de Abril de 1974.  Regime que em poucas décadas mostrou ser um fracasso total, não só em Portugal, mas em todo o Ocidente.  



 ■ ■ ■



NOTAS  DE  RODAPÉ: 
[1] - Português descendente de judeus, ou judeu nascido em Portugal.  Também denominado de
          Cristão-novo.  B'nei anussim (em tradução literal, “filhos dos forçados”) ou marranos, são
          expressões hebraicas que designam os descendentes de judeus convertidos compulsivamente
          a outras religiões (anusim), sobretudo ao cristianismo e islamismo.  Mais especificamente,
          costumam referir-se aos descendentes dos judeus sefarditas portugueses e espanhóis, que 
          foram obrigados a abandonar a Lei judaica e a converterem-se ao cristianismo, contra a sua
          vontade, para escapar às perseguições movidas pela Inquisição.  Muitos desses marranos dos
          reinos cristãos da Península Ibérica cripto-judaizavam, ou seja, continuavam a observar e praticar
          clandestinamente os seus antigos costumes e a sua religião anterior que era o judaísmo.  
          Para saber mais ver:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Afonso_Costa

[2] - URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, era a antiga denominação da Rússia, dado
          que era composta por vários países (repúblicas).  

[3] - PIDE - Polícia Internacional de Defesa do Estado.  PIDE era a sigla que designava a polícia secreta
          portuguesa, criada para defender Portugal das ameaças internas e externas.  

[4] - ONU – Organização das Nações Unidas.  Foi criada com o objectivo de instaurar a paz e a ordem
          entre todas as nações do mundo.  Também há quem a considere que é uma forma subtil de 
          Governo Mundial.  

[5] - UPA - União das Populações de Angola.  Foi fundado em 1954, com o nome de, União das
         Populações do Norte de Angola (UPNA), assumindo posteriormente, em 1958, o nome de, União
         das Populações de Angola (UPA).  Actualmente chama-se: Frente Nacional de Libertação de
         Angola (FNLA), e é um partido político angolano orientado no espectro de centro-direita, 
         à direita.  



 ■ ■ ■  



Se pretender fazer o download deste post clique aqui.